Ações a menos de R$ 1,00 podem sair da Bovespa

Nova regra da Bolsa para proteger investidor e evitar volatilidade no preços deve obrigar empresas a fazer grupamento dos papéis

Por O Dia

Este pode ser um ano marcado pelo grupamento de ações. Isto porque os papéis que são negociados abaixo de R$ 1,00, os chamados “penny stocks”, têm até o dia 18 de agosto para se adaptar às novas regras da BMF&Bovespa que não irá mais permitir a negociação das ações com esta característica. São cerca de 540 papeis negociados na Bolsa, segundo a assessoria de imprensa e, desse total, 70 têm valor inferior a R$ 1,00.

Para o presidente da Magliano Corretora, Raymundo Magliano Neto, a regra é positiva, pois eliminará do pregão ações que são facilmente manipuladas e que podem passar uma impressão errada para o pequeno investidor que está conhecendo o mercado de capitais.

Segundo o executivo, a Bolsa fez essa mudança pensando na proteção do investidor, pois as ações cotadas abaixo de R$ 1,00 são muito fáceis de serem manipuladas, o que atrai o especulador, mas afugenta o investidor. “Uma ação com essa característica pode subir 20% num dia e cair 20% no outro. O investidor pessoa física pode ver uma valorização deste nível e entrar no mercado comprando esse papel porque é barato. O papel cai, assusta o investidor e ele não volta. “É muito saudável não ter mais penny stocks”, diz.

Neto ressalta que o grupamento de ações, na prática, não muda nada para o investidor. “Você tinha 10 ações e faz o grupamento de 10 para 1, você passa a ter uma ação mais cara. Não tem diferença nenhuma”, afirma. Ele explica que nos Estados Unidos, existe uma preocupação muito grande com esta questão. “Lá, a bolsa manda carta para os clientes explicando o risco de comprar uma penny stock, por ser um papel altamente especulativo”, diz.

O analista da Ativa Investimentos Lucas Marins, ressalta que o grupamento tem dois efeitos: um, que aumenta a liquidez porque o papel passa a valer mais e se torna mais atrativo. O outro é que as empresas que estão passando por dificuldades financeiras podem ver novas quedas das suas ações. “Pode ser bom ou ruim, depende da empresa. Se ela estiver passando por ajustes financeiros pode significar mais queda. Agora, se a empresa estiver num processo de reestruturação pode aumentar o apetite do investidor”, avalia.
Para Marins, a tendência majoritária das empresas deve ser pelo grupamento. “Não vejo motivo para fechamento de capital, a não ser a empresa que estiver com graves problemas financeiros, que vai perder mais dinheiro se continuar sendo negociada”, avalia.

Já para Neto, as empresas não devem fechar capital e, sim, deixar de ser listadas até se enquadrarem nas exigências da Bolsa. Ele ressalta que isso pode ser ruim para o investidor que não terá onde negociar os seus papéis. “Se não fizer o grupamento o investidor vai ter menor liquidez ainda. Ele terá que arranjar quem queira comprar o papel, como a empresa, por exemplo”, afirma.

Neto lembra ainda que é importante que as empresas façam um grupamento grande, para que a ação fique bem acima de R$ 1,00, para que, caso o papel volte a cair, ele não corra o risco de se desenquadrar da nova regra. “A Renar é um bom exemplo disso. A empresa fez o grupamento o ano passado e hoje a ação vale R$ 4,00. Se o papel, por algum motivo, despencar 50%, ela vai valer R$ 2,00 e não menos que R$ 1,00”, diz.

O diretor financeiro de relações com investidores da Renar Maçãs, Renato Roberti Rincon, explica que o grupamento foi feito o ano passada já visando se enquadrar as novas regras. De acordo com ele, a empresa passou por uma grande reestruturação nos últimos anos e em 2014 o resultado já começou a aparecer. “2014 foi o primeiro ano de resultado operacional três vezes maior que 2013 e 2015 tende a ser melhor ainda. Desde 2012 estávamos fazendo a redução de dívida e 2014 foi a consolidação. Agora, estamos colhendo os frutos. Estamos investindo e dando retorno”, diz, acrescentando ainda que o aumento de liquidez pode não ser sentido este ano em razão das incertezas macroeconômicas, mas que a empresa está preparada para quando a economia voltar a crescer.

O diretor de relações com investidores da Inepar, Irajá Galliano Andrade, disse que a empresa também deve realizar um grupamento de ações. De acordo com ele, a Inepar está em recuperação judicial e há um plano com uma série de ações que visão reverter à situação de dificuldade financeira. O processo será submetido à assembleia de credores em 17 de abril e a expectativa é de que ele seja aprovado. “Nós estamos declarando que a empresa está em dificuldade, mas tem plano para saldar a dívida . Dificilmente deixará de ser aprovada, porque senão levará ao passo seguinte, que é a falência e, neste caso, tem a escala de prioridades e o investidor pode deixar de receber”, explica.

Depois de aprovado o plano de reestruturação, Andrade acredita que as ações podem ganhar algum fôlego na Bolsa. “Agora, não dá para responder se vai subir acima de R$ 1,00”, diz. Mesmo que a reestruturação fosse um sucesso, muito provavelmente, a empresa não escaparia do grupamento de ações. Isto porque, ontem os papéis encerraram valendo R$ 0,18 tanto o ordinário quanto o preferencial, e para chegar a R$ 1,00 as ações teriam que ter uma mega valorização de quase 500%. Considerando que este é um ano de expectativa de crescimento zero para a economia é muito difícil alcançar esta proeza.

Andrade afirma ainda que após este processo o próximo passo é o Novo Mercado. “Hoje nós estamos no nível de governança corporativa e queremos ser percebidos como empresa do Novo Mercado. O plano de reestruturação é de dois anos, o Novo Mercado viria a partir de dois anos”, diz.
De acordo com a assessoria de imprensa da Bolsa, o regulamento visa à listagem de emissores mais qualificados e ampliação de mercado, por meio de análise mais aprofundada das informações prestadas.

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