Por douglas.nunes

O mercado financeiro reagiu negativamente à subida da presidente Dilma Roussef nas intenções de voto para a próxima eleição. O Ibovespa, principal índice de ações da Bolsa brasileira, chegou a cair mais de 5% e fechou em queda de 4,52% — a maior em três anos (veja na página ao lado). O dólar encerrou em alta e os juros futuros, idem. O movimento se assemelha ao que ocorreu quando o então candidato Lula despontou como favorito em 2002. Na época, o presidente precisou se comprometer com as instituições publicamente, lançando a “Carta aos Brasileiros”.

O movimento de ontem nos mercados foi mais acentuado em parte porque na sexta-feira o mercado fechou antes da última pesquisa ainda esperançoso de que a vantagem de Dilma fosse reduzida — ou seja, a Bolsa havia subido e o dólar e juros, recuado. Ontem, houve uma correção de preços. Além disso, o mercado internacional deu motivos adicionais à alta do dólar frente ao real — não apenas ao real, mas frente a moedas de todos os mercados emergentes.

“O movimento de ontem tem também relação com o cenário externo,por conta do resultado dos lucros das empresas chinesas do setor industrial, que registraram a primeira queda em dez anos. Mas teria sido moderado”, diz o estrategista chefe do Banco Mizuno, Luciano Rostagno.

O movimento estaria sendo exacerbado pela pesquisa eleitoral com retomada da vantagem pela presidente Dilma, e pela reversão das especulações positivas feitas na sexta feira.

O diretor de gestão de recursos da Ativa Corretora, Arnaldo Curvello, lembra que o movimento d ontem não é isolado. ressalta que “Setembro foi um mês de correção dos mercados, com a Bolsa devolvendo parte dos ganhos conquistados em agosto”, diz. O executivo lembra que as pesquisas eleitorais estão dando o tom dos negócios no mercado de renda variável. “Hoje, as chances são de 50% para melhorar e 50% para piorar”, diz. Isso porque, as pesquisas eleitorais mostram que pode tanto haver continuidade do atual governo, como a oposição vencer a disputa. De acordo com ele, o mercado avalia que a mudança de governo será positiva e, se isso se confirmar, já deve haver uma mudança de tendência no “day after” da eleição.

Curvello pondera que mesmo ciente de que 2015 será um ano difícil, o mercado está disposto a ver mudança e avalia que a para a candidata Dilma Roussef será mais complicado conquistar a credibilidade. “O mercado não vai dar este voto de confiança a ela. Está cada vez mais difícil acreditar que ela promoverá a volta do tripé. Ela está atacando esta linha na campanha,e tem feito declarações heterodoxas. Uma coisa é ganhar a eleição, outra é governar”, avalia.

Os entrevistados evitam prever os próximos movimentos. Mas a maioria concorda com Curvello. “O mercado está precificando as chances de uma redução na classificação de risco país do Brasil, que são maiores caso Dilma seja reeleita”, disse um economista que preferiu não se identificar. “Ao que tudo indica, ela faria alguns ajustes mas manteria as bases do seu modelo econômico, de estimular consumo manter o mercado de trabalho aquecido, bem como a presença forte do Estado na economia, com gastos elevados e déficit público preocupante. Os gastos leva a preocupação”, completa a fonte. Para ele, “vai ser difícil para Dilma entregar o que vai ser necessário para reverter a tendência de rebaixamento do grau de investimento. Houve perda de confiança, e se a economia não voltar a crescer não vai ter ajuste fiscal. É um cenário desafiador”.

Wellington Ramos, economista da Austin Rating, nota que o pessimismo transpareceu principalmente nas cotações das ações de empresas estatais, como a Petrobras. “Mas os bancos também sofreram”. Houve forte saída de investidores também pelas perspectivas de alta maior dos juros nos Estados Unidos.”É difícil prever o que acontecerá com os preços dos ativos. Mas se Dilma mantiver a vantagem até sexta, o mercado tende a continuar pessimista”, afirma.

‘Reações estão exageradas e irracionais’, diz Diretor e chefe de Pesquisas de Mercados Emergentes da Nomura em Nova York, Tony Volpon

O que explica a forte reação negativa dos mercados à retomada da vantagem da presidenta Dilma Roussef na sucessão presidencial ?

O mercado tem reagido a mudanças sutis nas pesquisas de intenção de voto de forma exagerada e irracional. Houve dois momentos de exagero. Um, há mais ou menos um mês, quando o mercado acreditava que a candidata Marina Silva iria ganhar as eleições. O outro momento foi ontem, depois do resultado da pesquisa DataFolha que mostrou Dilma na frente.

A que se deve esses exageros?

O mercado ainda vê políticas econômicas muito diferentes sendo adotadas a partir do ano que vem pelo governo federal, dependendo de quem ganhar. A disputa está muito apertada e o mercado fica muito volátil, oscilando entre dois extremos.

As cotações de ontem indicam o que o mercado acredita que esses são os preços justos no caso de um novo governo Dilma?

Acredito que esses são os preços dos ativos que se atribui à política econômica de um novo governo Dilma. A taxa de juros, por exemplo, está precificada ao redor de 10% no caso de um governo Marina Silva ou Aécio Neves, e em 13% no caso da reeleição de Dilma. Nesse último caso, a hipótese é de que o juro terá que subir para combater a inflação. No caso da vitória da oposição, ao contrário, o mercado acredita que a inflação seria melhor controlada, por conta de cortes nos gastos públicos; e que a credibilidade seria reestabelecida, reduzindo o prêmio de risco (que os investidores exigem para comprar títulos brasileiros). Além disso, há a questão do Banco Central independente, que também conta pontos positivos à credibilidade. Os candidatos da oposição são favoráveis a essa independência, mas a Dilma não. No câmbio, o mercado considera que com Marina presidente ainda teria espaço para apreciação do real, devido ao otimismo sobre o que seria a sua política econômica — ao contrário do que se espera de Dilma. No primeiro caso, o dólar ficaria entre R$ 2,15 e R$ 2,20 e com a Dilma, de R$ 2,45 a R$ 2,50.

Mas ainda há no mercado analistas, economistas e banqueiros que tem uma visão menos pessimista sobre a reeleição de Dilma?

Sim, a visão otimista também existe. Tem quem considere que depois de quatro anos esse governo aprendeu alguma coisa, e quem veja momentos de pragmatismo, que aparecem sempre que há uma pressão do mercado — por exemplo, quando o BC elevou os juros para combater a inflação, acima do teto que alguns consideravam possível. Mas em política fiscal não houve pragmatismo algum, e deve continuar não havendo. Mas teve momentos bons e ruins no governo.

E o que esperar para os próximos meses?

O problema é que não dá para saber se vai prevalecer o pragmatismo ou o idealismo, pois a trajetória não foi homogênea. É uma incógnita, não tem como distinguir ou prever o que vai acontecer com os preços dos ativos. Vai depender se um novo governo do PT vai rever políticas que, na minha opinião, não deram certo; ou se vai manter e lançar só algumas pontes para fazer pequenos ajustes. Mas temos que lembrar que não é só o Brasil que está sofrendo, mas todos os emergentes.

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