Tesouro Direto quer se tornar aplicação popular

Mudanças recentes visam ampliar a base de investidores e competir com a tradicional poupança; com 13 anos de vida, o estoque, de R$ 15 bi, não chega a 1% da dívida pública

Por O Dia

São Paulo - Nem o risco zero, nem a rentabilidade alta nem a facilidade de aplicar pela internet foram, ainda, capazes de convencer o investidor brasileiro a trocar a tradicional caderneta de poupança pelas aplicações em títulos da dívida do governo no Tesouro Direto.

As últimas modificações no programa, anunciadas na semana passada, tornarão a aplicação ainda mais atraente a partir do dia 30, quando entram em vigor. Além de trocar os nomes dos papéis por outros mais palatáveis aos investidores, deram a possibilidade de vender e comprar todos os dias - a famosa liquidez diária, tão corriqueira no tempo da hiperinflação e ainda hoje disponível em aplicações em alguns fundos e títulos privados.

“Hoje, o estoque do Tesouro Direto, de R$ 15,4 bilhões, não chega nem a 1% do total da dívida pública federal em títulos”, diz Débora Christina Marquês Araújo, analista do Tesouro Nacional. Para o Tesouro Direto, quanto mais popular for a aplicação em seus títulos, menos ele fica refém de grandes instituições nos leilões. Vendendo mais no varejo, pode pagar mais barato. “Há um grande potencial de crescimento. Não temos uma meta, vamos monitorar os efeitos das recentes mudanças que fizemos”, diz Débora.

A analista afirma que apesar de ser uma aplicação praticamente imbatível, em termos de risco, taxa e prazo, o Tesouro Direto é ainda muito novo, com apenas 13 anos. “Precisamos quebrar a cultura da caderneta de poupança”, diz, lembrando que os títulos públicos rendem mais embora, além de desconhecidos do grande público, exijam um pouco mais de educação financeira por parte do investidor.

“Não dá para comparar com a caderneta. Todo brasileiro adulto já nasceu sabendo o que era a poupança”, afirma.

Quando Débora fala em educação financeira, ela quer dizer que o investidor precisa escolher qual a forma de remuneração (juros prefixados, inflação ou Selic, os juros básicos da economia) e a data de vencimento; enfim, precisa fazer contas. E apesar de estar ao alcance de um clique, para usar o site do Tesouro Direto o investidor precisa antes se cadastrar junto a uma instituição financeira, que pode ser um banco ou corretora credenciado para operar. Algumas não cobram taxas, outras cobram até 2% ao ano.

“Mas ainda assim, comparando com aplicações em fundos, a vantagem é grande, pois no Tesouro Direto o cliente pode aplicar a partir de R$ 30 e num fundo, para obter uma taxa de administração de 0,5%, por exemplo, é preciso aplicar pelo menos R$ 500 mil”, explica a analista do Tesouro.

As mudanças implantadas foram resultado de um estudo em 2013 com 800 investidores potenciais distribuídos por cinco capitais, e também especialistas em finanças e docentes. Segundo a analista do Tesouro, foi detectada a demanda de recompra diária para os títulos. O objetivo era equiparar as aplicações do Tesouro Direto às dos outros produtos de renda fixa, disse Débora.

“Não queremos acabar com a poupança, mas sim oferecer outras opções para o brasileiro diversificar seus investimentos”.

No mês passado, os saques da caderneta atingiram valor recorde de R$ 6,3 bilhões - ainda maior do que a já volumosa fuga de R$ 5,5 bilhões ocorrida em janeiro. “Mesmo com uma ajudinha recente da TR, o rendimento da poupança dificilmente ultrapassa a marca de 0,66% ao mês (veja o gráfico abaixo, extraído do Banco Central). Com investimentos tradicionais em LFTs, você consegue um retorno líquido de quase 0,80% ao mês. Quem percebe isso faz a migração na hora”, diz Rodolfo Amstalden, analista da Empiricus Research.

