Em alta, juro espera Copom

Na véspera da quarta reunião do ano do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central, os juros fecharam em alta ontem no mercado futuro da BM&F

Por O Dia

Os avanços foram modestos — a taxa para janeiro de 2017 subiu de 11,81% para 11,89% — porque o mercado não alterou nem sua aposta de manutenção da Selic em 11% nem a expectativa de que o BC não irá se comprometer com o futuro. Mas o ajuste dos contratos revela dois dados preocupantes. O primeiro é que os investidores permanecem com o dedo no gatilho, preparados para novas disparadas assim que a cena externa mudar. O segundo é que o mercado atribui ao BC o papel de mero espectador reagente do que acontece lá fora.

Os juros subiram no mercado futuro como efeito secundário da alta do dólar. Uma depreciação cambial de quase 10% até o fim do ano já está no preço das expectativas inflacionárias. Uma arrancada desta magnitude não fará o IPCA ir além dos quase 6,5% previstos como acumulado do ano. Mesmo assim o juro sobe porque os investidores situados na ponta prefixada se descobrem de repente exageradamente otimistas, e tentam se cobrir.

O dólar subiu ontem 0,75%, cotado a R$ 2,2407, porque os investidores mais atilados podem ter percebido nos indicadores americanos divulgados ontem os primeiros sinais de que, finalmente, a economia dos EUA se sente forte a ponte de iniciar sem medo a sua escalada, após refugar em sucessivas tentativas hesitantes. E é essencial aos gestores de carteira acertar exatamente esse ponto, o de não retorno. O mercado foi logo despertado da sonolência do feriadão do Memorial Day por uma estridente saraivada de dados, sobretudo os de um setor muito pessoalmente escrutinado por Janet Yellen, o “housing”:

1) O índice de preços residenciais da FHFA subiu 0,7% em abril, ante 0,6% em março, quando os analistas previam desaceleração para 0,5%.

2) Outro índice de preços de casas, o da S&P/Case-Shiller, cresceu 12,37%, acima do mês anterior (12,86%) e das expectativas (11,8%).

3) As encomendas de bens duráveis subiram 0,8% em abril, quando o mercado previa expansão de 0,7%.

4) O PMI composto da Markit acelerou de 55,6 para 58,6 na medição preliminar de maio.

5) A confiança do consumidor, calculada pela Conference Board, subiu de 81,7 para 83 em maio.

6) O único dado negativo foi a estabilidade em 7 pontos, em maio, da sondagem industrial do Fed de Richmond.

Após a divulgação desses indicadores, o rendimento dos títulos de 10 anos do Tesouro americano subiu de 2,54% para 2,56%, mas a decolagem foi abortada pelo ingresso de capitais vindos de investidores posicionados no Leste europeu, assustados com a ferocidade do contra-ataque do governo da Ucrânia aos separatistas, e a taxa desceu a 2,52%.

O Brasil precisa temer nova onda de fuga de capitais? Não se o critério for exclusivamente a rentabilidade recebida aqui. O BC nunca admitiu o uso do instrumento monetário para o fim específico de atração de capitais externos especulativos, hoje vitais para o financiamento do déficit em transações correntes, já que o investimento estrangeiro direto não é suficiente para isso. Mas trata-se de um colateral nada indesejável. E ele não precisaria elevar a Selic além de 11% se o objetivo fosse seduzir hedge funds.

Isso porque mesmo mantendo hoje a taxa básica em 11% o Brasil não perderá a posição de maior pagador de juros reais do mundo. Segundo o clássico ranking da consultoria Moneyou, o país lidera com folga as listas tanto de juro real “ex-ante” (projetado para os próximos 12 meses) quanto “ex-post” (acumulado em 12 meses), com 4,25% e 4,43%, respectivamente.

Como o que conta mesmo em se tratando de juro real é o “ex-ante”, é bom se ater só a ele. Para o Brasil perder a condição de líder inconteste do ranking, cuja segunda posição é ocupada pela China, com taxa de 3,41%, o Copom teria hoje de cortar a Selic em um ponto, baixando-a para 10%. Impossível, agora e no futuro visível. Depois da China, vem a Índia (2,66%) e a Rússia (1,70%). Não é por acaso que os quatro países que formam o acrônimo BRICs puxam a fila dos 40 países investigados pela Moneyou. O mais direto competidor do Brasil pelos capitais arredios que perambulam pelo mundo só aparece na sexta posição. É a Turquia, que promete juro real de 1,58%. O país não precisa, portanto, se preocupar com ele.

