Euforizante artificial

A euforia tomou conta dos pregões após a divulgação da pesquisa CNI/Ibope segundo a qual, de novembro para cá, a fatia dos eleitores que aprovam a gestão de Dilma Rousseff despencou sete pontos, de 43% para 36%

Por O Dia

É muito fácil medir a popularidade de Dilma Rousseff no mercado financeiro. Basta ver a maneira como reage a uma pesquisa desfavorável a ela. A euforia tomou conta dos pregões após a divulgação da pesquisa CNI/Ibope segundo a qual, de novembro para cá, a fatia dos eleitores que aprovam a gestão despencou sete pontos, de 43% para 36%. Os investidores torcem para que venham novas quedas, tornando indefinida a sucessão. E comemoraram de forma estridente: a Bovespa disparou 3,5%, o dólar caiu 1,75%, para R$ 2,2680, retornando ao início de novembro, e, no mercado futuro de juros da BM&F, a taxa para janeiro de 2017 fechou a 12,27%, de 12,44% na véspera.

São todos movimentos compatíveis com a visão de um próximo governo mais favorável à política econômica ortodoxa defendida pelo mercado. A Bolsa sobe porque seria uma administração menos intervencionista, que abandonaria a propensão atual de elevar tributos para cobrir expansão de gastos públicos e que não utilizaria empresas estatais para fazer política de combate à inflação. O dólar cai porque se espera de um governo conservador a restauração dos fundamentos fiscais e a correção do desequilíbrio do balanço de pagamentos, tornando o país menos vulnerável a choques externos e ainda mais atrativo ao capital estrangeiro. E o juro recua porque, restabelecida a credibilidade fiscal, a política monetária pode ser menos severa no longo prazo.

Esse é o amparo teórico dos deslocamentos ocorridos ontem. Mas, passado o arrebatamento inicial, o mercado não vai jogar todas as fichas na certeza de que Dilma Rousseff não será reeleita. A primeira leitura só recomenda a suposição de que possa haver um segundo turno. O mercado sabe que até outubro não faltarão eventos capazes de mexer com a corrida sucessória. No meio do caminho tem uma Copa do Mundo.

Embora o hexa possa ampliar a autoestima nacional, o resultado em si deve ter pouco peso no pleito. O que está em jogo é a reação do eleitorado aos acertos ou aos erros na organização do evento, os seus efeitos sobre a imagem externa do país e como serão administrados problemas relativos à falta de logística e às manifestações contrárias a ele. Depois da Copa, o debate esquenta. Dilma terá amplo espaço televisivo, o que pode ser essencial aos seus propósitos. Ao mesmo tempo, as manifestações podem recrudescer. As suas sequelas eleitorais são imprevisíveis.

Os analistas menos afoitos lembram que a mesma barrigada nas avaliações ocorreu com Lula em 2006, na disputa pelo segundo mandato. A avaliação positiva de Lula estava em 38% em março daquele ano e só subiu depois do início do horário eleitoral, em agosto, chegando a 49% em setembro. Trata-se de uma curva que pode se repetir agora.

Mas, pelo menos ontem, os mercados não quiseram saber de nada disso. Ficaram embevecidos com a visão de uma luz no fim do túnel. Os movimentos de ontem só se tornaram possíveis porque há hoje um enorme fluxo de capitais estrangeiros em busca da generosa acolhida monetária brasileira. Tão extasiados ficaram que os comportamentos dos pregões foram exagerados. No dólar, a desvalorização foi magnificada por operações de zeragem radical das perdas que vem se acumulando desde meados de fevereiro. Ontem ninguém se perguntou porque a CNI não divulgou a parte da pesquisa relativa à intenção de voto. Será por que ainda permanece a vitória de Dilma no primeiro turno?

Por falar em acolhimento monetário, o Banco Central disse ontem por meio de um dos seus documentos fundamentais, o Relatório Trimestral de Inflação (RTI), que, prestes a completar um ano, o ciclo de aperto monetário pode não ser encerrado na semana que vem. O motivo é que, até agora, seus progressos foram tímidos. No RTI anterior, relativo ao último trimestre de 2013, o BC projetava para 2014 inflação de 5,6%, mantida a taxa de câmbio em R$ 2,35.

Entre o RTI de dezembro e o de março, a Selic avançou para 10,75%, o dólar permaneceu em R$ 2,35 e o que aconteceu com a projeção oficial de inflação para o ano? Subiu para 6,1%. O que o BC quer dizer com isso? Que a Selic precisará ir mais longe do que esses 10,75% para que algum sucesso desinflacionário seja alcançado. E quanto é isso?

Como o BC fez no RTI de ontem uma enfática e algo patética defesa das virtudes da política monetária - como a mãe que defende a alma boa e pura do seu filho drogado -, o mercado concluiu que de 11,25% a Selic não passa. O Copom faria apenas mais duas altas de 0,25 ponto, uma na próxima quarta-feira e outra no dia 28 de maio. E seja o que Deus quiser.

Até porque, pela primeira vez, o BC admitiu que não persegue o centro de 4,5% da meta de inflação. Em entrevista à imprensa, o pai do RTI, o diretor de Política Econômica, Carlos Hamilton Araújo, frisou que o horizonte da autoridade monetária (até 2016) "não contempla convergência da inflação à meta".

Para o BC, os canais de transmissão da política monetária não estão entupidos. Em algum momento os seus efeitos chegarão ao emprego e à atividade. Para o mercado, não chegaram ainda porque, na verdade, o ciclo de aperto verdadeiro só começou mesmo no Copom do dia 26 de fevereiro, quando elevou a Selic de 10,5% para 10,75%, a taxa herdada do governo Lula. As primeiras providências da gestão Tombini foram ir elevando a taxa básica até chegar a 12,5% em julho de 2011. Esse caminho o BC não estará disposto a trilhar de novo agora por causa dos ditames eleitorais.

Mas o dia, depois das divulgações da pesquisa CNI/Ibope, do RTI e de uma taxa de desemprego em fevereiro a mais baixa da série histórica, ainda não tinha acabado. Era a hora da desforra do Tesouro.

Três dias depois de o Brasil ter sido rebaixado pela S&P, o Tesouro fez questão de demonstrar na prática que a opinião da agência tem reduzida credibilidade junto aos investidores globais. Por meio de títulos federais que vencem em 2021, captou lá fora ontem 1 bilhão de euros. O custo foi o mais baixo já registrado por uma captação soberana em euros. O spread foi de 165 pontos-base acima dos juros de referência em euros, os "mid-swaps", e o yield foi de 2,961%. Só para comparar, na última captação deste tipo, no início de 2006, esses números foram de 185 pontos-base e de 5,448%, respectivamente.

A captação vitoriosa "coincidiu" com a divulgação de números francamente ruins sobre a área fiscal, números que respaldam o ceticismo da S&P. Em fevereiro, o governo central teve um déficit primário de R$ 3,08 bilhões. No primeiro bimestre do ano, o superávit de R$ 9,88 bilhões caiu 49,8% em relação aos R$ 19,7 bilhões economizados no mesmo período de 2013, ano em que a meta só foi atingida graças a receitas extraordinárias. E 2013 nem era ano eleitoral. Em 2014 o cumprimento do alvo deve ser viabilizado por aumentos de impostos. Aumentos de impostos em ano eleitoral? Talvez seja por isso, entre outros fatores, que a pesquisa CNI/Ibope foi dotada pelo mercado de dons divinatórios.

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