'A inadimplência está mais ligada à renda do que ao juro'

Segundo o novo presidente da Anefac, Antonio Carlos Machado, 'sem renda, o consumidor pode deixar de honrar dívidas para priorizar outras necessidades'

Por O Dia

Em um ano de expectativa de crescimento negativo da economia e juro em alta, a inadimplência volta a preocupar. Para o novo presidente da Associação Nacional dos Executivos de Finanças, Administração e Contabilidade (Anefac), Antonio Carlos Machado, o principal ponto que pode contribuir para o aumento no número de devedores é a renda. “Num ano de ajuste, a perda de emprego é o que mais preocupa. Sem renda, o consumidor pode deixar de honrar dívidas para priorizar outras necessidades”, prevê.

Alta da Selic e economia fraca podem levar a aumento da inadimplência este ano? 

A inadimplência não está só relacionada a juro. Está relacionada, principalmente, à questão da renda. Se o trabalhador perde a renda, ele deixa de honrar seus compromissos e isso pode, sim, levar a um aumento da inadimplência. A alta da Selic deve inibir novos compromissos.

O aperto monetário ajudará a conter a inflação? 

O aumento de juro é inibidor de ações de preços, ou seja, de repasse. A questão de juro está comprometida pela falta de contas públicas organizadas. Hoje, a política fiscal se sobrepõe às demais políticas. Não acho que 0,50 pontos percentuais causarão o impacto adequado. É a questão: fazer ou deixar de fazer? É muito complexo deixar de atacar a inflação, mesmo sabendo que a questão monetária não é relevante neste momento. 

O ajuste fiscal é suficiente para a economia voltar a crescer?

Todo mundo está vendo o esforço do novo ministro (Joaquim Levy, da Fazenda) em tentar colocar a casa em ordem, via política fiscal. Este ano o governo vai ter que pensar também na sua gestão. Os esforços caminhando no sentido do aumento de arrecadação são importantes mas entendemos que, assim como todas as organizações, o governo vai ter que trabalhar fortemente esta questão de gestão de custos. Eu vejo uma economia complexa, que num primeiro momento terá alta de impostos e que as empresas terão que atuar muito fortemente na contenção de custos, mas o governo ainda não mostrou para a sociedade como vai trabalhar este outro lado da política fiscal, que é o gasto.

Se o governo não fizer a parte dele, o sucesso das medidas está comprometido

As medidas serão muito mais eficientes se trabalhar esta questão de gastos. No aumento de arrecadação você transfere para sociedade um ônus muito grande e não dá contrapartida, que é ter um governo consciente. As medidas, até agora, estão no sentido de trazer a economia de volta para o trilho, mas para isso o governo precisa fazer a parte dele. É uma política fiscal necessária, mas o Estado precisa arrumar as suas contas e pensar o lado das despesas, não só das receitas.

A corrupção da Petrobras fez crescer a discussão sobre governança corporativa, o senhor acha que esse tema precisa ser mais debatido?

A governança fortalece uma empresa. Ela não é uma coisa que precisa ser praticada por mandato, é uma questão cultural. A governança precisa ser entendida, assimilada, cultuada, trabalhada, permanentemente revisada e treinada. É um processo, não é uma coisa que você decreta. O que está acontecendo mostra isso, em nenhum momento você pode esquecer essa questão de governança.

Tem como um contabilista ou administrador identificar casos de desvio de dinheiro, como o que ocorreu na Petrobras? 

O caso da Petrobras é complexo. A Petrobras é complexa. É uma empresa muito grande. Até agora, pelo que foi publicado pela imprensa, o que havia dentro da Petrobras era um grupo de pessoas que burlava de maneira sofisticada os controles internos da organização. Administradores de empresas não são pessoas onipresentes e, para garantir que todos os recursos da organização sejam utilizados de forma adequada, implantam controles internos que são um conjunto de normas, inclusive de ética, procedimentos administrativos e operacionais, e sistemas nos diversos níveis de atividades da empresa. Grupos que conheçam o trâmite e funcionamento destes controles e que estejam intencionados em desviar recursos criam alternativas sofisticadas, de forma que seus atos não sejam capturados por tais controles, fraudando assim as operações da empresa. A única forma de garantir que os controles funcionem é por meio de um permanente trabalho de supervisão, testes e revisão deste conjunto de procedimentos, sistemas e normas. É como uma máquina, que de tempos em tempos necessita de manutenção.

Esses profissionais podem ser responsabilizados pelo desvio?

Existem dois tipos de responsabilidade, a culpa e o dolo. E existem dois tipos de fraudes, a operacional e a contábil. Ambas, obviamente, acarretam prejuízos a uma organização. A justiça terá ainda que identificar estes quatro aspectos para se poder caracterizar as responsabilidades destes profissionais.

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