Por douglas.nunes

Se o Banco Central estava em dúvida sobre a conveniência de rolar integralmente ou não o lote de US$ 10,15 bilhões em swaps cambiais que vence na semana que vem, a decisão da Standard and Poor's de rebaixar o rating soberano do país resolveu a questão. Até ontem, o BC vinha renovando os títulos num ritmo diário que, mantido nesses cinco dias úteis finais de março, representaria a liquidação de um montante equivalente a US$ 2,27 bilhões. Ou seja, faria uma compra de moeda nesse valor no mercado futuro de dólar, exercendo pressão de alta. A S&P tratou de fazer isso, dispensando o BC da tarefa de evitar que a cotação escorregue ao piso de R$ 2,30.

O motivo que vinha levando o BC a moderar os leilões de rolagem foi elucidado ontem com a divulgação dos números parciais da balança cambial de março. A razão é que está entrando um caminhão de dólares para a renda fixa brasileira. No acumulado do mês até o dia 20, o fluxo cambial está superavitário em US$ 5,095 bilhões graças ao aporte líquido de US$ 4,833 bilhões feito pela conta financeira. Desse total, nada menos que US$ 4,005 bilhões vieram para aplicações em renda fixa, notadamente títulos públicos. Como em fevereiro esses ingressos foram de US$ 3,232 bilhões e em janeiro de US$ 3,327 bilhões, apenas entre 2 de janeiro e 20 de março a renda fixa recebeu de fora US$ 10,56 bilhões. O que a S&P disse ontem a esse pessoal é que o Brasil, embora ainda um bom pagador, tanto que foi preservado o grau de investimento, já não é mais tão confiável como antigamente.

O investimento estrangeiro de portfólio intensificou-se depois que o governo assumiu, no dia 20 de fevereiro, de forma solene o compromisso inarredável de entregar este ano um superávit primário equivalente a 1,9% do PIB, assegurando a estabilidade da dívida pública. E depois que ficou patente a inexistência de um teto eleitoral à taxa Selic. O Copom parece determinado a ir subindo o juro enquanto a inflação permanecer irredutível ao choque monetário. E até onde for preciso para evitar a contaminação do conjunto de preços da economia por choques de oferta, como o atual de alimentos. O rebaixamento da nota brasileira pode atuar nessas duas pontas: ao colocar em dúvida o cumprimento da meta fiscal, a S&P pode obrigar o Copom a ser mais enérgico na questão monetária com vistas a continuar atraindo capitais de portfólio.

Antes da decisão da S&P, o BC poderia se dar ao luxo de não renovar integralmente o megalote de swaps cambiais porque a operação equivalente a uma compra de dólares no futuro nem seria capaz de provocar uma depreciação cambial, já que o superávit da balança cambial supera US$ 5 bilhões.

Os dados divulgados ontem sobre a balança cambial ainda não captaram inteiramente alguma alteração do humor externo decorrente do tom mais duro empregado pelo Federal Reserve em sua reunião do dia 19. Os indícios preliminares mostram que não houve nenhuma inflexão no apetite do investidor estrangeiro por ativos brasileiros. Não dá para negar que desde a reunião do Fed aumentaram as posições "compradas" (aposta de alta do dólar) carregadas por fundos de fora nos pregões de derivativos cambiais da BM&F. A posição dos estrangeiros cresceu em US$ 800 milhões, passando de US$ 24,99 bilhões no dia 19 para US$ 25,79 bilhões no dia 21. O incremento pode ser atribuído não a uma aposta unidirecional na alta do dólar, mas à necessidade de efetuar o hedge de aportes aos títulos públicos. E o comportamento do preço da moeda americana do Fed para cá não sugere a descontinuidade do ingresso. Pelo contrário, já que o dólar cedeu de R$ 2,3490 no dia 19 para R$ 2,3225 ontem. A desvalorização de ontem, a terceira consecutiva, foi de 0,17%.

Como consequência justamente da entrada dos capitais de investimento financeiro, o balanço de pagamentos foi fechado em fevereiro com certa folga. A conta capital e financeira exibiu superávit de US$ 7,63 bilhões, mais do que o necessário para bancar o déficit em transações correntes, de US$ 7,45 bilhões. Como o investimento estrangeiro direto está sendo insuficiente para financiar o déficit em conta corrente, o Brasil precisa dos capitais voláteis e ariscos das aplicações financeiras de estrangeiros. O ônus é a elevação da dívida bruta, cuja neutralização requer um esforço fiscal com o mesmo grau de vigilância praticado pelo BC em sua política monetária. É o rigor fiscal que permite o sucesso da estratégia mesmo se piorar um pouco o cenário externo. Se piorar muito não há superávit primário capaz de impedir uma ameaça ao balanço de pagamentos, pois, nesse caso, se estará discutindo a solvência da dívida. Mas o cenário externo não é de degradação.

Nos EUA, os dados mais recentes não recomendam ao Fed apressar o desmonte de seu programa de compra de títulos nem o início da alta da FFR, a taxa básica de juros. De acordo com dados de ontem da Markit, a atividade industrial caiu de 57,1 em fevereiro para 55,5 em março. E a média móvel trimestral do índice de atividade nacional calculado pela regional de Chicago do Fed recuou de +0,02 em janeiro para -0,02 em fevereiro. E, na China, a divulgação de um dado francamente ruim - o índice industrial PMI desceu a 48,1 pontos na prévia de março, ante projeções de 48,7, taxa de 48,5 em fevereiro e 49,5 em janeiro - disseminou a certeza de que em breve o governo chinês irá lançar pacote de estímulos à economia. Caso contrário, o PIB mal conseguirá crescer 7% neste ano. E os mercados operaram em cima da expectativa de pacote do que da realidade da fraqueza.

As baixas registradas pelo dólar e pelo juro de 10 anos do título do Tesouro americano (de 2,75% na sexta-feira para 2,73% ontem, depois do ápice de 2,80% no dia da reunião do Fed) autorizaram a diminuição da curva ascendente dos juros futuros. O contrato para a virada do ano, por exemplo, cedeu de 11,22% para 11,16%. As taxas dos DIs futuros caíram a despeito de terem se deteriorado as expectativas de inflação do mercado porque já embutem o prolongamento do ciclo de alta da Selic por mais três reuniões do Copom. O cenário do DI só não é pior que o desenhado pelas cinco instituições que mais acertam prognósticos entre as cem que alimentam a pesquisa Focus do BC. Na versão de ontem, a projeção de IPCA para o acumulado do ano pela mediana das especializadas em inflação de médio prazo subiu de 5,99% para 6,57%. Ou seja, na visão dessa tropa de elite, a inflação vai estourar o teto da meta de inflação apesar de o BC ser obrigado a elevar a Selic até 11,75%, um ponto acima do nível em que está hoje.

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