Por monica.lima

São Paulo -A alta da taxa de juros básica da economia, a Selic — que hoje está em 12,75% mas deve subir mais 0,50 ponto percentual (p.p.) na próxima reunião do Copom — continua pressionando os juros dos empréstimos. Segundo a nota de crédito divulgada pelo Banco Central (BC) na sexta-feira, considerando os recursos livres e direcionados, para empresas e pessoas físicas, os juros subiram 0,2 p.p. em março, em média, para 25,8% ao ano.

Segundo o BC, nas operações com pessoas físicas, o custo médio subiu 0,4 p.p. no mês e 1,8 p.p. em doze meses, situando-se em 33,2% a.a. Nas contratações com recursos livres, a taxa alcançou 54,4% a.a, após alta mensal de 0,1 p.p. No crédito direcionado, o custo médio das operações com as famílias avançou 0,9 p.p. no mês, atingindo 8,5% a.a.

No entanto, as médias encobrem situações extremas, como a do crédito rotativo nos cartões, que custam agora até 345,8% ao ano. Em março de 2014, a taxa já era de absurdos 314% — mas de lá para cá subiu mais de 30 p.p. No mês passado, foram concedidos R$ 68,9 bilhões em crédito rotativo, 1,3% menos do que em fevereiro. O saldo da modalidade encerrou o mês em R$ 30,5 bilhões, o que representa um quinto do total que é movimentado em cartões (além do rotativo, tem vendas a vista e parceladas).

No cheque especial, as taxas cobradas não ficam muito atrás: fecharam março em 220,4% ao ano, em média. O valor é o maior em 19 anos. O custo é o dobro de um crédito pessoal comum, e quatro vezes maior do que a taxa média cobrada nos empréstimos pessoais consignados (com garantia do salário, benefício ou aposentadoria).

O problema no caso do cheque especial é que as concessões aumentaram 15% em março, para R$ 32,2 bilhões. “É mais uma prova de que as condições de crédito no sistema pioraram”, diz Miguel Ribeiro Oliveira, vice-presidente da Associação Nacional dos Executivos de Finanças, Administração e Contabilidade (Anefac). O cheque especial é uma linha rotativa e de curto prazo, que dá um fôlego e geralmente está pré-aprovada, à disposição dos correntistas dos bancos. “O aumento do uso do cheque especial comprova a maior dificuldade que as pessoas estão encontrando para honrar seus compromissos com a renda disponível”, diz.

Para o executivo da Anefac, as taxas tendem a subir mais e a inadimplência, que se mostrou ainda comportada em março, deve subir nos próximos meses, puxada pelo aumento do desemprego e queda da atividade econômica, que tem impacto negativo sobre o faturamento das empresas.

“Além disso, os bancos estão mais restritivos desde o ano passado”, diz Oliveira. Para ele, as concessões de crédito aumentaram em março apenas porque o mês tem mais dias úteis que fevereiro. O próprio BC reconheceu isso, e ainda acrescentou que a evolução mensal também refletiu a recuperação sazonal da demanda de crédito pelas empresas após o carnaval.

O crédito total do sistema financeiro, incluindo as operações com recursos livres e direcionados, atingiu R$ 3,06 trilhões em março, após expansões de 1,2% no mês e de 11,2% em doze meses, ante variações respectivas de 0,4% e 11% em fevereiro.

O saldo destinado a pessoas jurídicas alcançou R$ 1,62 trilhão, aumento mensal de 1,6%, enquanto a carteira relativa às pessoas físicas cresceu 0,8%, ao totalizar R$ 1,44 trilhão.

A carteira de crédito com recursos livres alcançou R$ 1,58 trilhão em março, com aumentos de 0,8% no mês e 5,2% em doze meses. O saldo das operações destinadas às empresas, R$ 792 bilhões, cresceu 1,3%, com destaque para os repasses externos, os financiamentos a exportações - ambas influenciadas pela depreciação cambial - e outros créditos (principalmente aquisição de recebíveis). A carteira de pessoas físicas atingiu R$ 787 bilhões, com expansão de 0,4% determinada, principalmente, pela expansão do crédito consignado.

O crédito direcionado somou R$ 1,48 trilhão, após crescimentos de 1,6% no mês e de 18,4% em doze meses. Os financiamentos a pessoas físicas totalizaram R$ 652 bilhões, com expansão mensal de 1,3%, impulsionada pelo crédito imobiliário. Nas operações destinadas às empresas, saldo totalizou R$ 830 bilhões, com o aumento de 1,8%.

O chefe do Departamento Econômico do BC, Tulio Maciel, mencionou o impacto do câmbio nas operações do BNDES. Apesar das concessões do banco às empresas terem caído 14,8% em março ante igual mês do ano passado, o saldo de crédito subiu 16,3% na mesma base, afetado pela alta do dólar.

Como o BNDES responde pela maior parte do crédito com recursos direcionados às companhias, o avanço desse segmento, de 1,8% ante fevereiro teria caído à metade, disse Maciel, se excluído o impacto da depreciação do real. Em 12 meses, a alta do sistema nessa linha foi de 15%.

O indicador de qualidade das carteiras mostrou estabilidade, com o índice de inadimplência (atrasos acima de 90 dias) ficando em 2,8% em março, mesmo patamar desde janeiro. No crédito a pessoas físicas, o índice recuou 0,1 p.p. na base sequencial, para 3,7%, enquanto nas operações com empresas subiu 0,1 p.p., para 2,1%.

No segmento de recursos livres, com taxas de juros livremente definidas pelos bancos, a inadimplência também teve o terceiro mês estável, em 4,4%. Nos recursos direcionados, com taxas e recursos definidos pelo governo, a inadimplência caiu a 1,1%, contra 1,2% em fevereiro e 1,1 % em janeiro.

Ainda segundo o BC, em março sobressaíram os crescimentos mensais dos saldos de empresas tomadoras da indústria de transformação, dos serviços de transportes e do comércio, com saldos respectivos de R$ 450 bilhões (1,1%), R$ 161 bilhões (2,5%) e R$ 297 bilhões (1,1%).

Em sentido oposto, os financiamentos destinados às construtoras recuaram 1% a R$ 113 bilhões. 

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