O BC vai desvendar o futuro?

Este Copom tem o encargo espinhoso de jogar holofotes sobre o futuro. O mercado futuro de juros da BM&F sabe da relevância desta reunião e deverá operar travado nesses três dias que a antecedem

Por O Dia

O consenso de que o Copom do Banco Central irá na quarta-feira manter a Selic no patamar vigente hoje, de 11%, pondo fim ao ciclo de aperto monetário iniciado em abril do ano passado, não é absoluto. Uma minoria de analistas, não mais do que 10% do universo de instituições, ainda acredita que o BC fará uma alta derradeira de 0,25 ponto. Essa minoria não tem a dimensão de um racha respeitável, mas há dissenso de peso acerca do que a autoridade poderá fazer depois das eleições. A suposição majoritária é que o Copom irá congelar a Selic em 11% até o fim do ano. Mas a ala dissidente, que espera a retomada do processo de avanço da taxa básica depois de outubro, ainda é ponderável, perto de 40%. 

Esta reunião do Copom deve ser a mais importante do ano não só por causa do encerramento formal do ciclo de alta, mas sobretudo pelo que vai comunicar a respeito de suas intenções para o futuro.

Ao desvendar o futuro, o BC mudará o presente. É de extrema importância a emissão na quarta-feira de um comunicado pós-Copom claro e com certa dose de ousadia. O BC precisa avançar em sua comunicação para conseguir homogeneizar os vários cenários traçados pelos economistas. Precisa trabalhar para ancorar as expectativas de maneira coesa para conseguir alcançar seus objetivos. Se obtiver êxito, irá retirar ainda mais prêmios hoje encastelados na curva futura de juros. O comunicado terá a missão de apagar a impressão criada pelas últimas decisões monetárias, vistas como reféns dos resultados da hora do IPCA. Afinar o tom da nota será a tarefa mais desafiadora desta reunião.

Para retomar as rédeas das expectativas, o comunicado não poderá comportar leituras divergentes. Os mais recentes foram deliberadamente redigidos para justificar tanto decisão de interromper o ciclo de alta quanto de dar continuidade a ele. O divulgado ao cabo do último Copom, no dia 2 de abril, foi o seguinte: "O Copom decidiu, por unanimidade, neste momento, elevar a taxa Selic em 0,25 p.p., para 11,00% a.a., sem viés. O Comitê irá monitorar a evolução do cenário macroeconômico até sua próxima reunião, para então definir os próximos passos na sua estratégia de política monetária”. As duas frases passavam o recado de que a decisão de alta se limitava ao momento. Na segunda frase, há camuflada a promessa de que, na reunião seguinte (a desta quarta-feira), o Copom iria definir “os próximos passos” da política monetária. Ou seja, não iria definir apenas o que pretenderia fazer no encontro imediatamente posterior. O texto fala em “próximos passos”, incorporando o compromisso de haver agora o esforço para a construção de um “forward guidance”.

É o que se verá no início da noite do dia 28. A edição de mais um “statement” vago e escorregadio desnudará as dúvidas do BC sobre a eficácia do ciclo já realizado em trazer o IPCA para mais perto do centro da meta de inflação. A vacilação fomentará o dissenso no mercado e a batalha das expectativas pode ser perdida de novo. Se o BC não tem hoje elementos suficientes para garantir que o IPCA fechado de 2014 será menor que os 5,91% acumulados no ano passado, poderia ao menos, de alguma forma, manifestar sua discordância em relação aos 6,43% projetados pelo último Focus. De duas, uma: ou grassa no mercado um derrotismo inflacionário irreal, empedernido mesmo depois de o BC ter feito o maior aperto monetário da história, ou a política monetária gradualista está falida e desmoralizada, pois solapada pela ala fiscal do governo. E o BC tem a obrigação de defender o seu papel.

Este Copom de depois de amanhã tem o encargo espinhoso de jogar holofotes sobre o futuro. O mercado futuro de juros da BM&F sabe da relevância desta reunião e deverá operar travado nesses três dias que a antecedem. Já na sexta-feira, a movimentação dos contratos foi mínima. As instituições trataram de proteger as suas operações harmonizando posições “compradas” e “vendidas” ao longo da curva de juro, de tal sorte que a perda em um contrato pode ser neutralizada pelo ganho em outro. A taxa do contrato para a virada do ano fechou sexta-feira em 10,90%, ante 10,89% na véspera e 10,96% há uma semana. E o contrato com vencimento em janeiro de 2017 encerrou a semana em 11,82%, frente a 11,81% na quinta e 12,05% na sexta anterior.

O dólar subiu na sexta 0,37%, para R$ 2,2240, por receio de que o BC reduza muito a oferta de hedge. Nada a ver com o déficit em transações correntes de abril, de US$ 8,29 bilhões, acima das projeções de US$ 6,55 bilhões. Como proporção do PIB, o déficit está estabilizado na faixa de 3,6% há nove meses. E os ingressos de capital permitiram financiá-lo a ponto de gerar um superávit de US$ 1,77 bilhão no balanço de pagamentos.

Esta semana a agenda doméstica estará lotada de eventos relevantes. Na quarta, além da reunião do Copom, o Supremo Tribunal Federal (STF) deve retomar o julgamento da constitucionalidade dos planos econômicos das décadas de 1980 e 1990. Na semana passada, a Bovespa foi abalada pela decisão do Superior Tribunal de Justiça (STJ) de dar ganho de causa aos poupadores no processo que discute a correção da poupança durante esses planos. A semana também conhecerá dados atualizados sobre o andamento da inflação, da atividade e da área fiscal.

Sai na quinta-feira o IGP-M fechado de maio e alguns economistas não descartam uma leve deflação. Na sexta, o IBGE divulga o crescimento do PIB no primeiro trimestre do ano. A expectativa é de que a economia cresceu entre 0,30% e 0,50% de janeiro a março, depois de avanço de 0,70% no trimestre anterior. Trata-se de um resultado ruim, mas já previsto. Só mexerá com os mercados se a expansão for menor que 0,30% ou maior que 0,50%. O desempenho fiscal do governo relativo a abril começa a ser desvendado hoje com a divulgação da arrecadação federal, prossegue na quinta com o resultado primário do governo central e termina na sexta com o resultado consolidado.

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