Acenos ilusórios

Os investimentos estrangeiros em títulos públicos derrubam o dólar e, num segundo momento, impedem a alta dos juros futuros

Por O Dia

Na corrente contrária de um leve aumento global na aversão a risco, o dólar caiu ontem 0,46% frente ao real, cotado a R$ 2,2158. O motivo da autonomia ainda foi a atração exercida pelo alto juro brasileiro. Mas o fraco giro de negócios, de US$ 750 milhões, ante US$ 1,8 bilhão na média diária do mês, tirou consistência do declínio. Os investimentos estrangeiros em títulos públicos derrubam o dólar e, num segundo momento, impedem a alta dos juros futuros. Na BM&F, o contrato de DI para a virada do ano ficou estável em 10,99%, enquanto caía de 12,22% para 12,19% a taxa para janeiro de 2017, a mais sensível aos movimentos de capitais.

O namoro com os investidores internacionais pode se transformar num casamento sólido e duradouro se, num eventual segundo mandato, a presidente Dilma Rousseff substituir dois colaboradores odiados pelo mercado por sua identificação com experimentalismos heterodoxos? A decisão de afastar o ministro da Fazenda, Guido Mantega, e o secretário do Tesouro Nacional, Arno Augustin, parece já ter sido tomada. O momento é de definição dos sucessores. Para o posto de Mantega, a presidente parece oscilar entre dois nomes: o do ex-secretário-executivo da Fazenda, Nelson Barbosa, e o do atual presidente do Banco Central, Alexandre Tombini. Na corrida das preferências presidenciais, Tombini pulou na frente esta semana.

O mercado faz restrições tanto a Tombini quanto a Barbosa. Por suas credenciais acadêmicas (UFRJ e FGV) e políticas (Instituto Lula), Barbosa transita por todas as áreas de conhecimento das quais deve ser íntimo um ministro da Fazenda, ao contrário de Tombini, cuja carreira foi trilhada exclusivamente no BC. Mas Barbosa foi a mente privilegiada à qual se atribuiu os alicerces da guinada feita no início do governo Dilma conhecida por Nova Matriz Econômica. A ela, os analistas imputam todos os fracassos passados e futuros das estratégias de política econômica.

Mas o presidente do BC não está melhor na fita. Foi ele o responsável pela surpreendente reviravolta da política monetária mal iniciado o segundo semestre de 2011. Vindo de reunião internacional de dirigentes de bancos centrais, trouxe um diagnóstico pessimista sobre o desempenho da economia mundial. A recessão global iria sedar a inflação em toda parte, abrindo uma preciosa e rara janela de oportunidade para a derrubada definitiva da taxa de juros brasileira. Foi o que fez: na reunião do Copom de 31 de agosto de 2011, sem prévia sinalização ao mercado como gosta de fazer o Comitê, a Selic foi reduzida de 12,5% para 12%. E não parou mais de cair até chegar a 7,25%, piso histórico absoluto, em 10 de outubro de 2012.

Ao mesmo tempo, concordou com a Fazenda em seu plano de resgatar a competitividade da indústria por meio de uma vigorosa desvalorização cambial. Foram impostas barreiras à entrada de capitais especulativos. E o dólar saltou da faixa de R$ 1,55 em julho de 2011 para R$ 2,05 em julho de 2012 e R$ 2,28 um ano depois. Juro no chão, dólar no teto. Foi ousadia demais e a inflação explodiu. Em abril do ano passado, a Selic iniciou o caminho de volta, soterrando a almejada “mudança estrutural do juro brasileiro” e a promessa de um juro real de 2% ao fim do primeiro mandato de Dilma Rousseff. Em maio, o Federal Reserve iniciou, ainda na base apenas do discurso, a normalização da política monetária americana. E todas as barreiras criadas ao ingresso de capital externo especulativo foram derrubadas uma após a outra.

Como Barbosa, Tombini está, no sentimento do mercado, aderido à “aventura” da nova matriz econômica. O nome de Tombini é, para os analistas, melhor que o de Mantega, mas não tem os sacramentos de alguém ungido desde o berço pela pureza da ortodoxia liberal. Para os economistas de linha mais dura do mercado, mesmo depois de ter subido a Selic em 3,75 pontos – de 7,25% para 11% —, o BC ainda pratica uma política monetária “frouxa”. Para escândalo deles: a atual gestão não se compromete com o centro de 4,5% da meta de inflação. E o mercado tem certeza: empossado como ministro da Fazenda, Tombini mandará no segundo mandato tanto quanto Mantega no primeiro. A economia ainda será comandada pessoalmente por Dilma Rousseff.

Os executivos sorriem maliciosamente diante das tentativas de cooptar as expectativas por meio da substituição de personagens. O atual namoro com os players globais jamais irá se transformar em casamento por causa apenas da troca dos noivos. Os fundamentos econômicos brasileiros são hoje praticamente idênticos, se é que não pioraram, aos que vigiam em agosto do ano passado e início de fevereiro, quando o dólar disparou, encostando em ambos os casos na casa de R$ 2,43. Refluiu depois não por mérito do Brasil ou da troca de guarda. Mas porque o cenário externo mudou. Leia-se: ainda não era hora de os juros longos americanos superarem com consistência a barreira de 3% e, depois, irem buscar os 3,5%.

Quando isso acontecer — e pode não demorar, já que a curva futura das treasuries ainda indica 3,2% para o T-Note no final de 2014 —, não será o nome de Tombini que irá impedir que o dólar alcance, ou supere, os R$ 2,50. Nem a concessão formal de independência ao BC. Trata-se de manipulação maldosa a argumentação de que no dia seguinte ao da lei que instituirá, com toda pompa jurídica, a independência da autoridade monetária as expectativas de inflação, em primeiro lugar, e a inflação corrente, em seguida, irão despencar. O jogo é bem mais complicado do que isso.

Quem decide as regras é o movimento de realocação de portfólios mundo afora. O que o grande capital mundial quer, no fundo, não são fundamentos sólidos. Quer outra coisa: que a nova autoridade da Fazenda, tenha o nome que tiver, quando chegar a hora, devolva para ele os US$ 377,79 bilhões que depositou nas reservas internacionais brasileiras. Alguém “do mercado” faria isso mais facilmente do que Tombini ou Barbosa.


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