Por bruno.dutra

Se, ao alterar a quantidade de papéis, o BC estava submetendo o câmbio e sua capacidade de fogo a um teste prático, a oscilação de preço mostrou que a autoridade ainda dita as regras da política cambial. Mas o BC foi além da imposição de um simples exame de reação. A rapidez com que mudou a sinalização reintroduziu um elemento ausente do jogo cambial nos últimos meses. Desde que começou a intervir pesadamente, em agosto, o BC fazia questão de enfatizar a previsibilidade de sua conduta. Quanto mais previsível se torna o jogo, menor é a propensão inata do mercado a fomentar especulações. Mas agora o BC parece querer de volta a incerteza. Trata-se de um risco ainda não inteiramente calculado.

A súbita mudança na quantidade de swaps oferecidos em leilão realizado ontem para a rolagem de contratos que irão ser resgatados somente em 1° de julho, ao reintroduzir a imprevisibilidade, fornece pistas sobre as futuras alterações estudadas pelo BC em seu programa de intervenção e que devem ser implantadas no final do mês. No dia 30, acaba a segunda etapa do plano deslanchado para enfrentar a crise de agosto.

Entre o primeiro e o segundo estágio, ele reduziu pela metade a oferta de instrumentos de proteção cambial para empresas endividadas em dólar e para investidores interessados em neutralizar arrancadas do dólar capazes de comprometer a rentabilidade em real de suas aplicações. Nesta terceira, a se iniciar em julho, poderá operar menos atrelado a regras rígidas e mais ao sabor das circunstâncias do momento.

A ração semanal fixa – hoje composta pelo leilão de US$ 1 bilhão em swaps novos, não carimbados para renovar antigos – pode ceder espaço a colocações mais arbitrárias, em sintonia com a demanda efetiva por hedge e em resposta às instabilidades vindas de fora.

O desempenho do dólar na segunda e na terça-feira mostrou que o BC está com a faca e o queijo na mão. Na abertura da semana, fez um tímido leilão de 5 mil swaps, iniciando formalmente a rolagem dos US$ 10,06 bilhões que irão vencer no dia 1°. A sugestão de que, mantido o ritmo suave, permitiria o resgate de 53,4% do lote total provocou forte alta da moeda americana no mercado à vista. Empresas e investidores se viram subitamente abandonados pelo seu principal supridor de hedge.

Com a indicação de uma rolagem comedida, pôs à prova a aptidão do mercado em puxar o dólar para cima. E a moeda disparou 1,55%, já mirando o patamar de R$ 2,28. Ontem tudo mudou. Como não é hora de agitar o câmbio, o BC resolveu dobrar a oferta de swaps. Colocou 10 mil e sinalizou que levará ao vencimento uma quantidade pequena de papéis, de apenas US$ 1,31 bilhão. Trata-se de um recuo expressivo em relação ao que foi feito nos meses anteriores. Em abril, não rolou o equivalente a US$ 2,233 bilhões e, em maio, de US$ 4,65 bilhões.

Mas será que sinalizou mesmo um retrocesso que transmite a impressão de que a autoridade está com medo das incertezas de junho? Ou ele apenas sonda o terreno para melhor avaliar as suas opções para a construção do terceiro estágio do seu programa de intervenções? A segunda hipótese ganhou corpo na parte vespertina do pregão de ontem. Tanto é que o dólar não sustentou a baixa matinal, de até 0,79%, decorrente da mudança na quantidade de oferta de swaps. À tarde, a leitura de que o BC pode promover o retorno da imprevisibilidade, permitiu que a moeda acompanhasse a tendência global de alta. E o dólar fechou cotado a R$ 2,2782, com valorização de 0,12%.

Se o BC estava checando empiricamente a hipótese de que seria possível a ele afastar-se do mercado de câmbio no segundo semestre do ano, assumindo mais a posição de um observador atento e punitivo, e menos a de um obsessivo garantidor de hedge e liquidez, o vertiginoso vaivém da moeda comprovou que a sua presença diária, previamente conhecida e ansiada, ainda é a melhor escolha. A imprevisibilidade só aumenta as chances de ganhos rápidos com operações day trade.

Sem normas claras e simples, conhecidas de todos, os players mais astutos desenvolvem artimanhas altistas destinadas a forçar a entrada repentina da autoridade para aliviar a pressão. E ganham comprando moeda depois da intervenção e vendendo momentos antes da próxima. Esses momentos não são difíceis de identificar, basta acompanhar a cotação em tempo real dos juros longos americanos. Mas se, ao contrário, na vigência do sistema de ração diária, o mercado sabe que em terminado momento imutável do dia o BC vai despejar 10 mil swaps independentemente da altura em que estiver a taxa da treasury de 10 anos, as especulações prévias ficam inibidas.

Ao optar por ações cambiais tópicas e discricionárias, o BC torna-se refém dos mutantes humores externos. Depois de baixar o juro de 10 anos para até 2,41% no dia 29, em consequência do baixo-astral provocado pela contração do PIB americano no primeiro trimestre, o mercado retomou o movimento de alta das T-Notes sem que houvesse respaldo dos indicadores da hora. Ontem, as taxas subiram de 2,53% para 2,57% não porque as encomendas de bens duráveis cresceram 0,7% em abril, quando os analistas previam avanço de 0,6%, uma diferença irrelevante, mas porque prosseguiu uma atuação fundada na esperança especulativa de que os dados sobre o mercado de trabalho, a serem divulgados hoje e sexta-feira, irão desvelar uma economia pujante.

Trata-se mais de uma expectativa do que de um “insider”. Sai hoje o relatório da ADP, empresa privada de processamento de folhas de pagamento, sobre a criação de empregos no mês passado, um proxy nem sempre confiável do “nonfarm payroll”, o relatório oficial do governo americano, a ser publicado na sexta-feira. Os juros estão subindo no boato, e mesmo que os informes vierem um pouco melhores do que o esperado as taxas tendem a perder o gás insuflado nesses dias. E o BC não pode pautar suas intervenções com base em puxadas e derrubadas no compasso das estratégias de gestores.

Os contratos futuros de juros negociados na BM&F ignoraram a desaceleração do IPC FIPE e preferiram seguir a arremetida das taxas americanas. O índice de inflação de São Paulo recuou de 0,53% em abril para 0,25% em maio, mas os investidores posicionados na ponta prefixada do pregão resolveram realizar ganhos e não esperar por novos indicadores acerca da apatia econômica brasileira. A taxa para o contrato mais volátil, negociado para janeiro de 2017, subiu de 11,70% para 11,80%.

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