Por monica.lima

Com o crescimento ainda lento em 2015, e pressões vindas de diversos setores econômicos como consequência das investigações da Operação Lava Jato, a deterioração da qualidade dos ativos de crédito dos bancos brasileiros será inevitável — ainda que limitada. Empréstimos sem garantia — caso dos cartões de crédito — não vão escapar de um aumento mais acentuado dos atrasos em 2015. No ano passado, segundo o Banco Central, o índice de inadimplência fechou em 28,9%, ante 25,6% em dezembro de 2013.

“O Brasil é o país emergente que tem mais perspectivas negativas para o setor bancário em 2015”, disse ontem em teleconferência com jornalistas da América Latina Franklin Santarelli, chefe de instituições financeiras na região. “Estamos vendo um crescimento fraco pelo segundo ano seguido, cenário agravado pelo escândalo Petrobras e aumento dos gastos públicos”, completa.

Segundo a Fitch, “ventos desfavoráveis” devem atingir o mercado bancário brasileiro neste ano — embora soprando em direções amigáveis em algumas linhas de negócio. “A qualidade dos produtos sem garantia (como cartões) está se deteriorando muito rapidamente”, diz Alejandro Garcia diretor senior da Fitch, responsável pelas análises do setor bancário brasileiro, também em teleconferência.

Mas a Fitch, ao mesmo tempo, vê fatores que limitam os riscos, como o agressivo crescimento dos bancos públicos nos últimos anos, e a boa recuperação de margens dos bancos privados. O aumento do volume dilui a inadimplência, mantendo os índices sob controle. O lucro dos três maiores bancos privados cresceu mais de 20% em 2014.

Além disso, a qualidade dos ativos de varejo é beneficiada pelo aumento do crédito imobiliário. No final de 2007, somente 10,1% de toda a carteira do sistema bancário voltada ao varejo estava aplicada em crédito para imóveis; em setembro, o percentual havia praticamente triplicado, para 29,9%.

“O Brasil enfrenta desafios em diversas frentes. O crescimento não será maior do que 1% em 2015”, afirmou Garcia. Por isso, acredita que o crescimento dos empréstimos continuará desacelerando e, na medida em que as carteiras amadurecem, a inadimplência cresce e a qualidade de ativos piora. “No segmento de crédito para empresas, a tendência também é de queda, acompanhando os sinais negativos da economia e a revelação de esquema de corrupção na Petrobras”, diz.

A agência destaca que o setor de petróleo e gás persiste como fonte de risco, devido a menores investimentos esperados e potencial impacto das investigações de corrupção.

“O câmbio e a inflação alta também pressionam os custos das empresas. A queda dos preços do petróleo poderia ajudar a contrabalançar essa alta, mas não será suficiente”, acredita.

Outro ponto ressaltado pela Fitch em relação ao risco de deterioração é que boa parte dos empréstimos de varejo ainda não foi testada nas circunstâncias atuais. Mas os principais bancos privados estariam menos expostos e mais capazes de absorver problemas dos clientes. A maior preocupação é com os bancos públicos e médios.

Os grandes bancos privados com ratings “grau de investimento” apresentam maior diversificação e deverão manter bom perfil financeiro, em geral, enquanto os com ratings “grau especulativo” devem sofrer maiores pressões, podendo ocorrer alguns rebaixamentos, segundo a análise. Mas de forma geral, a agência diz que a perspectiva dos ratings continua estável, uma vez que os pontos fracos já foram capturados na maioria dos atuais ratings dos bancos.

Santarelli lembra que 2014 foi um ano difícil para a maioria dos países latinos. Da mesma forma, acredita que a maioria pode encarar 2015 - mas as tendências podem mudar rapidamente. “Este ano traz desafios externos adicionais para as economias e bancos da região, como a possível alta dos juros Estados Unidos, a alta das moedas em relação ao dólar , a desaceleração da economia chinesa e o baixa crescimento na Europa. Entre os emergentes, Índia e China são os que vão crescer mais. Na América Latina, a melhor esperança para 2015 é o México”, acredita Santarelli.

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