Giro fraco potencializa dólar

Por causa da sessão encurtada pelo jogo do Brasil, o investidor que quis comprar dólar ontem para se proteger de mudanças na política monetária americana enfrentou dificuldades para encontrar a moeda

Por O Dia

O resultado foi uma alta exagerada do dólar. Fechou cotado a R$ 2,2570, com valorização de 0,86%. Potenciais vendedores ou estavam fora do mercado ou relutavam em se desfazer da moeda. O irrisório giro de negócios, de US$ 670 milhões, menos da metade da média do mês, favoreceu puxadas artificiais que tendem hoje a ser desarmadas se em sua reunião vespertina o Comitê Federal de Mercado Aberto (Fomc) do Federal Reserve restringir-se ao script esperado. Os juros futuros tentaram acompanhar o esticão do dólar mas foram contidos por mais um dado ruim sobre o desempenho da economia brasileira.

O indicador que serviu de mote à puxada do dólar veio dos EUA. O CPI (índice de preços ao consumidor, o IPCA deles) subiu 0,4% em maio, o dobro do previsto pelas instituições. Esse 0,4% assustou não só porque foi a maior alta desde fevereiro de 2013 como também, na base da comparação anual, passou a embutir uma inflação de 2,1%, já levemente acima da meta de inflação não explícita do Fed, um banco central que não é regido oficialmente por um sistema de bandas inflacionárias. O núcleo do CPI, a característica do índice para a qual o Fomc mais atenta, subiu 0,3% na comparação mensal e 2% na anual, também acima das expectativas, de 0,2% e 1,9%, respectivamente.

Em reação ao CPI imprevisto, os juros dos títulos de 10 anos do Tesouro americano não poderiam deixar de subir. Evoluíram de 2,60% para 2,64%. Mas a alta foi contida por dois fatores. O primeiro é que o Fomc não olha apenas para o CPI para calibrar sua política monetária. Sua atenção se distribui pelo conjunto de índices de inflação, mas com especial predileção pelo core do PCE, o índice de gastos pessoais dos americanos que serve de deflator do PIB. E este ainda roda a 1,6% ao ano. O segundo foi a divulgado ontem também de dados negativos sobre o crucial setor de “housing”. Não basta o núcleo do PCE estar acima de 2% para ser desencadeado um movimento de aperto monetário. Concomitantemente, o setor imobiliário e o mercado de trabalho precisam, para tanto, mostrar robustez. Não é o que acontece hoje.

As construções residenciais caíram 6,5% em maio. Os analistas projetavam queda, mas de 3,9%. Com o dado de ontem, a média móvel trimestral recuou de 6,3% para 2,5%. O início de novas moradias alcançou o patamar de 1,001 milhão, quando o mercado previa 1,03 milhão. E as licenças para construir recuaram de 1,06 mil em abril para 991 mil em maio. A queda de 6,4% foi mais pesada do que a baixa de 0,9% prognosticada pelos economistas.

Tudo junto e misturado, não é o caso de algum falcão do Fomc levantar-se hoje na reunião e exigir a agilização do desmonte do afrouxamento quantitativo e a antecipação do momento (previsto para a metade do ano que vem) de elevação da taxa básica de juros. Não será por causa do CPI que o conjunto do Fomc vai desconsiderar a recomendação feita pelo FMI na segunda-feira de manutenção do juro zero por mais tempo do que até então se imaginava.

A propensão natural do mercado futuro de juros da BM&F de seguir fielmente as arrancadas do dólar foi amortecida pela Pesquisa Mensal de Serviços (PMS) do IBGE. A receita nominal do setor recuou de 6,86% em março para 6,28% em abril. Se a receita for deflacionada pelo componente de serviços do IPCA, o resultado é uma queda de 2,49% na comparação interanual, ampliando a baixa de 2,05% já constatada em março. No acumulado de 12 meses, o índice geral real passou de uma alta de 0,21% para uma queda de 0,25%.

“O fraco desempenho do setor de serviços acompanha o ritmo dos resultados decepcionantes de indústria e comércio no mesmo período”, diz o economista-chefe do Banco Fator, José Francisco de Lima Gonçalves.

A produção industrial recuou 0,3% em abril na comparação mensal e registrou queda de 5,8% quando comparada ao mesmo mês de 2013. As vendas no comércio indicaram queda de 0,4% no mês e alta de 6,7% no ano. “Estes dados, conjuntamente com os recentes índices de inflação divulgados, com destaque para a deflação no IGP-10, tornam claros os sinais de que a economia segue em ritmo lento. Há indícios, de uma significativa desaceleração do ritmo de crescimento da economia no segundo trimestre do ano”, diz Gonçalves. Mesmo assim, por causa do dólar, o contrato de DI futuro com liquidação em janeiro de 2017 conseguiu subir de 11,51% para 11,57%.

O mercado de juros deve concentrar atenções hoje na reunião que o governo manterá em Brasília com lideranças empresariais. Mais do que um mero mimo de caráter eleitoral, as medidas que o Ministério da Fazenda promete anunciar visam tirar o governo da atual sinuca de bico que junta dois problemas graves — inflação roçando o teto da meta de inflação e atividade econômica flertando com a recessão. Mais do que conquistar os votos dos empresários, o governo precisa quebrar a espiral do baixo-astral: a confiança não para de cair e, com ela, os investimentos. O índice de confiança da CNI recuou 0,5 ponto em junho, para 47,5 pontos. O tombo frente a junho de 2013 já está em 7,3 pontos. Foi a terceira vez que o indicador situou-se abaixo de 50 pontos.

O governo precisa reconquistar os empresários por duas razões: por causa da inflação, o Copom não pode reduzir os juros; e a antiga fonte de estimulação econômica (os gastos públicos e a redução do superávit primário) está esgotada. Em seus relatórios, os economistas de instituições já manifestam a sua certeza de que o governo, mesmo recorrendo a mágicas contábeis, não conseguirá cumprir a meta de 1,9% de superávit primário auto-imposta em fevereiro. Na ausência do consumo, só a volta dos investimentos poderá salvar o ano.

Aqui e ali, excelentes casas de análises já enxergam a possibilidade de o PIB não conseguir crescer este ano nem sequer 1%. As informações preliminares são de que a Fazenda deve anunciar hoje pacote que inclui a retomada do Reintegra (programa que autoriza a devolução de impostos a exportadores), a prorrogação do Programa de Sustentação do Investimento (PSI), providências regulatórias mais favoráveis ao setor privado e dilatação de prazos para o recolhimento de tributos. Isso tudo ajuda, mas o que os empresários mais querem é uma garantia firme de que não haverá ingerência governamental nos negócios privados.


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