Por douglas.nunes
Publicado 21/05/2014 23:15 | Atualizado 22/05/2014 12:41

Os dados divulgados ontem sobre inflação e atividade confirmaram as suspeitas do mercado de que ambas estão harmoniosamente em desaceleração, cristalizando a certeza de que o Copom não vai subir a Selic na semana que vem. A ratificação não foi feita por indicadores de segunda classe.

Pelo contrário, são dois queridinhos dos analistas aguardados ansiosamente. A versão “15” do índice oficial de inflação, o IPCA, após avanço de 0,78% em abril, subiu 0,58% em maio, praticamente em linha com a mediana de 0,56% das expectativas. Pelo lado da atividade, o Caged, bíblia oficial do mercado de trabalho, apontou o pior abril dos últimos 15 anos. O “comprado” em taxa no pregão de juros futuros da BM&F que esperava uma surpresa capaz de arquivar os planos monetários do Banco Central vergou-se e os contratos sofreram novas baixas.

O juro do contrato para a virada do ano cedeu de 10,94% para 10,92%, enquanto que a taxa para janeiro de 2017 recuou de 11,99% para 11,92%. A comparação entre os dois vértices mostra uma inclinação da curva a termo de juros já abaixo de 1 ponto, o que não acontecia desde novembro.

O IPCA 15 de maio consolidou o declínio das pressões dos alimentos (frenagem de 1,84% para 0,88%), o grupo responsável pela alta da Selic de 10,75% para 11% feita pelo BC no dia 2 de abril. Os preços livres, sentindo os efeitos cumulativos e defasados do ciclo de alta de 3,75 ponto do juro básico, desaceleraram de 0,91% para 0,46%. Os algozes da inflação, os serviços, recuaram de 0,55% para 0,24%. A versão “15” avaliza a projeção de que o IPCA fechado de maio deve ficar entre 0,45% e 0,47%. A escadinha de baixa se sacramenta após o 0,92% de março e o 0,67% de abril. Ponto para o BC e a sua “vigilância tempestiva”. Mas agora chega.

No caso do emprego, a confirmação da impressão geral de que a atividade se enfraquece não significa dizer que o mercado acertou. Os especialistas previam a criação líquida de novos empregos formais na faixa de 120 mil (os mais pessimistas) a 215 mil (os mais otimistas). O Caged informou a adição de 105,384 mil, um número amargo até para o economista mais desconfiado. Dentre os oito setores pesquisados, a indústria de transformação já começou a demitir. Em março, havia criado 5.484 postos. Em abril, extinguiu 3.427. Mas todos os segmentos revelaram debilidade, inclusive o de serviços, o mais pujante. Hoje cedo, ao divulgar a sua pesquisa mensal de emprego de abril, o IBGE deve chancelar a perda de dinamismo do mercado de trabalho. Como ainda há muito tempo para piorar mais até as eleições, trata-se de notícia ingrata às pretensões da candidata oficial.

Além de assimilar as notícias domésticas, o mercado futuro de juros teve de incorporar movimento de queda do dólar. O grande evento global da semana — a divulgação da ata do último encontro de política monetária do Federal Reserve (Fed) — não tumultuou o mercado de treasuries, o único capaz ontem de evitar a desvalorização da moeda americana. A taxa da T-Note de 10 anos já havia subido, antes da publicação do documento, de 2,51% para 2,55%. Depois dele, oscilou sem convicção para fechar a 2,54%. A novidade da ata foi a discussão da estratégia operacional que será utilizada no futuro, depois de encerrado o programa de compra de bônus e hipotecas, para iniciar a alta da taxa básica de juros. E, frente ao real, o dólar fechou em queda de 0,29%, cotado a R$ 2,2105.

Apesar de o fluxo cambial ter contabilizado na semana passada um saldo positivo de US$ 380 milhões, no acumulado do mês ainda mostra-se deficitário em US$ 1,36 bilhão. A maior parte do rombo provém da conta comercial. O comércio exterior sofre tanto os efeitos negativos da desaceleração chinesa quanto das importações de combustíveis. A contratação de câmbio para exportação e importação apresenta uma perda líquida de US$ 687 milhões do dia 2 até a última sexta-feira. A saída líquida de capitais pela conta financeira é menor, de US$ 452 milhões, e tende a ser revertido até o fechamento de maio em face das sinalizações conservadores feitas pelo Fed na ata divulgada nesta quarta-feira.

Faz um ano a guinada radical dada pelo fluxo cambial em 2013. Em maio do ano passado, o superávit foi fantástico, de US$ 10,76 bilhões. No final do mês, o mundo virou de cabeça para baixo depois que o então presidente do Fed, Ben Bernanke, introduziu como quem não quer nada uma palavrinha — “tapering” — num discurso aparentemente inofensivo. A partir de junho de 2013, a rota mudou e o fluxo passou a mostrar mês após mês, com exceção de novembro, déficits pesados. O “tapering” veio e o mundo não acabou. E, arrependidos, os capitais começaram a voltar.

Como maio ficou estigmatizado como vez de sinalizações desestabilizadoras, os investidores globais estão mais cautelosos. Pelo menos ontem a mística não se confirmou. O que está valendo, para efeitos de curto prazo, é o fato de que na semana passada o ingresso líquido de capital financeiro superou US$ 1 bilhão, dinheiro que está derrubando as taxas dos títulos públicos brasileiros e os juros dos contratos longos negociados na BM&F. Tudo indica que o BC não precisará alterar, por causa do fluxo, o planejamento já traçado para o programa de intervenção cambial e oferta de hedge.

Deve insistir na estratégia de redução da oferta de contratos de swaps destinados a rolar os que estão vencendo. Dos US$ 9,65 bilhões que vencerão no dia 2 de junho, já rolou no mês até ontem US$ 3,25 bilhões. Mantido o ritmo, serão resgatados US$ 4,75 bilhões, ou seja, um pouco mais de 49% do total a vencer. Em termos percentuais, trata-se de alteração significativa comparativamente ao que fez nos dois meses anteriores. Em março, renovou 73,91% do lote de US$ 10,148 bilhões que foi resgatado em 1º de abril. E, em abril, revalidou 74,43% do total de US$ 8,73 bilhões que venceu em 2 de maio. Se perseverar na estratégia, em junho o total que deixará vencer pode até superar o volume a ser revalidado.

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