Por diana.dantas

Após cair mais de 6% frente ao real em abril, o dólar começou maio se recuperando. E, segundo especialistas, deve ficar acima dos R$ 3 daqui até o final do ano.

No exterior, o dólar também recuou 3% no mês passado frente a uma cestas de moedas, após nove meses de trajetória de alta que chegou a quase 20%, segundo o índice DXY. Em maio, porém, retomou a alta.

Apesar dos riscos inflacionários, um dólar em alta aqui favoreceria as exportações, única atividade que pode crescer e favorecer a arrecadação sem pressionar os preços internos nesse momento. O problema é que um dólar muito valorizado prejudica a economia dos Estados Unidos - o PIB lá cresceu muito pouco no primeiro trimestre, devido principalmente à queda de 7% nas exportações exatamente por conta do dólar mais forte. Por isso, enquanto o BC daqui quer um dólar mais forte, o de lá quer mais fraco.

Mesmo que o câmbio não seja mais administrado aqui, o governo brasileiro tem suas metas não reveladas - e para atingi-las, neste momento tem que se equilibrar entre as pressões externas, inflação e atividade econômica.

“É um jogo meio tenso”, diz André Perfeito, economista-chefe da Gradual. “A liquidez vai continuar aumentando na medida em que a perspectiva de risco diminui. Caberá ao BC coibir esse processo - se entrar de um lado, tem que esterilizar de outro, emitindo títulos”, prevê. Essa estratégia teria um custo para a dívida pública mas, segundo Perfeito, dependendo do objetivo, faz sentido”, disse. Para ele, o dólar pode ir até r$ 3,50 no final deste ano.

“O BC tem de deixar o dólar andar”, diz Alberto Ramos, economista-chefe para América Latina do Goldman Sachs em Nova York. Para Ramos, o dólar deveria subir ainda mais, entre R$ 3,40 e R$ 3,60, para ajudar a ajustar a economia, mesmo que para isso o BC tenha de elevar mais os juros para segurar o repasse do dólar para a inflação.

O ajuste clássico de uma economia em recessão, observa Ramos, requer moeda desvalorizada e juros baixos. No curto prazo, é a ausência do ajuste fiscal que faz com que o Brasil tenha de continuar com a distorção de seguir subindo os juros, mesmo com a atividade fraca, para manter a inflação sob controle.

Perfeito concorda: ele diz que um real forte joga contra o esforço de ajuste fiscal. “O BC não irá permitir o real se apreciar apesar do diferencial da taxa de juros. Deixar o real forte seria jogar fora parte do ajuste na lata do lixo. O Copom não tem interesse em fazer isso, e já apontou que irá fazer o que puder para manter o real fraco”.

Ontem, o relatório Focus do BC mostrou que as previsões para o comportamento do câmbio neste e no próximo ano se mantiveram estáveis. De acordo com o documento, a mediana das estimativas dos economistas para o dólar no encerramento de 2015 seguiu em R$ 3,20, mesmo da semana passada. Há quatro edições anteriores da Focus, estava em R$ 3,25. Já para 2016, a cotação final seguiu em R$ 3,30 há quatro semanas.

“Houve um certo descuido do BC no mês passado, quando ofereceu mais rolagem de swap do que o necessário, o que apreciou o real. Mas o BC fez a correção e agora tudo indica que vai rolar só 80% dos contratos e o preço do dólar voltará ao normal”, disse Sidnei Nehme, diretor da NGO Corretora. Para ele, o ponto de equilíbrio é em torno de R$ 3,1.

“Oscilações são ruins porque o Brasil precisa de uma taxa cambial coerente com seu status atual, que é ruim. Os últimos números colocaram em risco o superávit de 1,2% do PIB”, acrescentou. Para conseguir esse percentual, o governo teria que aumentar a carga tributária - mas não tem mais onde sangrar, diz Nehme. “Meu receio é de que o remédio se torne veneno”. Ele admite que desde que as agências de rating deram uma trégua, o clima melhorou. Mas diz que o ajuste vai ser mais difícil do que se esperava. “Por isso o dólar não pode cair abaixo de R$ 3”, diz. 

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