Por douglas.nunes

A semana começou bem devagar no mercado financeiro. Sem indicadores externos e domésticos relevantes, os pregões se dedicaram a trocas técnicas de posições, desprovidas de apostas mais ousadas. Como resultado, oscilações modestas e volumes negociados acanhados. A volatilidade do dólar foi discreta: na máxima, chegou a subir 0,14% e, na mínima, a cair, para fechar com leve desvalorização de 0,21%, a R$ 2,2088. O giro foi de apenas US$ 682 milhões, ante média diária no mês de US$ 1,6 bilhão. O pregão de juros futuros não tentou valer-se da piora das expectativas inflacionárias para tentar puxadas inconsequentes de taxas. Não havia ambiente propício para isso porque um índice importante apontou deflação em maio.

Na BM&F, agindo para suavizar mais um pouco a curva positivamente inclinada dos juros, enquanto a taxa curta permaneceu estável, a longa caiu. A taxa para a virada do ano fechou nos mesmos 10,96% de sexta-feira, ao passo que o contrato com vencimento em janeiro de 2017 abriu mão de seguir os juros americanos e recuou de 12,05% para 12%. O rendimento do título de 10 anos do Tesouro dos EUA subiu um degrau, de 2,53% para 2,54%.

As cem mais representativas instituições do mercado financeiro elevaram sua projeção de inflação acumulada este ano de 6,39% para 6,43%. Esta estimativa foi colhida pelo boletim Focus do Banco Central divulgado ontem. Na edição anterior, essas mesmas cem casas haviam reduzido o prognóstico de IPCA de 6,50% para 6,39%. Corrigiram o que parecia ser um excesso de otimismo inflacionário? Ou um desmedido arrojo desinflacionário? Na verdade, as projeções alternam freneticamente subidas e descidas porque ninguém tem muita certeza de nada. Como acertar o resultado do ano se, quase todo dia, o mercado erra a inflação do mês? Os critérios são técnicos, baseados em modelos com muita matemática embarcada, mas as expectativas não passam disso mesmo, “expectativas”. O problema é que o mercado opera em cima dessas mesmas cambiantes expectativas.

O IPCA vive pregando peças nos analistas e no BC, seja para cima, seja para baixo. Em novembro, os dirigentes da autoridade monetária já comemoravam informalmente o cumprimento da “meta pessoal” de obter em 2013 um IPCA abaixo dos 5,84% do ano anterior. Colocar o índice oficial de inflação numa curva descendente, depois de ter partido de 6,5% no primeiro ano do governo Dilma Rousseff, era tudo o que BC e Fazenda queriam. E aí veio dezembro e um IPCA que subiu desastroso 0,92%, fechando o ano com alta acumulada de 5,91%. Foi-se a meta. Com ela, foi também a intenção de acabar logo com o ciclo de elevação da Selic. Como a escadinha de baixa caiu, o alvo agora é mais pé no chão: evitar que o índice estoure o teto de 6,5% da banda de inflação. Fácil? Será se a inflação corrente se mantiver, como ocorre hoje, contrariando as “expectativas” do mercado, com frequência sujeitas a objetivos menos nobres.

Exemplo? A segunda prévia do IGP-M tombou de inflação de 0,83% em abril para deflação de 0,04% em maio, enquanto a mediana dos analistas era de alta de 0,07%. Está bem complicado ver claramente o que está acontecendo nesse exato instante com os preços da economia e o mercado, quando resolve com a consciência limpa puxar os juros para cima, acha que pode acertar a inflação do fim do ano. O BC pode fazer alguma coisa para acabar com as expectativas mutantes? Não pode.

No discurso de encerramento do tradicional seminário sobre Metas de Inflação realizado anualmente pelo BC, o seu presidente, Alexandre Tombini, fez elogios ao “forward guidance” exercitado pelo Federal Reserve (Fed). Sinal de que o Copom pretende utilizar o mecanismo da orientação futura para pôr uma rédea curta nas expectativas? Não dá para dizer que foi um sinal. Foi só isso mesmo: um elogio teórico. Só o Fed consegue dizer nos seus comunicados o que pretende fazer, ou não fazer, nos próximos meses porque lá é fácil. Afinal, a taxa básica de juros está congelada em zero desde o final de 2008. E a inflação anual roda moribunda entre 1% e 1,5% há anos. Aqui, a complexidade é paralisante. Tombini disse: "Em minha opinião, o forward guidance pode representar mais uma etapa no processo de aperfeiçoamento da comunicação dos bancos centrais, ao sinalizar com mais clareza a expectativa da trajetória da taxa”. Perfeito, teoricamente.

O Copom não teria nenhuma certeza e não passaria nenhuma confiança (poderia apenas provocar sorrisos constrangidos), se alterasse na reunião da semana que vem o seu comunicado e escrevesse: "O Copom decidiu manter a Selic em 11% e espera que a taxa fique nesse patamar, ou um pouco mais acima, por um longo período de tempo". Seria uma audácia capaz de produzir efeito contrário, o de minar a sua credibilidade. Como a política monetária ainda está atrás dos fatos – e o fato atual é que o BC pode ter exagerado no arrocho monetário face o literal desabamento dos índices de inflação — o “statement” do Copom deve insistir na toada dos últimos meses, a de não se comprometer sequer com a próxima decisão.O curto prazo brasileiro lembra o longo prazo keynesiano, aquele onde todos estarão mortos.

Em sintonia com a realidade, que neste caso é tão pessimista quanto as expectativas, o Focus reduziu de 1,69% para 1,62% a sua previsão de alta do PIB este ano. A revisão negativa foi consequência de dois dados adversos: a queda de 0,5% experimentada pelas vendas varejistas em março e o declínio de 0,11%, também em março, do IBC-Br calculado pelo BC. São indicadores que se juntam à deflação do IGP-M para consolidar o cenário de parada na alta da Selic no Copom do dia 28.

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