O que pode diminuir o poder de encanto exercido pelos títulos brasileiros é menos a concorrência turca e mais a visão de que o ganho oferecido pelo campeão mundial pode minguar devido a tendência de desvalorização do real. Se o dólar subir para os R$ 2,45 previstos para dezembro pelo boletim Focus — uma projeção que se mantém inabalável há sete semanas consecutivas —, tudo o que o investidor ganhar com o juro nominal brasileiro (o terceiro maior do mundo, só superado pelos 16,38% da Venezuela e pelos 14,90% da Argentina, países que não são competidores já que, por causa da hiperinflação, pagam juros reais negativos descomunais de 27,71% e 15,58%, respectivamente) perderá com a variação cambial. Congelada em 11% até o fim do ano, a Selic pagará do mês que vem até dezembro 6,3%, ante alta do dólar de 9,4%. Conclusão: se o investidor externo quiser aplicar aqui, vai ter de fazer hedge e este vai engolir um bom pedaço do rendimento.

É por isso que o BC não pode, como defende uma ala astuta do mercado, simplesmente acabar com o seu programa de intervenção cambial criado em agosto e revisado em dezembro. Precisa manter pelo menos uma oferta regular de swaps cambiais em sintonia com a demanda de empresas e hedge funds globais. Nessa reta final de maio, o BC consolida a interpretação já majoritária desde o início do mês de que não rolará quase a metade dos swaps velhos que vão vencer na segunda-feira. Do lote de US$ 9,653 bilhões, não irá renovar US$ 4,65 bilhões.

Possivelmente, também não irá revalidar os US$ 3,5 bilhões em linhas de crédito com compromisso de recompra a vencer em junho. Essa diretriz, de renovação pela metade dos instrumentos, deverá ser preservada na terceira etapa do programa, depois que a segunda terminar em 30 de junho. Ele não pode meramente substituir, como defende a corrente mais ardilosa, o programa de abundante hedge por vendas discricionárias de dólares físicos das reservas cambiais. Seria jogar fora uma estratégia das mais bem-sucedidas globalmente contra frenesis especulativos.

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Em alta, juro espera Copom

Na véspera da quarta reunião do ano do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central, os juros fecharam em alta ontem no mercado futuro da BM&F

Por O Dia

Os avanços foram modestos — a taxa para janeiro de 2017 subiu de 11,81% para 11,89% — porque o mercado não alterou nem sua aposta de manutenção da Selic em 11% nem a expectativa de que o BC não irá se comprometer com o futuro. Mas o ajuste dos contratos revela dois dados preocupantes. O primeiro é que os investidores permanecem com o dedo no gatilho, preparados para novas disparadas assim que a cena externa mudar. O segundo é que o mercado atribui ao BC o papel de mero espectador reagente do que acontece lá fora.

Os juros subiram no mercado futuro como efeito secundário da alta do dólar. Uma depreciação cambial de quase 10% até o fim do ano já está no preço das expectativas inflacionárias. Uma arrancada desta magnitude não fará o IPCA ir além dos quase 6,5% previstos como acumulado do ano. Mesmo assim o juro sobe porque os investidores situados na ponta prefixada se descobrem de repente exageradamente otimistas, e tentam se cobrir.

O dólar subiu ontem 0,75%, cotado a R$ 2,2407, porque os investidores mais atilados podem ter percebido nos indicadores americanos divulgados ontem os primeiros sinais de que, finalmente, a economia dos EUA se sente forte a ponte de iniciar sem medo a sua escalada, após refugar em sucessivas tentativas hesitantes. E é essencial aos gestores de carteira acertar exatamente esse ponto, o de não retorno. O mercado foi logo despertado da sonolência do feriadão do Memorial Day por uma estridente saraivada de dados, sobretudo os de um setor muito pessoalmente escrutinado por Janet Yellen, o “housing”:

1) O índice de preços residenciais da FHFA subiu 0,7% em abril, ante 0,6% em março, quando os analistas previam desaceleração para 0,5%.

2) Outro índice de preços de casas, o da S&P/Case-Shiller, cresceu 12,37%, acima do mês anterior (12,86%) e das expectativas (11,8%).

3) As encomendas de bens duráveis subiram 0,8% em abril, quando o mercado previa expansão de 0,7%.

