Por bruno.dutra
Depois da Petrobras e das empreiteiras investigadas na Operação Lava Jato, agora é a vez de os bancos sentirem em seus títulos de dívida externa os reflexos no mercado internacional. O Banco do Brasil e a Caixa Econômica Federal também tiveram o custo dos empréstimos elevados. Embora as instituições financeiras não estejam envolvidas nas denuncias elas podem ter que pagar multa se forem encontradas irregularidades nos empréstimos concedidos às empresas envolvidas.
Segundo a analista do JPMorgan Chase & Co. em Nova York, Natalia Corfield, as notícias envolvendo os bancos começam a pressionar o segmento. “Nós estamos vendo mais e mais notícias ligadas aos bancos, o que irá criar volatilidade para os títulos. Embora os bancos não tenham sido diretamente implicados na investigação, eles emprestam para a Petrobras e para as empresas que estão envolvidas nas denúncias de corrupção”, afirmou.
De acordo com estimativas do JPMorgan, o Banco do Brasil tem a maior exposição em Petrobras e empresas do setor de construção, com empréstimos que representam 11,4% do total da carteira de créditos diretos do banco. Já o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) tem 9,5% e a Caixa, 6,2%.
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A OAS, construtora brasileira também envolvida no escândalo, informou na semana passada que não teria recursos para compromissos financeiros da sua emissão de dívida neste mês. A empresa precisa de um empréstimo de US$ 760 milhões e o risco de não conseguir honrar a dívida fez surgir no mercado a especulação de que possa pedir recuperação judicial. Questionada sobre essa possibilidade, a assessoria de imprensa da OAS informou que a empresa “continua dialogando com todos seus credores e apresentará um plano de reestruturação em breve”.
Depois da Fitch Rating reduzir a nota de várias empreiteiras, ontem foi a vez das agências de classificação de risco Standard & Poor’s e Moody’s cortar as notas de crédito da Mendes Junior Trading e Engenharia, citando efeitos da investigação Lava Jato.
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A nota da empresa foi reduzida pela S&P de "B" para "CCC+". Já a Moody's cortou a classificação de "B3" para "Ca". A perspectiva de ambas as agências para a empresa é negativa. “O rebaixamento reflete a redução na geração de fluxo de caixa e liquidez mais fraca, em meio às atuais investigações de corrupção relacionadas ao potencial superfaturamento de contratos assinados com a Petrobras”, afirma a S&P em comunicado à imprensa. Já a Moody’s citou que apesar do sólido histórico da Mendes Junior no mercado de construção e forte expertise técnica na execução dos projetos para o setor público no Brasil, a “companhia tem um mercado base muito concentrado em poucos grandes projetos na carteira”.
Além dos bancos, que já começam a sentir os efeitos das denuncias de corrupção, empresas de outro setores e também estatais devem ter dificuldade de emitir no exterior e, se conseguirem, irão pagar um custo maior pela colocação dos papéis, avalia o estrategista-chefe do banco Mizuho, Luciano Rostagno. “Já teve declarações de pessoas da deleção premiada de que haveria corrupção em outras estatais. De forma geral, dá para dizer que o escândalo deve aumentar o custo de crédito das empresas do país, principalmente as ligadas a estatais”, diz.
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O sócio da área de mercado de capitais da Veirano Advogados Carlos Lobo concorda que o custo das operações deve ficar maior, mas, pondera que esse movimento já vem sendo percebido desde o ano passado por conta dos fatores macroeconômicos, que agora foram acentuados com as denúncias de corrupção. “O investidor estrangeiro está receoso com o Brasil desde o segundo semestre. O mercado de bônus vem cobrando preço mais alto. O que aconteceu com a Petrobras piorou a situação. Existe a percepção de que este problema vai afetar outras empresas”, diz.
No entanto, apesar do custo alto, ele afirma que o mercado ainda está aberto para as companhias brasileiras. “Empresas do setor de infraestrutura e energia continuam ativas. Têm empresas se preparando e aguardando um pouco para saber a repercussão dos fatos antes de ir a mercado”, diz, ressaltando ainda que boa parte da credibilidade do investidor virá das medidas que estão sendo adotadas pelo governo. “O humor do mercado para o ano vai ser pautado pelas medidas do governo. A missão é resgatar a credibilidade e mostrar que o país está caminhando para o crescimento. Se o investidor se convencer nesses dois meses, o mercado (internacional) já fica mais simpático a captação”, avalia.
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Por outro lado, a dificuldade financeira das empresas pode ser uma oportunidade de negócio. É o que enxergou a Brasil Plural, que administra R$ 20 bilhões em ativos e está começando um fundo no próximo mês para investir em empresas com dificuldades financeiras. Em entrevista à Bloomberg, o CEO da Brasil Plural, Rodolfo Riechert, disse que está tentando levantar até R$ 200 milhões para um fundo especial para investir nas empresas que entrarem em recuperação judicial ou que não tiverem acesso ao crédito, inclusive os fornecedores da Petrobras. “A Plural pode começar fundos para assumir as empresas maiores, se a iniciativa for bem sucedida”, diz.
Com Rodrigo Carro e agências
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