Por bruno.dutra

A trajetória do dólar dependerá de dois acontecimentos internacionais e da reação do Banco Central a eles. O primeiro se dará na Europa. Na quinta-feira, o Banco Central Europeu (BCE) fará a mais aguardada reunião de política monetária do ano. Deve anunciar providências para espantar a deflação da zona do euro. Tais medidas agirão no sentido indireto de apreciar as moedas emergentes contra o dólar.

Um dia depois, será publicado nos EUA o relatório do mercado de trabalho de maio, o “payroll”. Dependendo do resultado, a seta cambial estará apontada na mesma direção da imprimida pelo BCE. Ou, ao contrário, pode atuar para neutralizar seus benefícios aos emergentes. O BC tende a esperar a resolução dessas indefinições para só então anunciar suas intenções para a rolagem dos swaps cambiais que vencem no início de julho.

No começo do mês que vem irá vencer um megalote de swaps em valor ligeiramente superior a US$ 10 bilhões. O BC vem ampliando o volume de resgate nos últimos três meses, ou seja, a política hoje é de retirada parcial do hedge cambial oferecido fartamente no passado. Em março e abril, deixou de rolar cerca de 25% dos contratos antigos.

Em maio, subiu para quase 50% o montante resgatado. Em junho, a estratégia terá de conjugar a avaliação do resultado sobre o ânimo dos investidores globais dos eventos previstos para esta semana com a decisão que terá de ser tomada no dia 30. Neste dia acaba o segundo estágio do programa de intervenções cambiais criado pelo BC em agosto do ano passado.

Na primeira etapa, que durou até dezembro, a autoridade se comprometeu a oferecer swaps cambiais novos no volume semanal de US$ 2 bilhões, além de linhas de crédito em dólar aos bancos. Na segunda, destinada a vigorar ao longo do primeiro semestre, a ração semanal de instrumentos de hedge foi cortada à metade. O que irá fazer no terceiro estágio? Entre um jogo e outro da Copa do Mundo, os operadores terão este mês farto material para brincar com as cotações do dólar. A primeira dica sobre a rota do terceiro estágio do programa virá da decisão que o BC tomar sobre o grau de rolagem do lote de US$ 10 bilhões.

A reunião do BCE deve ser mais importante para o remanejamento das carteiras globais do que o “payroll” americano. O BCE jamais deixará de ser a típica instituição austera inspirada no conservadorismo monetário germânico, mas foi tão sinalizada a necessidade de medidas destinadas a ampliar a liquidez que os analistas já estão esperando um mix que inclua redução da taxa básica de 0,25% para zero, imposição de juros negativos às operações bancárias e um programa de compra de ativos, com a emissão primária de até 1 trilhão de euros.

Como a felicidade do mercado é sempre inversamente proporcional ao grau das expectativas, mesmo que o pacote seja bom, mas não seja tudo isso, a receptividade poderá denunciar uma ponta de frustração. Mas qualquer programa de aumento da liquidez acaba vazando para os ativos emergentes, sobretudo para os mais generosos entre eles, os do Brasil.

O “nonfarm payroll” de maio, a ser publicado na sexta-feira, tem a ingrata tarefa de mitigar a frustração do mercado americano com a retração de 1% experimentada pelo PIB no primeiro trimestre do ano. Para tanto, não basta ao relatório ser bom, tem de vir muito bom, bem acima das expectativas. A criação de novos postos de trabalho precisa mostrar que as projeções para o desempenho do PIB neste segundo trimestre são confiáveis, retirando a visão de uma alta entre 3% e 3,8% do produto no acumulado do ano da categoria psiquiátrica de delírio coletivo. E seria imprescindível que a taxa de desemprego caísse dos 6,3% de abril para mais perto de 6% graças a um acréscimo da população ocupada e não da diminuição da população economicamente ativa.

O mercado secundário de treasuries só precisa de um pretexto de razoável consistência para empreender o longo caminho de volta. Em maio, os juros dos títulos de 10 anos desceram a ladeira. Abriram o mês a 2,67%, foram baixando até chegar ao patamar de 2,50% até então considerado um piso de difícil rompimento, mas bateram em 2,40% na quinta-feira de manhã. Encerraram o mês em ainda desconfortáveis 2,47%.

Se o “payroll” não for capaz de levantar a autoestima americana e se o BCE, contrariando seus princípios, vier mesmo a enveredar pelos odiados desvãos heterodoxos, o dólar voltaria aqui a namorar o degrau entre R$ 2,20 e R$ 2,23. E o BC teria de ampliar a dose de resgate dos swaps velhos e pensar em uma terceira fase do seu programa ainda mais flexível. Na sexta-feira, a procura por hedge privado capaz de suprir a falta do oficial fez a moeda valorizar-se 0,76%, cotada a R$ 2,2408, encerrando o mês com modesta alta de 0,48%. Ainda bem que a inflação de maio será baixinha, caso contrário o real teria se valorizado em termos reais.

Os especialistas ouvidos pelo Focus esperam um IPCA de 0,45% em maio. O índice será divulgado oficialmente pelo IBGE na sexta-feira. O indicador de inflação do sistema de metas atravessa um período ingrato do ano: enquanto a inflação mensal está em queda, a acumulada em doze meses sobe. Qual das duas deveria ser a mais observada pelo Copom na decisão de sua política monetária? O mercado anseia muito que a ata da reunião realizada na semana passada, a ser editada na manhã de quinta-feira, traga alguma orientação sobre o fim do ano e o começo de 2015. É improvável. “Neste momento”, o comitê só toma decisões com prazo de validade de 45 dias.

Certamente está atento a dois fatos. O primeiro: mês a mês, o IPCA vem mais baixo, passando atestado de competência à sua política monetária e avalizando a advertência de que os efeitos do ciclo de alta da Selic são cumulativamente defasados. O IPCA caiu de 0,92% em março para 0,67% em abril, deve fechar maio em torno de 0,45% e baixar para perto de 0,34% (projeção Focus) em junho. Mas o BC não pode sair soltando rojão. A outra escadinha, a do IPCA acumulado em 12 meses, é de alta: 6,15% em março, 6,28% em abril e algo como 6,40% em maio. E a ala mais impenitente do mercado não vê a hora em que chegará no segundo semestre a furar o teto de 6,5% da banda inflacionária.

O segundo: a queda mensal está intimamente ligada à perda de vigor da economia. Quase não passa um dia sem sair um dado revelador da perda de confiança de empresários e consumidores e confirmador da atividade mais fraca. Meio atônitos, os economistas revisam para baixo suas estimativas de PIB para o ano. Começa a ganhar peso o prognóstico de uma alta de apenas 1,5%. E a economia ainda nem sentiu todo o peso da paulada de 3,75 pontos desferida pela Selic. Sempre muito sóbrios, os departamentos de economia dos dois maiores bancos privados brasileiros, depois do resultado do PIB no primeiro trimestre (alta de 0,2%), estabeleceram projeções para o acumulado do ano de 1,5% (Bradesco) e de 1% (Itaú).

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