Por monica.lima

São Paulo - O volume de novas operações de crédito realizadas pelo sistema bancário no mês passado despencou 18,5% em relação a dezembro, passando de R$ 370 bilhões para R$ 301 bilhões, segundo dados divulgados ontem pelo Banco Central (BC).

A queda foi puxada pela falta de apetite das empresas, que contrataram R$ 130,8 bilhões em janeiro último ante R$ 179,5 bilhões em dezembro, queda de 27,2%. O volume foi menor também em relação às contratações de janeiro de 2014, que haviam sido de R$ 135,2 bilhões. No caso das pessoas físicas, também houve retração, embora menor. Os juros e os spreads (diferença entre o que os bancos pagam para captar recursos no mercado, e o que cobram nos empréstimos) subiram, agravando o desaquecimento da procura.

“O cenário para o crédito em 2015 é de desaquecimento. Com juros cada vez mais altos, os clientes vão demandar menos, dado o preço; e os bancos vão ofertar menos, dado o medo de aumento da inadimplência”, diz o consultor Celso Grisi, presidente da Fractal.

Embora a inadimplência esteja relativamente estável em 2,9%, Grisi acredita que este não é um nível confortável e precisa continuar a ser monitorado, principalmente em ambiente econômico desfavorável. Além disso, muitas empresas envolvidas em esquemas de corrupção que estão sendo investigadas pela Operação Lava Jato — a começar pela Petrobras — devem aos bancos, o que representa uma ameaça ainda não totalmente quantificada.

A taxa média de juros atingiu 25,1% ao ano em janeiro, alta de 1,2 ponto percentual (p.p.) no mês e de 1,8 p.p. em doze meses. No crédito livre, o custo médio situou-se em 39,4% ao ano., após crescimentos de 1,8 p.p. no mês e 4,5 p.p. em doze meses. No crédito direcionado, a taxa média foi de 8,4% ao ano em janeiro, com variação de 0,6 p.p. no mês e em doze meses. Para pessoas físicas, o custo médio cresceu 1,4 ponto percentual (p.p.). no mês e 2,3 p.p. em doze meses, para 32,4% ao ano. No crédito a empresas, a taxa média de juros alcançou 17,4%, após crescimento de 0,9 p.p. no mês e em doze meses. O spread bancário nas operações com recursos livres e direcionados aumentou 1,1 p.p. no mês e 1,8 p.p. em doze meses, a 16,2 p.p. em janeiro.

O chefe do Departamento Econômico do BC, Tulio Maciel, admitiu que houve aumento “em praticamente todas as modalidades de taxas de juros”. Segundo ele, o movimento pode ser relacionado ao ciclo de política monetária, ou seja, à política de elevação da Selic, taxa básica de juros da economia, adotada nos últimos meses pela autoridade monetária. “É possível que parte da alta de juros reflita mudanças anunciadas nas taxas em programas no âmbito do BNDES”, disse.

O crédito total do sistema financeiro atingiu R$ 3,01 trilhões em janeiro, redução de 0,2% no mês e aumento de 11% em doze meses, após expansões de 2,1% e 11,3% no mês anterior. A evolução mensal foi influenciada pela retração de 1,1% no saldo destinado a pessoas jurídicas, que somou R$ 1,59 trilhão, enquanto a carteira de pessoas físicas cresceu 0,9%, totalizando R$ 1,43 trilhão.

As operações com recursos livres alcançaram R$ 1,57 trilhão em janeiro, com variações de -0,7% no mês e 5,1% em doze meses. Segundo o BC, a retração mensal foi determinada pela redução sazonal na demanda de crédito às empresas. Na carteira de pessoas físicas, o crédito livre cresceu 0,4%, atingindo R$ 788 bilhões, destacando-se as operações de crédito pessoal e cheque especial.

O crédito direcionado totalizou R$ 1,45 trilhão, com crescimentos de 0,5% no mês e 18,2% em doze meses. A variação mensal refletiu a expansão de 1,4% nos financiamentos a pessoas físicas, com saldo de R$ 637 bilhões, determinada pela manutenção no ritmo de concessões do crédito imobiliário. A carteira destinada às empresas somou R$ 810 bilhões, redução de 0,2%, influenciada pela redução sazonal das contratações com recursos do BNDES para investimentos.

Grisi, da Fractal, também vê uma retração dos bancos público, que vinham sustentado o crescimento do crédito com suas políticas anticíclicas. “No ano passado, o Tesouro deixou de repassar R$ 45 bilhões ao Banco do Brasil e BNDES. Fica difícil continuar subsidiando empréstimos”, diz.

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