Crédito apresenta piora geral em abril

Segundo o BC, concessões e saldos recuaram, enquanto juros, spreads e até inadimplência subiram, como resultado da alta da Selic e do desaquecimento econômico

Por O Dia

São Paulo - Depois de meses exibindo alguns sinais de enfraquecimento, o crédito piorou de forma generalizada no mês passado. Segundo dados divulgados ontem pelo Banco Central (BC), todos os principais indicadores — concessões, saldos, juros, spreads e até inadimplência — vieram piores.
O estoque total de crédito ficou praticamente estável em abril sobre março, alcançando R$ 3,061 trilhões, o equivalente a 54,5% do PIB. Em março, representava 54,8%. A alta em 12 meses ficou em 10,5% — até março, o crescimento em 12 meses apresentava uma expansão de 11,2%. E em abril do ano passado, o crescimento do crédito havia sido de 0,7%.

Considerando os recursos livres e direcionados, em operações para empresas e pessoas físicas, as concessões recuaram 6,6% no mês, para R$ 312,6 bilhões.

A taxa média de juros alcançou 26,4% ao ano em abril, com elevações de 0,5 ponto percentual (p.p.) no mês e 2,5 p.p. em 12 meses. O spread situou-se em 17 p.p., após aumentos de 0,6 p.p. no mês e 1,7 p.p. em 12 meses.

A inadimplência (atrasos superiores a 90 dias) alcançou 3%, ao elevar-se 0,2 p.p. no mês e 0,1 p.p. em doze meses. No mês, o indicador permaneceu estável no segmento de pessoas físicas e aumentou 0,2 p.p. no de pessoas jurídicas, situando-se, respectivamente, em 3,7% e 2,3%.
“Pela primeira vez veio tudo pior do que no mês anterior”, diz Miguel José Ribeiro de Oliveira, diretor executivo de Estudos e Pesquisas Econômicas da Associação Nacional dos Executivos de Finanças (Anefac). Oliveira espera que os índices continuem piorando nos próximos meses.

Apesar do lado negativo, essa desaceleração era tudo o que o governo esperava obter com a política monetária mais apertada para combater a inflação. Quanto menos crédito, menos consumo e emprego, menos renda e menos espaço para aumento de preços.

Segundo o chefe do Departamento Econômico do BC, Tulio Maciel, o crescimento menor do crédito é comportamento consistente com o ciclo de política monetária, com a alta dos juros.

Maciel lembrou que o resultado está em linha com pesquisa do BC que apontava um segundo trimestre mais restritivo para novas concessões de crédito tanto do lado da oferta quanto da demanda. E também chamou a atenção para a influência do câmbio no período: da mesma forma que em março a valorização do dólar inflou o estoque de financiamentos, em especial daqueles ligados às operações do BNDES, em abril ocorreu o contrário.

O chefe do Departamento Econômico do BC afirmou que, excluído o efeito da variação cambial, o crescimento no estoque total de crédito seria de 0,3% a 0,4% em abril.

Segundo Carlos Pedroso e Mauricio Nakahodo, economistas do Banco de Tokyo-Mitsubishi UFJ Brasil, a expansão anual do crédito continuará caindo nos próximos dois meses, seguindo a desaceleração da economia, devido à decisão do governo de não fazer mais repasses ao BNDES e a continuidade da alta dos juros.

“A demanda por crédito por parte das pessoas deve continuar desaquecida, acompanhando a queda do consumo — que por sua vez é fruto da queda da confiança, inflação ainda alta e desemprego. Para empresas, além desses motivos também pesa a volatilidade dos mercados”, dizem os economistas.

Eles disseram ainda que o aumento do desemprego vai contribuir para novos aumentos nas taxas de inadimplência. “Mas consideramos que esta será uma tendência gradual e não aguda, uma vez que nos últimos dois anos os consumidores já vinham tomando crédito de forma mais cautelosa”.

“A situação só não foi pior ainda porque os bancos públicos continuaram fomentando o crédito”, acrescenta Oliveira, da Anefac. “A Caixa só recuou no crédito imobiliário e isso só vai aparecer nos próximos meses”. O saldo cresceu 0,4% nos bancos públicos em abril em relação a março, enquanto nos privados nacionais caiu 0,5% e ficou estagnado nos bancos estrangeiros.

Para ele, também o fato de os juros estarem aumentando mais rapidamente do que a Selic — o que pode ser comprovado pelo aumento dos spreads — mostra que os bancos estão enxergando maior risco nas operações. “Inflação em alta, aliada à alta de impostos, leva a desemprego e inadimplência”, diz. Por enquanto, a alta foi pequena. Mas com todas essas pressões pipocando, não há como segurar, acredita. “Os bancos estão muito seletivos e os consumidores receosos de contrair dívida”.

O presidente da Federação Brasileira dos Bancos (Febraban), Murilo Portugal, disse anteontem que via o arrefecimento do crédito mas ainda não a alta da inadimplência. No entanto,já admitia que sinais negativos enviados por indicadores antecedentes — os atrasos de 15 até 90 dias — podiam sinalizar um aumento da inadimplência à frente.

Já Maciel, do BC, afirmou ontem que ainda é cedo para saber se a alta da inadimplência é uma tendência que veio para ficar. “É possível que haja sazonalidade nisso”, disse.

No segmento de recursos livres, que conta com taxas de juros livremente definidas pelas instituições financeiras e, normalmente se caracteriza por empréstimos sem garantias reais (com exceção de automóveis), a inadimplência subiu a 4,6%, quebrando estabilidade da taxa em 4,4% nos três meses anteriores.

Também neste segmento é que se praticam as taxas de juros mais altas. A taxa média para as famílias em abril subiram 1,7 p.p., atingindo 56,1% ao ano, a mais alta da série histórica do BC, iniciada em março de 2011.

A taxa mais alta cobrada pelos bancos, segundo o levantamento do BC, é a do rotativo do cartão de crédito, que subiu também 1,7 p.p., para 347,5% ao ano. A taxa média das compras parceladas com juros, do parcelamento da fatura do cartão de crédito e dos saques parcelados subiu 3,1 p.p., para 114,6% ao ano.

A taxa do cheque especial chegou a 226% ao ano, em abril, com alta de 5,6 p.p.. Já a taxa do crédito consignado (com desconto em folha de pagamento) chegou a 26,9% ao ano.

A taxa média do crédito para as empresas subiu 0,1 ponto percentual, para 26,6% ao ano. A inadimplência das empresas subiu 0,2 ponto percentual, para 3,9%.

No caso do crédito direcionado (empréstimos com regras definidas pelo governo, destinados, basicamente, aos setores habitacional, rural e de infraestrutura), a taxa para as empresas subiu 0,6 ponto percentual para 9% ao ano. Para as famílias, houve redução de 0,1 p.p., com taxa em 8,4% ao ano. Com agências

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