'A maior parte do ajuste fiscal vem do Executivo'

Segundo o economista-chefe da Votorantim Corretora, Roberto Padovani, esta é a aposta do mercado financeiro para o sucesso da implementação das medidas do ministro da Fazenda, Joaquim Levy

Por O Dia

“O movimento que estamos vendo nos últimos meses tem mais a ver com ajustes de preços do que uma crise aguda de confiança que leve a demanda por moeda no mercado à vista”, diz PadovaniPiervi Fonseca

São Paulo - Apesar das dificuldades enfrentadas pelo governo com Congresso para aprovar as medidas de ajuste fiscal, o mercado financeiro está otimista no sucesso da sua implementação pelo ministro da Fazenda, Joaquim Levy, que vão permitir o país resgatar a confiança dos investidores e trazer o Brasil de volta ao crescimento em 2016. Para o economista-chefe da Votorantim Corretora, Roberto Padovani, a aposta se baseia no entendimento de que a “a maior parte do ajuste fiscal vem do Executivo e menos do Legislativo”.

As medidas de ajuste fiscal do governo são suficientes para o Brasil voltar a crescer?

São suficientes na medida em que gera dinâmica fiscal positiva para o governo e, ao gerar dinâmica positiva ajuda a resgatar confiança e, na medida que resgata confiança, você começa a pensar em retomada da economia em 2016.

O governo vai conseguir aprovar o ajuste no Congresso?

Acho que vai ser um processo, como sempre, cheio de turbulências e ruídos, mas o governo vai conseguir aprovar. Ainda que haja dificuldade de aprovação, o governo controla uma boa parte das medidas fiscais. Estimo que dois terços de todo o ajuste fiscal depende do governo e, só dele, e não do Congresso. A maior parte do ajuste fiscal vem do Executivo e menos do Legislativo.

A manutenção do rating pela Standard & Poor's ajuda a restaurar a confiança no país?

Isso mostra que mais do que olhar a relação dívida/PIB, as agências de rating — a S&P neste momento é a mais importante — , estão de olho na dinâmica fiscal. Mesmo que o resultado primário, deste e do próximo ano, não seja suficiente para estabilizar a relação dívida/PIB, o fato de ter revertido a política econômica é um sinal muito bom e mostra uma reorientação de política. E, ao mostrar reorientação de política, deixou a S&P confortável com o nível de classificação de risco.

O avanço da inflação tem levado à zeragem de títulos indexados à inflação, como as NTN-B, isso mostra que o mercado está apostando na alta de juro. O mercado está correto? 

Normalmente, quando inflação sobe ou se estabiliza num patamar elevado, o mercado sempre trabalha com hipótese de que o BC irá aumentar o juro e, isso, de fato, tem ocorrido, e vai continuar. Portanto, faz sentido o mercado reagir. O mercado já considera, principalmente, nos preços de ativos, e trabalha com novas altas. A discussão é saber quão longo é este ciclo de aperto monetário. Eu acho que sobe mais 0,50 ponto porcentual e encerra o processo. Dá para dizer que o juro ao redor do atual patamar já contribui de maneira importante em 2016, e a inflação já começa a caminhar em direção ao centro da meta.

Como você avalia o fim do swap cambial

O que explica esta alta recente do dólar não foram as incertezas locais, mas o ambiente global em que o dólar se valorizou em relação às demais moedas no mundo, esse é o movimento central. O que o BC tenta fazer é suavizar este movimento. Os instrumentos que tem usado, como o swap cambial, ajudam a evitar movimentos mais bruscos. Faz sentido primeiro que o BC não queira definir nível de moeda, queira só suavizar o movimento, segundo, este instrumento tem uso limitado e, terceiro, quanto mais usar pode provocar um efeito reverso e piorar o fundamento econômico e, não ajudar o mercado. Faz todo sentido o fim deste ciclo, que faça só a rolagem.

Vai ser necessário um novo instrumento para conter a volatilidade da moeda? 

Depende da intensidade dos movimentos cambiais. Se a moeda continuar desvalorizando, e eu acho que pode continuar desvalorizando, talvez não seja necessário nenhum tipo de intervenção. Agora, a partir do momento que a intensidade dos movimentos do câmbio assusta, isso não é bom para a economia, não é bom para ninguém, e cabe ao BC agir. O BC tem instrumentos, tem reservas elevadas, tem o programa de swap, ele pode oferecer proteção no mercado futuro, mas isso vai depender da intensidade do movimento. A economia brasileira é uma economia que tem fundamentos relativamente arrumados, então o movimento que estamos vendo nos últimos meses tem muito mais a ver com ajustes de preços do que uma crise aguda de confiança, que leve à demanda por moeda no mercado à vista. Não há uma corrida contra a moeda brasileira.

Você acha possível algum IPO (oferta primária de ações) este ano?

O mercado de equity é um mercado um pouco travado no curto prazo. Existem muitas dúvidas sobre o crescimento este ano e discussão sobre retomada em 2016. Acho que não é o momento de fazer IPO agora. Mas, ao longo do segundo semestre, quando as pessoas começarem a olhar mais para 2016 e conseguirem enxergar uma retomada, eu acho que aí é o momento de se tomar dívida ou fazer um IPO, ou com equity ou com dívida. As empresas vão buscar financiamento e acho que os mercados vão estar mais abertos para essas operações. O investidor, de modo geral, já percebe o mercado de ações como um mercado barato, e isso pode gerar uma retomada do segmento de equity. Associado a um 2016 melhor, passa a ser interessante voltar a mercado para se financiar. É um segmento que começa a ser retomado, sim.

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