A participação do investidor estrangeiro na Bovespa em setembro é a maior desde janeiro de 2010. Segundo dados da Bolsa, até o dia 29 do mês passado, o investidor estrangeiro foi responsável por 52,2% do volume total negociado, com R$ 92,8 bilhões em compras e R$ 88,4 bilhões em vendas. O movimento mostra que os estrangeiros estão menos preocupados com as questões de curto prazo, como a eleição para presidente da República, que tem levado a Bolsa a ir do céu ao inferno a cada nova pesquisa eleitoral.
No último dia 29, o Conselho Monetário Nacional (CMN) deu mais uma força para aumentar a presença desse segmento na Bolsa. A resolução autoriza não residentes no País a usar contas mantidas no Brasil para fazer aplicações. Os investidores também poderão emitir ordem de pagamento do exterior, em reais. Até agora, somente empréstimos e financiamentos no exterior e investimentos diretos contavam com essa possibilidade. Os aplicadores estrangeiros precisavam fazer duas operações de câmbio. Uma, transferindo recursos da conta no Brasil para o exterior. Depois, convertendo a moeda estrangeira em real para ingressar no País. A mudança entra em vigor no dia 2 de março de 2015.
De acordo com o presidente da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), Leonardo Pereira,que participou ontem da 39ª Conferência Anual da Iosco,a resolução não apresenta risco e foi estudada por mais de um ano pelo comitê de risco interno da associação. “Estamos bastante confortáveis de que isso não apresenta aumento de risco. É uma coisa que traz mais possibilidade para os estrangeiros investirem no Brasil. Estamos bastante confortáveis com a decisão”, diz, acrescentando que a decisão não vai de encontro com as definições de Iosco. “Pelo contrário, estamos bastante alinhados. Nós fazemos parte do Comitê de Mercados Emergentes e em Crescimento da Iosco, então estamos falando em consonância tanto na parte digital, quanto na questão da política monetária”, diz.
Esse temor político do investidor doméstico parece passar ao largo do estrangeiro. Para o diretor da Mirae Asset Securities, Pablo Spyer, o gringo investe pensando no longo prazo e, esse tipo de avaliação não faz sentido. “O doméstico está suscetível às pesquisas políticas. Isso não é correto, é coisa de especulador. Nunca estrangeiro investiu tanto na Bolsa”, afirma.
Spyer avalia que esse movimento faz parte do excesso de liquidez no mercado internacional e também é consequência do fato de o investidor norte-americano estar preocupado com o término do programa de incentivo do governo dos Estados Unidos, este mês. Ele lembra que as bolsas por lá têm batido recordes de valorização e avalia que quando o programa acabar pode haver uma forte realização de lucros por lá, o que poderia trazer mais recursos para o Brasil. “O dólar subiu no mês passado quase 10% isso significa que, em dólares, a Bolsa está 10% mais barata, ou seja, está dando oportunidade de compra”, avalia.
De acordo com Spyer, a única coisa que levaria o estrangeiro a tirar os recursos em massa da Bolsa, seria o Brasil perder o grau de investimento. O especialista lembra que existem alguns fundos globais que, por Lei, só podem investir em país com grau de investimento. “Isso, sim, levaria a Bolsa a desmoronar e os estrangeiros irem embora daqui”, estima.
A cada nova pesquisa, a Bolsa vai de um extremo ao outro. Quando os levantamentos mostram que há possibilidade da oposição derrotar o atual governo, a Bolsa sobe e bate recordes. O mesmo acontece de forma negativa, quando a pesquisa indica que a presidente Dilma Rousseff continuará no comando d o País por mais quatro anos. Para se ter uma ideia, o Ibovespa encerrou setembro com queda de 11,7%, maior declínio mensal desde maio de 2012, refletindo a pesquisa eleitoral que mostrou recuperação da candidata do PT. Ontem, não foi diferente e a Bolsa amargou nova perda, de 2,32%.
Pereira, da CVM, disse que o órgão está acompanhando a intensa volatilidade no mercado de capitais e que, até agora, não há nada que indique movimentos fora do padrão.
O diretor internacional da Gradual Investimentos, Cláudio Pacini, lembra que em todas as eleições sempre é verificado forte volatilidade. “A Bolsa sempre reage com velocidade e movimentos brutos de alta e de baixa, principalmente com as ações de maior peso, como Petrobras e bancos”, lembra, ressaltando ainda que este é um movimento típico do especulador. “Você percebe pela velocidade com que as ações sobem e caem, são trader de volatilidade operando o momento. Os fundamentos das empresas ficaram de lado”, diz.
Pacini, no entanto, avalia que passada a eleição a racionalidade deve voltar aos negócios. “O mercado, como tudo na vida, se ajusta”, pondera. “Acredito que seja quem for o novo presidente, a condução da política economia vai ser feita de forma coerente. Nenhum deles vai arriscar ir na contramão das expectativas do mercado. Também não acho que Dilma vai mudar loucamente a política econômica. Acho que não vai ter mudança brusca”, avalia.
Ontem, os investidores de bonds parecem ter começado a considerar que a vitória de Dilma deve se confirmar, e isso fez o mercado de dívida corporativa do país registrar a maior queda em 15 meses. As notas caíram 2,3% no mês passado até 29 de setembro, quase o triplo do declínio médio dos bonds de empresas de mercados emergentes. A Petrobras, maior emissora de dívida no exterior entre as empresas de países em desenvolvimento, com US$ 55 bilhões em bonds, viu seus títulos recuarem 2,9%.