Por douglas.nunes

O dólar se encaminhava ontem para fechar em baixa, em sintonia com o viés global, quando de repente inverteu a mão e só não fechou em alta por falta de tempo. Depois de marcar R$ 2,2055, em desvalorização de 0,46% comparativamente ao fechamento de terça-feira, a moeda revigorou-se no final do dia e encerrou praticamente estável, a R$ 2,2150, ante R$ 2,2156 no pregão anterior. O motivo da reviravolta final foi declaração do presidente do PT, Rui Falcão, segundo a qual, num segundo mandato, o governo Dilma Rousseff estaria disposto a discutir “controles de capital mais rigorosos”.

Talvez fosse conveniente lembrar ao dirigente petista que hoje não existe controle algum sobre o capital externo financeiro. Não se trata de endurecê-lo. Todas as barreiras erguidas por meio do IOF no começo de 2012 para provocar a depreciação do real foram removidas no meio do ano passado, depois que o inicio das discussões sobre o “tapering” americano provocou um rearranjo dos portfólios globais e a disparada do dólar. O que ainda subsiste é a permissão para que exportadores mantenham dólares no exterior por período de até 720 dias. O resto caiu. O capital estrangeiro pode ir e vir à vontade. Então do que Rui Falcão está falando?

Se ele queria assustar, não conseguiu. Só forneceu pretexto a especuladores órfãos de argumentos altistas. O coordenador da campanha de reeleição agiu ontem contra essa mesma campanha que chefia. Em primeiro lugar porque controle de capital não se anuncia. Em segundo, porque o controle eficaz é feito na entrada do dinheiro, não na saída. Para Falcão, o que se quer é evitar a “fuga de capital”. Não dá para impedir. O que dá é, por meio de restrições tributárias, selecionar a qualidade do capital que se quer aqui, dissuadindo o ingresso do mais especulativo, justamente o mais propenso a ir embora ao menor sinal de desconfiança. Ou ele está sugerindo a centralização cambial? Provavelmente, não. Está apenas, para efeitos de militância, recitando filosoficamente e em má hora o catecismo do desenvolvimentismo.

Antes das declarações do dirigente, o marasmo era total nos mercados. Na ausência de indicadores domésticos, o câmbio e os juros futuros se limitavam a refletir a agenda internacional. E esta exercia influências contraditórias. Os investidores relativizaram os efeitos negativos de dados sugerindo o enfraquecimento da economia chinesa no segundo trimestre do ano e preferiram permanecer na ponta de compra de moedas e ativos emergentes movidos por informes ruins das economias dos EUA e da zona do euro.

A segunda economia do planeta pode, este trimestre, não repetir a expansão de 7,4% experimentada no primeiro. O crescimento chinês em 2014 pode estar mais perto de 7% do que os 7,5% que estão no centro da meta governamental. Na madrugada de terça-feira, o governo da China soltou uma coleção de indicadores frustrantes: a produção industrial cresceu 8,7% em abril, desacelerando frente aos 8,8% de março e vindo abaixo do consenso de 8,9%; os investimentos se expandiram 17,3%, face 17,6% em março e 17,7% das expectativas dos economistas; a alta de 11,9% das vendas no varejo foi menor que a verificada no mês precedente, de 12,2%, e inferior à previsão também de 12,2%. O mercado não ignorou os dados ruins da China por acreditar que, em consequência deles, o governo poderá baixar um vigoroso pacote de estímulos. Na verdade, um crescimento menor, na faixa entre 7,4% e 7%, já parece precificado pelos ativos. A China só poderá estimular a formação de uma onda antirrisco de emergentes se a perspectiva de expansão se deslocar para um degrau inferior a 7%. Ainda não é o caso.

A tendência de revigoramento de um cenário mais propício à aversão global a risco desenhado pela inaptidão chinesa em estimular o crescimento pode estar sendo contrabalançada pela fuga de capital da Rússia. Somada às sanções impostas pelo Ocidente a Moscou, agrega-se para acelerar a saída de capital a percepção de que a economia russa já pode estar em recessão. Os primeiros sinais são de que não está conseguindo superar nesse trimestre o encolhimento sofrido no anterior.

Os mercados americanos, balizadores do comportamento dos outros pregões mundo afora, receberam ontem mais indicações de que a elevação dos juros pelo Federal Reserve (Fed) será uma providência a ser inevitavelmente tomada num futuro cada vez menos visível e predizível. Gigantesca, a economia dos EUA se movimenta hoje como um paquiderme que precisa suspender a marcha vagarosa constantemente para descansar do esforço. Os dados do dia, os primeiros mais significativos a respeito do desempenho da economia no segundo trimestre (ou seja, depois do trauma do grande inverno) foram decepcionantes.

As vendas varejistas cresceram 0,1% em abril, abaixo da aposta de um avanço de 0,4% firmada pelos analistas. E os preços de importação mostraram deflação de 0,4% no mês passado. Foi uma surpresa completa (e aterradora, já que os desenvolvidos abominam a palavra deflação), uma vez que a expectativa era de inflação de 0,3%. A frustração das análises segundo as quais o que tolhia o avanço do mastodonte era a neve provocou desvalorização do dólar e queda geral do rendimento dos títulos do Tesouro americano. A taxa da T-Note de 10 anos baixou de 2,67% para 2,61%.

E, na Europa, em mais um lance de preparação dos mercados para o início, no mês que vem, de um programa europeu de afrouxamento quantitativo semelhante ao que está sendo atualmente abandonado pelos EUA o austero Bundesbank — irmão mais velho que serviu de modelo à criação do Banco Central Europeu (BCE) — forneceu seu apoio formal a um auxílio direto à liquidez — a única forma vista hoje capaz de evitar que a zona do euro entre em um canal recessivo similar ao que atola a economia japonesa há décadas.
As bolsas globais comemoraram o sinal verde do BC alemão e o euro enfraqueceu-se, aliviando a sobrecarga financeira representada pela força excessiva, desnecessária e antinatural da moeda. Sintomaticamente, o poderoso aval do Bundesbank foi dado num dia de divulgação de indicador ruim sobre a economia germânica. De acordo com o instituto Zew, o índice de expectativas recuou de 43,2 pontos em abril para 33,1 em maio. Os economistas esperavam de fato uma queda, mas bem menor, para 41 pontos.

Em contraste com o baixo crescimento chinês, a hesitação americana, a recessão russa e o medo da deflação na Europa, o quadro brasileiro não inspira cuidados. Na visão do diretor da área externa do Banco Central, Luiz Awazu Pereira, forte candidato à sucessão de Alexandre Tombini se este, num segundo mandato de Dilma Rousseff, for promovida da presidência do BC a ministro da Fazenda, o Brasil “está muito mais resiliente a choques externos, tem instrumentos eficazes de políticas e amplos colchões para os desafios colocados pela transição que a economia mundial está passando”. Traduzindo: não precisa de controle de capital.

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