'Juro zero atrai mais consumidores do que descontos à vista'

Em entrevista, Décio Carbonari, presidente da Anef, a associação dos bancos de montadoras, diz o que oferecer taxa zero virou cultural aqui como era no exterior

Por O Dia

O que motiva mesmo a compra de automóveis é a renda, e quando ela cai, as vendas caem junto. Apesar dessa certeza, Décio Carbonari, presidente da associação que reúne os bancos das montadoras, diz que a “taxa zero” virou um importante atrativo, mais valioso até do que desconto para pagamento a vista . “Desde que a presidenta Dilma promoveu a queda das taxas por meio dos bancos públicos, em 2012, os consumidores passaram a discutir taxas. Agora as montadoras têm que oferecer juro zero, virou cultural aqui, como já era no exterior”.

Como os bancos de montadoras conseguem oferecer financiamentos a taxas zero?

A montadoras subsidiam os seus bancos. É assim na Europa e Estados Unidos. Aqui já existia isso, em promoções ocasionais. Mas desde 2012 quando a presidenta Dilma passou a usar os bancos públicos para baixar as taxas a prática foi institucionalizada.

Qual prática?

A prática de comparar e negociar . Outro dia mesmo oferecendo taxa zero - cobrando só IOF e taxa de abertura de crédito - um cliente ainda saiu da concessionária e disse que ia ver se o banco dele oferecia algo melhor. Só se devolvesse dinheiro! Então as montadoras se viram obrigadas a ampliar a oferta de contratos com taxas subsidiadas. E será assim neste ano de novo.

Por quê ?

Antigamente as pessoas só queriam saber se a prestação cabia no orçamento. Hoje isso mudou, o consumidor não quer desconto a vista, quer juro zero. Não conseguimos sair do juro zero (ou muito baixo, em alguns casos, mas sempre abaixo do mercado) nem no segmento de luxo. Mesmo quem tem dinheiro hoje prefere deixar o dinheiro aplicado e comprar a prazo, com juro zero. Além disso, também temos mais flexibilidade na oferta de prazos.

E a oferta de financiamento a juro zero está ajudando as vendas mesmo agora com a economia desaquecida?

Os financiamento com juros zero, ou muito baixos, são subsidiados pelas montadoras para vender grandes bancos de varejo cobram em torno de 2% ao mês em média. Então só os bancos de montadora conseguem oferecer essas condições. As montadoras pagam a diferença para os bancos. A prática foi estendida também porque os outros bancos que atuam no financiamento de veículos passaram a ficar mais seletivos, depois de perderem alguns bilhões de reais com a inadimplência em alguns contratos, a partir de 2012. Então ajudar ajuda, mas não tem jeito: venda de carro depende de renda disponível, e ela está caindo. As vendas no primeiro trimestre caíram 18% em relação a 2014. Os financiamentos diminuem junto. E também sofrem a concorrência dos consórcios. Há cerca de dez anos, o percentual de carros vendidos a vista é o mesmo, cerca de 38%. Os consórcios dobraram de 4% para 8% e os financiamentos caíram de 58% para 54%.

Quando a Anef prevê uma retomada da economia?

Quando o desemprego bater no fundo do poço, mas é difícil prever. Enquanto isso não acontecer é renda perdida, consumo reduzido e baixa possibilidade de retomada. Mas, obviamente, existe uma reação exacerbada em relação a quanto a economia piorou. O Brasil não vai derreter. A economia ia mal até outubro, mas quem estava desinformado sobre a economia tomou consciência da situação a partir do momento em que a Dilma começou a mudar a política econômica anterior, o que assustou muita gente que votou nela.

A reação está exagerada?

Acho que sim. Nada derrete de repente, a reação dos consumidores foi impressionante. No caso dos automóveis a reação já era relativamente esperada porque é um bem caro, e porque algumas políticas haviam estimulado a antecipação de compras. Mas até cabeleireiros estão em pânico, reclamando que o movimento caiu 50%. Isso não faz sentido, a economia brasileira não diminuiu à metade em três meses...

Mas um dia será possível voltar a vender tantos automóveis quanto antes? Já não chegamos no limite ?

Sim, voltaremos a vender tanto quanto antes. O Brasil ainda tem uma média baixa de pessoas por automóvel: oito ou nove apenas. Tem muitos lugares onde ainda há muito espaço para crescer. Claro que não em São Paulo, onde a média já é a mesma dos Estados Unidos, algo como 1,3 habitante por automóvel. Mas mesmo no Rio e Belo Horizonte as médias são bem mais baixas, o problema não é excesso de carros, é excesso de obras, falta de infraestrutura...

Mas a mobilidade, principalmente nas grandes cidades, não seria melhor resolvida sem tantos carros e mais transporte público e ciclovias ?

A ideia de que a mobilidade urbana vai ser feita por metrô e ônibus e não automóvel não me convence, acho que isso é coisa para países ricos - minha filha morou oito anos em Washington e nunca teve carro, pois ou levava 4 minutos de bicicleta ou 12 minutos andando de casa até o trabalho. Acho um privilégio essa mobilidade tão charmosa em NY, Berlim e Tóquio... mas aqui se a pessoa mora em Itaquera e trabalha no Ceasa não pode ir de bicicleta. Mobilidade é andar em ônibus com ar condicionado, música ambiente e sentado, com um ponto na porta de casa e um na frente do escritório. Enquanto isso não é possível, as pessoas vão melhor de carro. A faxineira de um escritório de direito no Pacaembu, zona oeste de São Paulo, mora na Zona Leste mas vai e volta de carro porque sai mais barato e mais rápido: ela leva 1h15, ante 3 horas que ela levaria de ônibus.

Mas e as ciclovias, não ajudam?

Quando eu era criança morava em Itatiba, interior de São Paulo, e às vezes ia com meu pai visitar uma fábrica. A primeira coisa que se via na entrada das fábricas ali naquela época era um bicicletário, pois naquele tempo não tinha transporte público em Itatiba e todo mundo ia trabalhar de bicicleta. A cidade tinha 12 mil habitantes e quando eu tinha 11 anos começou a circular o primeiro ônibus. Imediatamente todo mundo largou da bicicleta. Andar de bicicleta é coisa chic de quem é cool. Pobre quer ônibus confortável com ar condicionado. Claro que estou brincando, mas o fato é que vamos continuar vendendo veículos. A mobilidade é melhor resolvida com automóvel.

E quanto a ir trabalhar a pé, ou fazer home office... essas também não são tendências que condenam o automóvel a um papel menos relevante no futuro?

Sim e cada vez mais as pessoas descobrem isso. Um terço de quem mora na Barra Funda, bairro na zona central de São Paulo, já vai trabalhar no centro a pé. Mas mesmo com ferrovias, hidrovias... nunca vamos substituir completamente o carro. Mesmo a Alemanha, país com malha ferroviária enorme, ainda transporta carga de caminhão -trem serve para muita carga sem pressa de chegar; uma linha de montagem requer velocidade de entrega....

Quantos bancos de montadoras existem hoje no Brasil?

Há 19 montadoras com fábricas no Brasil, quase todas com seus próprios bancos. Mas antes os bancos eram subsidiárias das filiais das montadoras aqui e, de uns anos para cá, viraram filiais das unidades de finanças dos grupos. A Financial Services da Volks, por exemplo, tem bancos em 42 países.

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