Onda externa derruba juro

As taxas longas americanas tombaram de forma assustadora — de 2,62% no fechamento de terça-feira para até 2,53% — justamente quando os operadores começavam a “comemorar” uma inflação inesperadamente alta no atacado dos EUA

Por O Dia

Uma forte onda de compra derrubou ontem os rendimentos dos títulos do Tesouro americano, arrastando consigo os juros futuros e o dólar negociados nos mercados brasileiros. A vigorosa procura pelas “treasuries” pegou de surpresa os pregões globais. As taxas longas americanas tombaram de forma assustadora — de 2,62% no fechamento de terça-feira para até 2,53% — justamente quando os operadores começavam a “comemorar” uma inflação inesperadamente alta no atacado dos EUA. A demanda hiperaquecida pelos papéis mais seguros do mundo foi, em princípio, atribuída à debandada de investidores posicionados em ativos do Leste europeu, temerosos de uma guerra civil na Ucrânia.

O dia tinha tudo para ser diferente. Afinal, o PPI (índice de preços ao produtor, a taxa de inflação no atacado americano) avançou 0,6% em abril, a alta mais acentuada desde setembro de 2012. Os economistas previam PPI comportado na faixa de 0,2%. Para os corretores de bônus sequiosos de notícias capazes de precipitar uma corrida de juros nos EUA soou como música celestial a alta de 2,1% na base de comparação anual, por estar levemente acima da meta de inflação do Federal Reserve.

É claro que o Fed não vai tomar uma decisão de política monetária apenas amparado no PPI. A inflação mais observada é aquela apurada pelo núcleo do PCE (índice de gastos com o consumo pessoal dos americanos, usado como deflator do PIB), cuja alta anual terminada em março foi de 1,1%, vindo depois o núcleo do CPI (índice de preços ao consumidor), cujo dado de abril sai hoje. Mas assim que foi divulgado o PPI, na manhã de ontem, a taxa da T-Notes de 10 anos deu um salto de 2 pontos. Aí aparecem os compradores, derrubando o rendimento.
Movimentos de queda das “treasuries” tão desconcertantes assim só costumam ocorrer em momentos de forte ojeriza global a ativos de emergentes. Não é o caso atual. Como as taxas de juros permanecem em patamares muito baixos e desestimulantes nos países desenvolvidos — nos EUA, na Europa e no Japão, os juros permanecem no chão e, mesmo assim, as suas economias se recusam a se desgrudar do pedaço de chão ao lado —, os investidores não têm pressa em abandonar os altos rendimentos pagos pelos emergentes e fingem que não há problemas neles.

Quem dita o comportamento do dólar no mercado brasileiro é o humor do investidor externo. Nenhuma das dificuldades alardeadas pelos críticos da política econômica (déficit externo, excesso de gastos públicos, represamento das tarifas públicas, baixo crescimento e alta inflação) consegue sensibilizá-lo desde que nos grandes centros financeiros as taxas de juros perdurem perto de zero. E, neste ambiente de ausência de temor, não é necessário um fluxo de dólares exageradamente positivo para anestesiar o dólar. Nas últimas semanas, independentemente do que aconteceu na balança cambial, a moeda oscilou pacatamente entre R$ 2,20 e R$ 2,23. Na semana passada o dólar desvalorizou-se 0,18%, caindo de R$ 2,2193 no dia 2 para R$ 2,2154 no dia 9. E o que aconteceu no fluxo cambial no mesmo período? Foi negativo em US$ 2,51 bilhões. A maior parte desse rombo foi puxada pelo déficit de US$ 2,073 bilhões registrado pela conta financeira. E a menor, de US$ 437 milhões, pela conta comercial.

Corretores de câmbio comentam que o buraco financeiro deve ser atribuído a operações de remessa de lucros e dividendos feita por empresas estrangeiras instaladas aqui, anulando o ingresso líquido de recursos de portfólio. Seja como for, o fato é que não está mais sobrando dólares no Brasil. No acumulado de maio, o fluxo está negativo em US$ 1,74 bilhão, reduzindo para US$ 3,1 bilhões o saldo positivo entre janeiro e 9 de maio. Se for considerado que os bancos carregam posições vendidas à vista de US$ 15,32 bilhões, na verdade há uma carência de US$ 12,22 bilhões. Se houver um grande rebuliço lá fora, o Brasil entra na corrida devendo US$ 12,22 bilhões.

A situação não é confortável dada a dependência brasileira dos humores mutantes da grande finança global. É por isso que o Banco Central não deverá baixar a guarda quando, em 30 de junho, decidir por reformulações no seu vitorioso programa de intervenções cambiais. Pode até flexibilizar um pouco mais as regras atuais – leilão semanal de US$ 1 bilhão em swaps cambiais novos e renovação de metade dos contratos antigos —, deixando-as mais incertas e erráticas, mas não muito a ponto de fomentar jogadas especulativas.

Como o quadro real não combina nem um pouco com as teorias do livro-texto desenvolvimentista, a sugestão cambial do presidente do PT, Rui Falcão, em prol da imposição de controle de capital mais rigoroso, já foi relegada ao plano do folclore e ontem não fez preço no mercado. O dólar seguiu a tendência externa de desvalorização. Fechou cotado a R$ 2,2083, em baixa de 0,30%.

A combinação de dólar fraco e desabamento das “treasuries” provocou um realinhamento da curva futura de juros. Como a taxa de curto prazo está engessada no pregão de DI futuro da BM&F pela expectativa de parada do ciclo de alta da Selic e como os juros longos precisam refletir a conjuntura externa, a inclinação positiva da curva ficou menos acentuada. A diferença entre a taxa para a virada do ano, que ontem recuou apenas de 10,99% para 10,98%, e o juro do contrato com vencimento em janeiro de 2017, que despencou de 12,14% para 12,04%, reduziu-se a 1,06 ponto, de 1,15 ponto no fechamento anterior. Há um mês estava em 1,38 ponto.

A onda de “sincericídio” que acomete o PT — ontem foi a vez do ministro da Casa Civil, Aloizio Mercadante, admitir que o governo pratica “controle de preços” no setor público — não suavizou o declínio da curva de juros, pois trata-se de uma confissão desnecessária. Todo o mercado sabe que a defasagem dos combustíveis já ronda os 15% e que não será corrigida este ano. Mas as duas — tanto o “controle de capitais” quanto o “controle de preços” — são expressões capazes de provocar urticária nos analistas.

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