No ano passado, aproximadamente 35% das vendas do Tesouro Direto foram de até R$ 1 mil, enquanto as aplicações de até R$ 5 mil corresponderam a 65% do total. Em relação à composição do estoque por prazo, 37,9% dos títulos têm vencimento entre 1 e 5 anos; 22,8% vencem em até 1 ano; 22,6% têm prazo de vencimento entre 5 e 10 anos; e 16,8% acima de 10 anos. Os títulos remunerados por índices de preços são 63,1% do estoque, seguido pelos prefixados (24,2%) e pelos indexados à taxa Selic (12,7%).

Permissão de recompra diária é atrativo extra

Com a recompra diária, os investidores poderão vender seus títulos ao Tesouro Nacional todos os dias, ampliando a liquidez e a flexibilidade da aplicação. Antes, a recompra só ocorria às quartas-feiras. Essa opção será aberta todos os dias úteis, a partir das 18h, e encerrada às 5h do dia seguinte. Nos fins de semana e feriados, essa funcionalidade será oferecida o dia inteiro. Em todos os casos, as transações serão executadas sob os últimos preços de fechamento de mercado disponíveis.

A consultora de investimentos da Órama, Sandra Blanco, lembra porém que a liquidez diária nos títulos do Tesouro Direto é vantajosa apenas para os pós-fixados, as antigas LFTs que passaram a se chamar Tesouro Selic. “Esses são títulos que variam diariamente e progressivamente. Se a taxa sobe, ele sobe e, se a taxa cai, ele rende menos, não cai”, diz.

Já os títulos prefixados e atrelados à inflação devem ser pensados mais no longo prazo e são para investidores menos conservadores. “Dependendo da precificação de taxa, o título pode ter desvalorização e o rendimento pode ser negativo, vai depender da taxa que está sendo praticada pelo mercado na data do resgate. Agora, se levar até o vencimento, o investidor vai ganhar”, diz, acrescentando ainda que é preciso observar a característica de cada título antes de optar pelo investimento.

Os impostos cobrados são os mesmos que incidem sobre as operações de renda fixa: o Imposto Sobre Operações Financeiras (IOF), para resgates da aplicação em menos de 30 dias, e o Imposto de Renda (IR), com alíquota regressiva a depender do prazo do investimento (22,5% para aplicações com prazo de até 180 dias, 20% para aplicações com prazo de 181 dias até 360 dias; 17,5% para aplicações com prazo de 361 dias até 720 dias; e 15% para aplicações com prazo acima de 720 dias).

Há incidência de impostos sobre os rendimentos financeiros auferidos na venda antecipada, no pagamento de cupom de juros (O IOF não incide sobre os cupons de juros; somente o IR) e no vencimento dos títulos.

Para o diretor da Easynvest, Amerson Magalhães, a mudança do produto para liquidez diária é positiva e pode atrair mais investidores interessados no segmento. Ele lembra ainda que o produto será um concorrente do fundo DI - no entanto, a taxa de administração cobrada pelas instituições quase sempre é maior que as do Tesouro Direto.

Magalhães ressalta ainda que mesmo que haja uma procura maior pelo produto, isso não deve impactar a dívida do governo. “O volume do Tesouro Direto hoje é um porcentual pequeno da dívida do governo. Não faz diferença, não é expressivo”, afirma. Hoje, do total que a Easynvest tem em custódia, 30% é de Tesouro Direto. “A expectativa é de que haverá um aumento na velocidade de crescimento do segmento”, estima.

O administrador de investimentos Fábio Colombo, também aprova a liquidação diária do produto, no entanto, ele não acredita que a mudança servirá de incentivo para as pessoas investirem nos títulos. “Acho que são medidas que veem ajudar, mas não são decisivas para o investidor de outro produto semelhante, que também tem liquidez diária, migrar para o Tesouro Direto”, avalia.

Colombo descarta a possibilidade desse produto se tornar foco de especuladores que buscam ganhar em operações de curto prazo. “Ganhar dinheiro comprando e vendendo o título no mesmo dia vai ser uma tarefa bastante difícil, porque tem o spread entre a compra e a venda. Não acho viável”, afirma.

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