Dólar sobe 1%. Acabou o namoro?

Ao menor sinal de fumaça no cenário global, os investidores mais paranoicos saem correndo em busca da saída

Por O Dia

Pode nem ser um princípio de incêndio, pode ser uma fumacinha que saiu da cozinha, mas eles não esperam para ver. A função exercida pelos assustadiços é essencial ao funcionamento dos mercados: a fuga deles permite a entrada dos que estavam na fila só olhando a festa de longe. Houve ontem venda importante e generalizada de moedas de países emergentes e compra de dólar. Dentre elas, o real puxou a lista das mais desvalorizadas. O dólar fechou cotado a R$ 2,2385, em valorização de 1,07%.

As fumaças vieram de três fogos de chão: um arremedo de repique da inflação americana; expectativa de números ruins sobre o crescimento chinês; e aumento da tensão na Ucrânia. O Índice de Preços ao Consumidor (CPI, na sigla em inglês, o correspondente americano ao nosso IPCA) subiu 0,2% em março, acima das expectativas. Dobrou a velocidade de alta, já que tinha avançando 0,1% tanto em janeiro quanto em fevereiro. Ou seja, estava quase parado e começou a se locomover a passo de tartaruga. Em doze meses, o CPI acumula 1,5%. Estaria em tese ainda distante da meta de inflação do Federal Reserve (Fed), de 2%.

O problema é que o Fed não olha para o CPI pleno, olha para o núcleo do indicador, expurgado de energia e alimentos. E o core em 12 meses sobe 1,7%. Já está, portanto, bem mais perto do objetivo. Mas a expectativa dos analistas americanos é de que o Fed só pensará em subir a taxa básica de juros quando estiver numa faixa entre 2,2% e 2,4%, dependendo de quanto o mercado de trabalho estiver sancionando esta alta da inflação. Ainda não há risco de inflação nos EUA. Depois do CPI, “a percepção é de menos risco de deflação”, nas palavras do economista-chefe do Banco Fator, José Francisco de Lima Gonçalves.

O impacto do CPI mais elevado foi parcialmente neutralizado pela frustração com um dado sobre atividade industrial. O índice Empire State da indústria de Nova York recuou de 5,61 pontos em março para 1,29 ponto em abril quando os especialistas previam alta para 8 pontos. A instituição que errou redondamente nessa previsão e saiu vendendo “treasuries” e encontrou paranoicos em fuga de emergentes dispostos a comprá-las. E o rendimento do papel de 10 anos acabou caindo de 2,65% para 2,62%.

As moedas que mais sofreram ontem foram as dos países exportadores de commodities para a China: Brasil, Chile, Austrália e Canadá. Dos três focos de calor que provocaram a escalada global do dólar foi o chinês o mais abrasivo. Horas antes de o governo divulgar, na passagem da noite para a madrugada no horário brasileiro, informações sobre o desempenho do PIB no primeiro trimestre, produção industrial e vendas no varejo relativas a março, o capital arredio estava prevendo a confirmação do declínio chinês tantas vezes já profetizado. Para aumentar o clima de terror, o banco central chinês diminuiu a liquidez do sistema bancário, indicando uma menor propensão do governo de tomar medidas compensatórias à desaceleração da economia.

O retorno da tensão na Ucrânia forneceu sua parcela de contribuição para a valorização do dólar. Kiev parece estar reagindo a lenta ocupação do país por militantes pró-Moscou, supostamente financiados pelo governo russo. Para combater a invasão branca, criou uma “operação antiterrorista” destinada a retomar prédios públicos conquistados pelos simpatizantes de Putin. Mas o teatro ucraniano precisa piorar muito para fazer preço no mercado global de câmbio.

Acabou o namoro do capital estrangeiro especulativo com o Brasil? Ainda é cedo para se dizer. Mas certamente o preço correto do dólar não são os R$ 2,1975 do dia 9 deste mês, o piso recente. Mas também não são os R$ 2,4371 de 3 de fevereiro, auge da crise de confiança pela qual passaram as economias emergentes.

Para ajudar no esforço anti-inflação do BC, melhor seria se o dólar ficasse mais perto de R$ 2,20 do que de R$ 2,30. Mas o mercado suspeita que a moeda teria de ir muito além de R$ 2,30 para o BC alterar seus planos de encerramento imediato do ciclo de alta da Selic. Dados não muito auspiciosos sobre o comportamento do comércio varejista brasileiro em fevereiro ajudaram a evitar o repasse da valorização do dólar para os juros futuros. As vendas cresceram apenas 0,2%, abaixo da mediana das expectativas, de 0,3%. E a perspectiva geral é de novas desacelerações.

“A expansão da massa salarial real tende a continuar beneficiando o consumo, mas o crescimento deve continuar mais moderado que em anos anteriores. Os juros em alta e o recuo na confiança do consumidor são outros fatores que contribuem para um desempenho mais moderado das vendas no varejo e do consumo”, diz Luka Barbosa, economista do Itaú.

Como os indícios são de perda de fôlego da economia brasileira, o DI futuro se sentiu desconfortável em prosseguir na rota altista dos juros. As taxas dos contratos futuros, quando se movimentaram, foram para baixo. A taxa para a virada do ano recuou de 11,08% para 11,07%. E a do contrato com vencimento em janeiro de 2017 permaneceu estável em 12,46%.

Se o pregão vier a depender hoje exclusivamente dos indicadores domésticos, também não será dia propício a altas. A segunda prévia do IGP-M deve confirmar o caráter transitório do choque de alimentos. E o IBC-Br de fevereiro, proxy do comportamento do PIB calculado pelo BC, deve confirmar um crescimento modesto.

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