4) O PMI composto da Markit acelerou de 55,6 para 58,6 na medição preliminar de maio.

5) A confiança do consumidor, calculada pela Conference Board, subiu de 81,7 para 83 em maio.

6) O único dado negativo foi a estabilidade em 7 pontos, em maio, da sondagem industrial do Fed de Richmond.

Após a divulgação desses indicadores, o rendimento dos títulos de 10 anos do Tesouro americano subiu de 2,54% para 2,56%, mas a decolagem foi abortada pelo ingresso de capitais vindos de investidores posicionados no Leste europeu, assustados com a ferocidade do contra-ataque do governo da Ucrânia aos separatistas, e a taxa desceu a 2,52%.

O Brasil precisa temer nova onda de fuga de capitais? Não se o critério for exclusivamente a rentabilidade recebida aqui. O BC nunca admitiu o uso do instrumento monetário para o fim específico de atração de capitais externos especulativos, hoje vitais para o financiamento do déficit em transações correntes, já que o investimento estrangeiro direto não é suficiente para isso. Mas trata-se de um colateral nada indesejável. E ele não precisaria elevar a Selic além de 11% se o objetivo fosse seduzir hedge funds.

Isso porque mesmo mantendo hoje a taxa básica em 11% o Brasil não perderá a posição de maior pagador de juros reais do mundo. Segundo o clássico ranking da consultoria Moneyou, o país lidera com folga as listas tanto de juro real “ex-ante” (projetado para os próximos 12 meses) quanto “ex-post” (acumulado em 12 meses), com 4,25% e 4,43%, respectivamente.

Como o que conta mesmo em se tratando de juro real é o “ex-ante”, é bom se ater só a ele. Para o Brasil perder a condição de líder inconteste do ranking, cuja segunda posição é ocupada pela China, com taxa de 3,41%, o Copom teria hoje de cortar a Selic em um ponto, baixando-a para 10%. Impossível, agora e no futuro visível. Depois da China, vem a Índia (2,66%) e a Rússia (1,70%). Não é por acaso que os quatro países que formam o acrônimo BRICs puxam a fila dos 40 países investigados pela Moneyou. O mais direto competidor do Brasil pelos capitais arredios que perambulam pelo mundo só aparece na sexta posição. É a Turquia, que promete juro real de 1,58%. O país não precisa, portanto, se preocupar com ele.

O que pode diminuir o poder de encanto exercido pelos títulos brasileiros é menos a concorrência turca e mais a visão de que o ganho oferecido pelo campeão mundial pode minguar devido a tendência de desvalorização do real. Se o dólar subir para os R$ 2,45 previstos para dezembro pelo boletim Focus — uma projeção que se mantém inabalável há sete semanas consecutivas —, tudo o que o investidor ganhar com o juro nominal brasileiro (o terceiro maior do mundo, só superado pelos 16,38% da Venezuela e pelos 14,90% da Argentina, países que não são competidores já que, por causa da hiperinflação, pagam juros reais negativos descomunais de 27,71% e 15,58%, respectivamente) perderá com a variação cambial. Congelada em 11% até o fim do ano, a Selic pagará do mês que vem até dezembro 6,3%, ante alta do dólar de 9,4%. Conclusão: se o investidor externo quiser aplicar aqui, vai ter de fazer hedge e este vai engolir um bom pedaço do rendimento.

É por isso que o BC não pode, como defende uma ala astuta do mercado, simplesmente acabar com o seu programa de intervenção cambial criado em agosto e revisado em dezembro. Precisa manter pelo menos uma oferta regular de swaps cambiais em sintonia com a demanda de empresas e hedge funds globais. Nessa reta final de maio, o BC consolida a interpretação já majoritária desde o início do mês de que não rolará quase a metade dos swaps velhos que vão vencer na segunda-feira. Do lote de US$ 9,653 bilhões, não irá renovar US$ 4,65 bilhões.

Possivelmente, também não irá revalidar os US$ 3,5 bilhões em linhas de crédito com compromisso de recompra a vencer em junho. Essa diretriz, de renovação pela metade dos instrumentos, deverá ser preservada na terceira etapa do programa, depois que a segunda terminar em 30 de junho. Ele não pode meramente substituir, como defende a corrente mais ardilosa, o programa de abundante hedge por vendas discricionárias de dólares físicos das reservas cambiais. Seria jogar fora uma estratégia das mais bem-sucedidas globalmente contra frenesis especulativos.

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