Por monica.lima

Na semana que vem o Copom do Banco Central deve encerrar o ciclo de alta da Selic, iniciado em abril de 2013 quando a taxa estava em 7,25%. O BC quer fazer isso desde a reunião de 15 de janeiro, mas a inflação corrente não deixava. Agora, permite. Todos os índices mais atualizados estão vindo abaixo das projeções dos analistas. A inflação declina mais aceleradamente do que o previsto porque a atividade econômica também faz o mesmo. O índice de atividade do BC — o IBC-Br — conseguiu acumular alta de 0,3% no primeiro trimestre sobre os três meses anteriores. Mês a mês, o índice — uma tentativa às vezes não muito bem-sucedida de antecipar o resultado do PIB calculado oficialmente pelo IBGE —, está descendo uma escadinha preocupante. Depois de subir 1,47% em janeiro, avançou somente 0,02% em fevereiro e em março (dado divulgado na sexta-feira) acusou retração de 0,11%. Ele sinaliza uma expansão do PIB de apenas 0,5% de janeiro a março.

A economia definha. Já passou da hora de interromper a prescrição do remédio contra a febre inflacionária, cuja dosagem maciça já ministrada sequer ainda fez pleno efeito. Essa é a visão que prevalece no BC. O mercado futuro de juros da BM&F compreende e, como a aposta é em dinheiro, acata a decisão, tanto é que os contratos curtos já estão alinhados à manutenção da Selic nos atuais 11%. A taxa do contrato para a virada do ano fechou sexta-feira a 10,96%, ante 11,07% há um mês e 11,17% um dia antes do último Copom. A desobediência implicaria em pesados prejuízos diários no acerto de margem entre “comprados” e “vendidos”. Os analistas que não apostam dinheiro não aceitam. Não perdem a oportunidade de lembrar que a obrigação legal do BC é perseguir a meta central de inflação, os 4,5% definidos pelo Conselho Monetário Nacional (CMN). Se for para baixar o IPCA de 12 meses para 4,5%, a Selic de 11% ainda é muito baixa. Precisaria ir a uns 15%, estimam os mais carrancudos.

A lembrança não é meramente técnica, passa hoje um indissimulável interesse político. Não se trata aqui da inexaurível profissão de fé na crença de que para reintroduzir a economia num estado de equilíbrio é necessária a implantação de uma política econômica que conjugue austeridade fiscal e rigor monetário, mesmo que, ao longo de dois ou três anos, provoque recessão e desemprego. Entre mortos e feridos, todos estarão salvos lá por 2018. Entre um momento e outro, a desigualdade irá ampliar-se acentuadamente, já que a taxa de crescimento da riqueza financeira será exponencialmente maior que a do PIB.

Mas não se trata disso. A esperança é de que o BC não pare de subir a Selic, perseguindo obsessivamente os 4,5% da meta de inflação, porque tal tenacidade poderia empurrar o destino das eleições presidenciais para mais perto das oposições. Leia-se, no caso do mercado, Aécio Neves. O diagnóstico de que a candidatura Dilma Rousseff poderia malograr por causa da inflação elevada já foi superado. Mesmo que em agosto o acumulado de 12 meses do IPCA venha, como apostam os analistas, a furar o teto de 6,5% da banda inflacionária, a inflação não será problema desde que o mercado de trabalho se mantenha aquecido, com os salários conseguindo repor a perda passada e obtendo algum ganho real. Não é problemático recompor o poder de compra dos salários por meio dos atuais mecanismos de indexação quando a inflação oscila entre 6% e 6,5%. Mas tudo muda de figura se a economia mergulhar e o vizinho perder o emprego.

Não é missão explícita do BC preservar crescimento e emprego. Mas o momento recomenda a ele prestar muita atenção ao que está sendo dito pelo índice que criou, o IBC-Br. O BC brasileiro não goza de independência formal do executivo. Desfruta hoje de uma autonomia operacional condicionada. Para que tenha o status de independente — diretoria com mandato não coincidente com o do presidente da República e submetida ao poder legislativo —, não basta a ele cumprir apenas o compromisso de afunilar a inflação à meta. Se independente, precisa também zelar pelo pleno emprego para que as decisões monetárias tenham, como ocorre nos EUA, um equilíbrio entre a perseguição da meta e a impulsão à atividade econômica. O BC brasileiro é autônomo, mas insere-se numa órbita petista de poder, cuja meta principal hoje é a reeleição de Dilma. É por isso que as exortações ao nobre objetivo monetário de perseguição implacável dos 4,5% não passam de curiosidades analíticas disseminadas para fins eleitorais.

Esta semana sairão dados suficientes para não deixar dúvidas sobre a intenção do BC. O IPCA 15 de maio será divulgado na quarta-feira. O índice deixará finalmente o incômodo patamar de 0,70% em que estava desde o início do ano (foi de 0,67% em janeiro, subiu 0,70% em fevereiro, avançou 0,73% em março e saltou 0,78% em abril) e descerá para algo entre 0,45% e 0,50% este mês. Antes dele, sai hoje o segundo decêndio do IGP-M para o qual o mercado estima algo perto de zero. Na quinta, será divulgado o relatório de emprego do IBGE referente a abril. Os analistas trabalham com uma alta da taxa de desemprego em relação aos 5% de março. Outros dois indicadores estarão no radar do mercado, mas tanto o resultado do setor externo quanto a arrecadação federal, ambos de abril, não têm capacidade de interferir nas decisões do Copom nesta altura do campeonato.

Como o mercado externo desaconselha piruetas especulativas, o câmbio persiste travado em ponto morto. O fim iminente do ciclo de alta da Selic não esmorece o investidor externo. Nem mesmo o sinal de que o BC vai recolher este mês hedge no valor expressivo de US$ 4,75 bilhões trouxe inquietação. Se alguém pegar as cotações do dólar nas últimas três sextas-feiras irá supor que no Brasil vigora o regime de câmbio fixo. Foi de R$ 2,2193 no dia 2, de R$ 2,2154 no dia 9 e de R$ 2,2135 no dia 16.


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