Por monica.lima

São Paulo - O presidente do Banco Central (BC) Alexandre Tombini disse ontem em São Paulo que a inflação só vai voltar ao centro da meta — ou seja, a 4,5% ao ano — no final de 2016. O último IPCA ficou em 7,3%. “Os avanços alcançados no combate à inflação, a exemplo de sinais favoráveis vindos de indicadores de expectativas de médio e longo prazo, contudo, ainda não se mostram suficientes. Diante disso faz-se necessário manter a política monetária vigilante. Só assim conseguiremos alcançar um dos pilares do regime de metas para a inflação, que é ancorar as expectativas e assegurar a convergência da inflação para a meta de 4,5% em dezembro de 2016, cujos benefícios, uma vez feito isso, deverão se estender para além do próximo ano”, disse Tombini.

Embora possa parecer um prazo longo para a volta da inflação à meta, se isso acontecer pode representar exatamente o oposto, ou seja: se a inflação baixar tanto assim em menos de dois anos, a economia terá desaquecido muito. A opinião é do economista-chefe do Itaú Unibanco, Ilan Goldfajn.

Tombini e Goldfajn estavam ontem em São Paulo em evento promovido pelo Itaú BBA. Para o economista, a inflação vai chegar no final de 2016 a 5,5%. “É uma queda que eu considero muito relevante. Claro que a inflação pode ficar abaixo disso mas nesse caso estaremos em um cenário mais pessimista, de mais desemprego e atividade bem mais fraca", disse. Só com desaquecimento da economia os preços teriam muita dificuldade de serem repassados. Somente com esse cenário mais pessimista que se chega a uma inflação abaixo de 5,5%”, diz.

O Itaú prevê recuperação da economia em 2016 e, ainda assim, uma queda da inflação, o que ele considera muito bom.

Para Goldfajn o “vigilante” usado pelo presidente do BC em seu discurso ontem significa que as taxas de juros básicas, a Selic, continuarão subindo. “Quanto e até quando não está muito claro”, disse. “Vigilante significa não deixar a inflação de 8% deste ano se perpetuar. Em relação a juros, parte do mercado interpreta que isso significa subir 0,25% na próxima reunião e outros, 0,50%”.

Segundo o economista, nem o Copom tem essa clareza ainda, e vai decidir na reunião que começa dia 28 próximo. O Itaú acredita em 0,25%, “mas não com uma convicção ferrenha”. Mas acredita que o ciclo de alta está no final, fazendo uma ressalva: “Se a taxa de câmbio dispara, o BC pode se vir obrigado a aumentar mais os juros para manter a inflação”, diz.

O presidente do BC deixou claro que está monitorando essa variável bem de perto. Mas fez questão de ressaltar que a alta tem motivos externos. “O fortalecimento do dólar norte-americano tem ocorrido contra várias moedas, alcançando o maior patamar dos últimos doze anos. O dólar índex, que mede a valorização do dólar norte-americano contra as seis principais moedas, valorizou-se 25% somente nos últimos doze meses”, disse Tombini.

Em relação a ajuste fiscal, Goldfajn acredita que o Congresso deve aprovar – não tudo, mas uma parte. Mais cedo, no mesmo evento, o cientista político da Eurasia Chris Garman disse que o mercado estava precoupado com o foco errado — ou seja, segundo ele o problema não é o embate entre governo e PMDB nem dificuldades com o Congresso — o problema são as consequências da Operação Lava Jato. Goldfajn disse concordar e acrescentou, ainda, que o ajuste depende mais de corte de gastos do governo e de aumento das receitas do que de decisões votadas pelo Congresso.

Já o presidente do Itaú BBA, Candido Bracher, afirmou que o ajuste trará efeitos benéficos ao País. “Ninguém duvida de que estaremos melhor, mas o período é doloroso. Os desafios são muito grandes.”

Tombini confirmou em seu discurso que a economia brasileira passa por processo de ajuste “importante e necessário”. Mas disse que esse processo fará de 2015 um ano de transição, com vistas a construção de bases mais sólidas para a retomada do crescimento econômico sustentável à frente.

Itaú BBA fará mais repasse do BNDES

O Itaú BBA vai aumentar em torno de 20% o volume de recursos do BNDES que repassa aos clientes, para financiamento de projetos principalmente de infraestrutura. A informação foi dada ontem pelo vice-presidente da instituição Alberto Fernandes, durante o Macro Vision 2015.

O aumento é uma das maneira de compensar a reducão dos empréstimos que o BNDES vai fazer diretamente para as empresas, conforme anunciado recentemente. Em tempos de ajuste fiscal, o Tesouro — maior provedor de recursos para o BNDES — vai deixar de captar a taxas de mercado e repassar a TJLP. A medida é uma das necessárias para cortar gastos públicos.

“Nos repasses, o BNDES empresta o dinheiro ao banco, ou seja, o risco que corre é o de não receber da instiuição, e não de uma empresa. Com isso, as liberações saem mais rapidamente. E os bancos, por sua vez, também conhecem melhor seus clientes e podem fazer uma análise de crédito com mais agilidade do que o BNDES”, diz Fernandes. Para o executivo, os outros bancos do mercado podem fazer o mesmo, ou seja, ampliar o volume de repasses em até 20%. “Mas apenas quando houver demanda”, diz, lembrando que no momento até leilões de concessão estão parados.

Bradesco e Itaú são os maiores parceiros privados do BNDES. No ano passado, 48% dos desembolsos foram de operações indiretas , as que os bancos repassam aos clientes. 

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