Por douglas.nunes
Publicado 25/04/2014 23:53

O Banco Central escolheu um péssimo momento para interromper a rolagem dos US$ 8,733 bilhões em swaps cambiais que vencem na próxima sexta-feira. Ao longo do mês até a quinta-feira, vinha renovando morosamente os papéis ao ritmo de US$ 494 milhões ao dia, chegando a revalidar US$ 6,5 bilhões. Mas, na sexta, inesperadamente, não fez nenhum leilão de rolagem. O mercado entendeu que estava dando por concluída a renovação, ou seja, irá resgatar no dia 2 cerca de US$ 2,23 bilhões. Em termos práticos, equivale dizer que fará uma compra deste mesmo valor. Artificialmente, criou uma enorme demanda por moeda por quem já estava protegido contra movimentos de alta vindos de fora. E foi exatamente isso que aconteceu na sexta-feira, magnificando a escalada.

O dólar fechou sexta-feira a R$ 2,2428, com valorização de 1,22%, anulando as perdas da semana. Acumulou no período alta de 0,32%, reduzindo a 1,17% a depreciação sofrida em abril. Mesmo que o BC tivesse mantido o compasso de renovação, a tendência do dólar ainda seria de avanço face ao crescimento da aversão global a risco em sintonia com a agudização da crise militar e política envolvendo a Ucrânia e a Rússia. Os analistas elencaram algumas hipóteses para explicar a decisão do BC de negar hedge.

A primeira é de que, em face dos múltiplos e chocantes sinais de que a economia brasileira está em processo de mergulho, não precisa do auxílio da taxa de câmbio apreciada para combater a inflação. A atividade fraca, em conjunção com a Selic congelada em 11%, fará o serviço de trazer o IPCA para baixo do teto de 6,5% da meta de inflação. A segunda é que, como o déficit em conta corrente do balanço de pagamentos se mantém teimosamente há oito meses na faixa de 3,6%, precisa evitar os danos causados à balança comercial pelo real valorizado. A terceira é a necessidade de economizar bala. Como o BC já tem uma posição em swap cambial elevada, um pouco acima de US$ 88 bilhões, equivalente a um pouco mais de 23% das reservas cambiais, precisa guardar munição para futuras emergências, sobretudo para o momento em que os capitais especulativos de portfólio romperem o atual noivado com os títulos públicos brasileiros.

Com justificativa ou não, o fato é que o BC decidiu elevar a pressão do turbo do dólar num momento em que não precisava. Na sexta-feira, o rendimento do título de 10 anos do Tesouro americano despencou de 2,69% para 2,66% por causa de excesso de procura. Há muito dinheiro em fuga de mercados arriscados em busca do abrigo seguro oferecido pelas treasuries. E a decisão de estancar as rolagens dos swaps ocorre às vésperas de uma semana de agenda americana carregada. Dependendo do que acontecer no EUA nos próximos dias, o movimento de aversão tende a se intensificar. O BC pode até dispensar a ajuda do câmbio para controlar a inflação, mas certamente não vai querer que o dólar se alinhe às demais pressões de alta dos preços.

O pesado tombo do T-Notes de 10 anos — de 2,72% no dia 16 para 2,66% na sexta-feira — pode encorajar o Comitê Federal de Mercado Aberto (Fomc) do Federal Reserve, em sua reunião de depois de amanhã, a ampliar os cortes no programa de afrouxamento quantitativo. Desde dezembro, já fez três podas sucessivas de US$ 10 bilhões no volume total de compras de bônus e hipotecas. Reduziu o montante dos US$ 85 bilhões originais para US$ 55 bilhões. O mercado tinha como certo mais um corte de US$ 10 bilhões na quarta-feira, baixando a injeção de liquidez a ser feita em maio para US$ 45 bilhões. Mas a derrocada do juro longo pode apressar o fim do programa.

Recorde-se que a principal justificativa para a manutenção de um ritmo bem comedido de saída do afrouxamento quantitativo sempre foi o temor de que a retirada súbita da liquidez pudesse desencadear uma acelerada alta dos juros de longo prazo. A economia já se mostra capacitada a dispensar a emissão primária de moeda pelo Fed, mas poderia não suportar uma arrancada das taxas de 10 e 30 anos. Tal disparada, mesmo que mantida em zero a taxa referencial de curto prazo, poderia solapar as bases em que se assenta a retomada econômica. Subiriam automaticamente as taxas das hipotecas e os custos dos empréstimos bancários. De quebra, encareceria a tomada de financiamento para o carry trade, operação hoje responsável pelo fluxo positivo de dólares para o Brasil. Para não abortar o relançamento da economia americana, o Fed sempre deu um passo atrás quando a taxa do T-Note de 10 anos passou de 3%. Com ela a 2,66%, ousar é possível.

Mas a semana não se limita à reunião do Fed. Se fosse só isso, já seria preocupante, apesar de que nesse Fomc de abril não haverá nem atualização das projeções econômicas nem coletiva à imprensa da presidente Janet Yellen. Mas há muito mais por acontecer até sexta-feira. Na quarta-feira será divulgado o resultado do PIB americano no primeiro trimestre do ano. Na quinta, feriado no Brasil e dia normal nos EUA (onde o Labor Day cai este ano no dia 1° de setembro), além de discurso de Yellen, haverá a divulgação do deflator do PCE (principal indicador de inflação utilizado pelo Fed), dados sobre renda, gastos pessoais, gastos com construção, ISM industrial e vendas de veículos em abril. E, para coroar a semana, na sexta-feira sai o relatório oficial sobre o mercado de trabalho de abril, o “nonfarm payroll”. Ou seja, os dois dados cruciais à decisão do Fed (PCE e payroll) serão divulgados depois da reunião do Fomc. Será que os votantes do Comitê não terão algum acesso prévio a eles?

Se o cenário cambial ficar complicado neste início de semana por causa desses eventos, nada impedirá o BC de voltar atrás em sua suposta intenção de comprar US$ 2,23 bilhões na sexta-feira e anunciar, entre hoje e quarta-feira, um megaleilão de rolagem de todo o restante do lote. O fato é que, por enquanto, o BC não pode abrir mão dos capitais externos de portfólio. Segundo a nota do setor externo, publicada por ele na sexta-feira, foi o superávit da conta capital e financeira, que subiu de US$ 7,601 bilhões em fevereiro para US$ 7,654 bilhões em março, quem financiou todo o déficit em conta corrente do mês passado, permitindo ao balanço de pagamentos fechar com um saldo positivo de US$ 1,653 bilhão. O investimento estrangeiro direto (IED), de US$ 5,424 bilhões, não seria sozinho suficiente. Foi o investimento líquido em carteira (as aplicações em renda fixa e ações), de US$ 6,29 bilhões, que fez a diferença.

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