Lava Jato traz risco de efeito cascata a bancos

Afirmação é da Moody´s, que sugere redução do compulsório sobre depósitos para incentivar as instituições a manterem o crédito a empresas de óleo & gás e empreiteiras

Por O Dia

São Paulo - A Operação Lava Jato - que apura esquema de corrupção e propinas em contratos da Petrobras com fornecedores — pode provocar um efeito cascata sobre os bancos que tenham em seus portfolios empréstimos às empresas envolvidas. A afirmação é da agência de classificação de risco de crédito Moody’s, que recentemente retirou o grau de investimento da estatal.

O efeito ocorreria caso as empresas (a maioria dos setores de óleo & gás e de construção pesada) ficassem sem acesso a crédito, o que poderia provocar uma onda de falências. “Os bancos estão fazendo os cálculos para saber ao certo quanto estão expostos (às empresas dos setores) e apertando os critérios para concessão e renovação de empréstimos”, diz o relatório, assinado pela diretora Celina Vansetti-Hutchins.

Alguns bancos já podem estar inclinados a continuar oferecendo crédito para a indústria ou a reestruturar a dívida existente com a preocupação de que um aumento das falências pode causar uma espiral de problemas, o que tornaria mais difícil para eles cobrar as garantias, diz o relatório.

Mas, para evitar o risco, o Banco Central poderia incentivar os bancos a manter o fluxo de crédito aberto para os setores de construção e óleo & gás reduzindo o compulsório sobre depósitos, sugere a Moody’s.

A agência vê um aumento da inadimplência em 2015, após uma estabilização no ano passado. E não apenas por conta da Operação Lava Jato, mas também pelo enfraquecimento geral da economia brasileira.

“A instabilidade nos setores de construção pesada e de óleo & gás deve agravar as perspectivas já negativas para o setor financeiro brasileiro em 2015. Os custos de provisionamentos contra calotes continuarão subindo, principalmente em bancos públicos”, diz o relatório. No ano passado, o saldo de provisões nos cinco maiores bancos aumentou 7,32% em média, a R$ 118,8 bilhões.

“Qualquer aumento nas provisões dos bancos contra perdas relacionadas à Petrobras e aos seus fornecedores, assim como aos setores de petróleo e gás e de construção, poderia prejudicar lucros e levar a um aperto das condições de crédito”, prevê Celina.

Segundo a Moody’s, no final de janeiro a Petrobras tinha cerca de US$ 57 bilhões em bônus e cerca de US$ 80 bilhões em vários tipos de empréstimos.

Na época da divulgação do balanço de 2014, os presidentes do grandes bancos falaram sobre o risco. O presidente do Bradesco, Luiz Carlos Trabuco Cappi, disse que o banco tem 7% da sua carteira emprestada a empreiteiras, por exemplo. “Mas crédito é apenas uma parte dos nossos negócios”. Já o novo presidente do Banco do Brasil, Alexandre Abreu, afirmou que “não há nenhum motivo para um alerta maior sobre esse ponto”, explicando que o banco tem uma exposição equivalente a 5% da sua carteira de crédito a empresas de óleo & gás (entre elas, a Petrobras) e de 2,1% a construtoras.

Roberto Setubal, presidente do Itaú Unibanco, disse que a porção do portfólio da carteira da instituição financeira exposta às empresas ligadas ao Lava Jato “é muito pequena”, mas não deu um número, “por sigilo bancário”. Mas afirmou que a exposição ao Lava Jato não é relevante. Já o Santander Brasil admitiu ter grande exposição a empresas envolvidas na investigação, mas que está confortável com seu modelo de risco, afirmou o vice-presidente de finanças da instituição, Angel Santodomingo. “É claro que temos grande exposição. Não podia ser diferente. É o mesmo para todo grande banco”, disse o executivo a analistas e investidores, sem detalhar a exposição às empresas envolvidas na investigação que apura denúncias de corrupção na Petrobras.

Jorge Hereda, ex-presidente da Caixa, estimou a exposição da instituição a empresas envolvidas na Lava Jato a algo entre 1,5% e 2% da sua carteira de crédito. E afirmou que a grande maioria é em projetos com garantia. Com agências

Pine já teve nota cortada por aumento do risco

Pequenos e médios bancos, como o Pine — que teve sua nota cortada em 26 de janeiro pela Moody’s — também estão indiretamente expostos aos riscos de um efeito cascata da operação Lava Jato, por meio de empréstimos a cadeia de fornecedores da Petrobras. Uma significativa exposição a qualquer um dos setores os tornaria vulneráveis a uma decisão da Petrobras de cancelar projetos ou atrasar pagamentos a fornecedores.

A conclusão está no mesmo relatório divulgado ontem pela Moody’s, sobre os bancos e a Lava Jato. “A concentração das carteiras dos bancos de médio porte brasileiros não é só em empresas de óleo & gás e construção, e explica as várias ações de rating negativas tomadas ao longo dos últimos dois anos”, diz a agência.

A Moody’s rebaixou os ratings do Pine devido à elevada exposição de crédito do banco a setores que enfrentam condições operacionais desafiadoras, incluindo açúcar e álcool, energia renovável e construção civil. Em setembro, os empréstimos do Pine à empresas do segmento de açúcar e álcool responderam por aproximadamente 66% do seu capital de nível 1, enquanto a exposição ao setor de construção civil representou 78% do capital de nível 1, ambos níveis elevados comparados aos seus pares, disse a Moody's. “Um aumento no nível de inadimplência de clientes desses segmentos poderia consumir rapidamente o colchão de reservas do Pine, que representam 2,1% da carteira de empréstimos, e impor perdas ao seu capital”.

Logo após o rebaixamento, o Pine revelou que apenas 3% da sua carteira estava diretamente exposta a empresas envolvidas na investigação. No mercado internacional, os preços dos bônus do banco despencaram ao nível de “distressed”. Com agências

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