E se o BC estiver certo?

Os agentes se dão conta de que recepcionar sem distinção todos os discursos oficiais como narrativa fantasiosa destinada a sedar a massa de eleitores pode ser uma generalização perigosa

Por O Dia

O mercado futuro de juros da BM&F parece estar cansado de brigar com o Banco Central. A seriedade uníssona com que dirigentes da autoridade repisam de forma insistente e às vezes contundente que nada de errado está acontecendo com a política monetária começa a ecoar nas operações fechadas por tesoureiros e gestores. Os agentes se dão conta de que recepcionar sem distinção todos os discursos oficiais como narrativa fantasiosa destinada a sedar a massa de eleitores pode ser uma generalização perigosa. E se o BC estiver certo? E se a alta de 3,75 pontos acumulada pela Selic nos últimos doze meses de repente cair na cabeça do IPCA?

Entre o IPCA fechado de março e a versão “15” do mesmo indicador relativa a abril, apenas 15 dias novos foram agregados ao acumulado de um mês. Mas quanta diferença entre um e outro. Enquanto o primeiro saltou 0,92%, superando até as expectativas mais negativas, o segundo mostrou alta de 0,78%. Foi um choque para os especialistas, cuja mediana previa 0,85%. E se o BC estiver certo?, perguntam de novo os executivos que apostam dinheiro no DI futuro. E as taxas tombaram na quinta-feira. O contrato com liquidação na virada do ano recuou de 11,06% para 11,02%. E a taxa para janeiro de 2017 tombou de 12,45% para 12,34%.

Ao contrário do Federal Reserve (Fed), que tem compromissos com inflação e emprego, no Brasil, afora suas obrigações legais, o BC só tem, em teoria, um mandato: cumprir a meta de inflação fixada pelo Conselho Monetário Nacional (CMN). Mas, na prática, também zela pela atividade e o emprego. A taxa de desemprego atual combina muito bem com a inflação corrente, mas está em total desarmonia com o PIB. Nunca o desemprego foi tão baixo para um mês de março desde que o IBGE inaugurou a atual série histórica, em 2002. A taxa foi de 5% no mês passado, ainda mais baixa que os 5,1% de fevereiro. Os analistas levaram um susto na quinta-feira, dia em que o IBGE soltou o dado. Eles apostavam em uma alta para 5,4%.

A queda do desemprego guarda simetria com o avanço do IPCA. A versão “15” do índice oficial de inflação subiu no acumulado de 12 meses de 5,9% em março para 6,19% em abril. As duas curvas supõem um PIB bombando na faixa de 4% a 5%, mas o crescimento da economia deve desacelerar dos 2,3% de 2013 para 1,65% (última estimativa do boletim Focus do BC) este ano. A simetria entre os dois indicadores se dá inclusive em termos metodológicos. Não funciona a crítica de que a Pesquisa Mensal de Emprego (PME) do IBGE não tem validade para a definição secundária de parâmetros monetários porque, ao contrário da Pnad Contínua, circunscreve-se às regiões metropolitanas de Recife, Salvador, Belo Horizonte, Rio de Janeiro, São Paulo e Porto Alegre. A PME é a mais adequada para o BC porque há grande semelhança com o universo de pesquisa do IPCA, apurado no Rio de Janeiro, Porto Alegre, Belo Horizonte, Recife, São Paulo, Belém, Fortaleza, Salvador e Curitiba, além do Distrito Federal e do município de Goiânia. Ambas as pesquisas se concentram nos pólos dinâmicos da economia, os mais afetados pela política monetária.

Se o PIB estivesse explodindo, o BC poderia inverter a rota das curvas de emprego e inflação por meio da radicalização da política monetária. Mas ele não pode e não vai fazer isso. Mesmo se o crescimento do produto fosse expressivo talvez não fosse o caso de redobrar o choque de juros. A incongruência dos números mostra que a economia está completamente desbalanceada, e justamente a partir dos seus dois grandes déficits gêmeos, o fiscal e o externo. E a política de juros não resolve esses problemas.

O mercado não pode acusar o BC de estar lavando as mãos, ao insistir no alerta de que o ciclo de alta da Selic já acabou. A taxa permanecerá em 11% no Copom do dia 28 de maio, salvo se houver novos repiques do IPCA. Essa hipótese é improvável. O BC, que vem insistindo há meses na tecla dos efeitos cumulativos e defasados das altas de juros já promovidas, marcou uma cesta de três pontos com o IPCA 15 de abril. Mas precisa ganhar o jogo antes do Copom do dia 28. Até lá, saem o IPCA cheio de abril e o “15” referente a maio. Se houver novos repiques, o pregão de DI futuro da BM&F estará autorizando a pensar: “Não, o BC não estava certo”.

Os mercados domésticos retornam hoje dos feriados sem ter muito o que corrigir. Na quinta-feira, o dólar fechou em baixa de 0,27%, cotado a R$ 2,2357, apesar das compras preventivas feitas por investidores que não quiseram atravessar o período sem proteção. E apesar da disparada dos juros de longo prazo dos títulos americanos. Na quinta, o rendimento do T-10 saltou de 2,63% para 2,72%. E, ontem, cedeu a 2,71%. Bons indicadores de emprego e atividade justificaram a alta no encerramento da semana passada. Os pedidos de auxílio desemprego aumentaram de 302 mil para 304 mil na semana entre 5 e 12 de abril. Foi um resultado melhor do que o esperado pelo mercado, de 315 mil pedidos. E a sondagem industrial feita pelo Fed da Filadélfia subiu de 9,0 em março para 16,6 em abril, bem acima dos 10 previstos pelos analistas.

Os indicadores divulgados ontem já não foram tão animadores assim. Enquanto o índice de indicadores antecedentes do Conference Board avançou de 0,5% em fevereiro para 0,8%, superando o prognóstico de alta de 0,7%, o índice nacional de atividade, calculado pela regional de Chicago do Fed, cedeu de 0,53 pontos em fevereiro para 0,20 em março. O mercado global permanece disposto a correr o risco incorporado a moedas e títulos de países emergentes.

Nesta semana mais curta, a agenda doméstica de indicadores relevantes se restringe a dois: a divulgação pela Receita Federal da arrecadação de março e do balanço de pagamentos também de março pelo BC na sexta-feira.

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