Moody’s vê menos lucro e mais calote em bancos

Vários fatores devem prejudicar tanto a demanda por crédito quanto os lucros. Agência prevê uma redução no ritmo de alta dos empréstimos para a faixa entre 10% e 12%

Por O Dia

A Moody’s Investors Service vê um cenário mais difícil para o sistema bancário brasileiro neste final de ano e em 2015, com lucros em queda e a volta dos atrasos, que se estabilizaram em 3% nos últimos meses. A responsável é a persistente desaceleração da economia e a mudança do mix das carteiras de crédito, que estão mais concentradas em linhas mais seguras e com spreads menores — por isso, as margens tendem a continuar menores do que nos últimos anos.

Diante desse ambiente, a agência de classificação de riscos cortou a perspectiva dos bancos brasileiros de estável para negativa. A análise está no relatório “Brazil Banking System Outlook” (“Perspectiva do Sistema Bancário Brasileiro”). Na última terça-feira, em evento anual realizado em São Paulo, a Moody’s havia antecipado que faria a revisão na sexta-feira. A divulgação do relatório, porém, foi antecipada para ontem.
“A mudança ocorreu diante das dificuldades crescentes no ambiente operacional do país, o que deverá restringir os volumes de negócios, prejudicar a qualidade dos ativos e reduzir a rentabilidade. Esperamos que a economia brasileira cresça menos de 1% neste ano, e apenas 1% no próximo”, afirma Ceres Lisboa, vice presidente da Moody’s e coautora do relatório.

Segundo Ceres, a “inflação persistentemente elevada, um abrandamento do mercado de trabalho e declínio da confiança dos consumidores e do empresariado vão prejudicar tanto a demanda por crédito como os lucros dos bancos.” A agência vê uma redução no ritmo de crescimento dos empréstimos para a faixa entre 10% e 12% em 2014.

O relatório aponta uma “bifurcação” do sistema bancário, com os bancos públicos buscando crescimento agressivo nos anos recentes em uma tentativa de estimular a economia, enquanto os bancos privados estiveram mais conservadores. Os bancos privados alteraram seu foco em direção a empréstimos de baixo risco, o que ajudou a manter baixo o nível de inadimplência, mas os bancos públicos estão mais vulneráveis e começaram apenas recentemente a restringir o crescimento do crédito. Ainda, diante da elevada proporção de empréstimos de maior risco, os seus custos de provisionamento serão mais altos do que no setor privado.

Mas a Moody’s vê a liquidez do sistema ainda bastante forte, especialmente para os maiores bancos — e uma desaceleração na concessão de empréstimos deverá reduzir suas necessidades de financiamento e melhorar os níveis de capitalização, ainda que de forma leve. “A inadimplência provavelmente vai subir gradualmente ao longo dos próximos 12 a 18 meses, em que a economia continuará a crescer em ritmo lento. Mas amplas reservas e capital devem permitir que os bancos absorvam grandes perdas no caso de dificuldades”, diz Ceres. A especialista lembra que os Indicadores de Patrimônio de Referência declinaram apenas de forma modesta desde que os bancos adotaram as regras de Basileia III, embora os públicos estejam detendo mais dívida do que os do setor privado.

Ceres diz que ainda acredita que as “instituições sistemicamente importantes” continuarão recebendo suporte no caso de necessidade. “Mas diante da escala crescente do sistema e das condições fiscais enfraquecidas do governo, fornecer suporte suficiente irá se tornar mais difícil, e os reguladores no Brasil agora estão considerando regimes de resolução que até mesmo poderiam eliminar o suporte do governo para algumas classes de dívida dos bancos”, diz Ceres.

A Moody’s analisa 50 instituições financeiras no Brasil, que, juntos, constituíam cerca de 92% dos ativos totais do sistema em junho último (incluindo bancos de desenvolvimento e uma empresa de financiamento ao consumidor). “O sistema bancário brasileiro é concentrado, com os cinco maiores bancos representando 70% dos ativos totais; os restantes são dispersos em um grande número de pequenos e médios bancos”, diz o relatório. As avaliações de crédito dos bancos brasileiros(BCAS) ficam em um intervalo de Baa1 para b2, com média ponderada de ativos é Baa2.

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