Por bruno.dutra

O mercado financeiro começou a enxergar um enfraquecimento da inflação. Este primeiro sinal foi dado ontem pelo Focus, relatório semanal que compõe o conjunto de documentos oficiais destinados a legitimar o sistema de metas de inflação. As cinco instituições que mais acertam prognósticos de curto prazo para o IPCA revisaram para baixo suas projeções para o acumulado do ano. Ao invés dos 6,57% esperados na segunda semana de junho, agora apostam em 6,38%.

Trata-se de uma alteração significativa: por situar-se acima do teto da banda inflacionária, a estimativa anterior, se concretizada, iria submeter o BC a vários dissabores políticos e técnicos. O estouro do limite máximo implica o constrangimento do envio de uma carta formal ao ministro da Fazenda na qual o BC justifica o não cumprimento do seu mandato legal. Embora tal desconforto só ocorreria após decididas as eleições, em caso de fracasso da tentativa de um segundo mandato a Dilma Rousseff, o BC poderia ser retroativamente acusado de ser o responsável pelo insucesso. Com a mais recente projeção, a de 6,38%, nada disso acontece.

E o rebaixamento ocorre mesmo na presença da expectativa de que o Copom não irá subir mais a Selic em 2014. As Top 5 peritas em cravar as decisões do Comitê sustentam há cinco semanas a previsão de que a taxa ficará em 11% até o fim do ano. Cruzadas as projeções de IPCA e Selic, este grupo seleto de departamentos econômicos está dizendo duas coisas. A primeira é que a taxa de câmbio não será um fator de pressão inflacionária. A segunda é que será a atividade econômica em declínio quem fará o trabalho de derrubar a inflação. O Focus divulgado ontem reduziu mais um pouco a projeção de crescimento do PIB em 2014. Baixou de 1,24% para 1,16%. Estava em 1,63% há quatro semanas, e em 2,28% no primeiro boletim do ano.

Pela mediana, a amostra das Top 5 vê a taxa de câmbio em R$ 2,32 no fim de dezembro e, pela média, em 2,24%. A média pode estar mais próxima da realidade porque o BC vem estreitando a banda informal de flutuação do câmbio. Tal banda é mais do que informal: no BC, qualquer sugestão de que a autoridade persegue qualquer nível de taxa de câmbio é vista como ofensa pessoal grave. Os dirigentes não perdem oportunidade para reafirmar a pureza e as virtudes do câmbio flutuante. A atuação do BC se restringe a moderar excessos e a fornecer instrumentos de hedge em momentos em que a volatilidade distorce preços. Não é bem assim.

Na verdade, após a tentativa malograda empreendida em 2011 de desvalorizar o real para garantir competitividade à indústria e aos exportadores, o BC reintroduziu a partir de maio de 2013 os fundamentos clássicos da âncora cambial anti-inflacionária: derrubou todas as barreiras fiscais ao ingresso de capitais especulativos, puxou violentamente o juro básico para cima e definiu bandas de flutuação do dólar (variáveis conforme o grau de excitação dos mercados globais) para evitar que esses investimentos externos de portfólio f<CW10>ossem sabotados por um risco cambial excessivo.

O mercado ainda supõe que o BC trabalhe com um faixa de flutuação cambial larga, com o piso em R$ 2,20 e o teto em R$ 2,40. Na verdade, deixou patente no início do mês a indicação de que a banda é muito mais exígua. Nos primeiros dias de junho, o BC testou as aptidões do mercado de câmbio instilando a ideia de que estava propenso a não rolar metade do lote de US$ 10,06 bilhões em swaps cambiais que vencerá no dia 1°. E o dólar foi a R$ 2,2836 no dia 4.

Se o teto da banda fosse de R$ 2,30 ou de R$ 2,40, o BC manteria sua atitude de economizar na oferta desses contratos. Mas não. Tratou de insinuar uma nova conduta na rolagem, a de renovar quase todo o montante. Faltando cinco dias úteis para o fechamento do mês, as indicações do BC são de que pretende revalidar quase 92% do lote de US$ 10,06 bilhões, levando ao resgate não mais do que US$ 830 milhões. E o dólar baixou para a faixa de oscilação da banda estreita: R$ 2,20 no piso e R$ 2,25 no teto. Trata-se de fato da reedição da âncora cambial.

O baixo giro de negócios no mercado de câmbio — o volume nem chegou a US$ 620 milhões — magnificou ontem o viés internacional de queda do dólar. E a moeda acabou fechando com desvalorização de 0,61%, cotada a R$ 2,2178. A principal influência global veio de um dado inesperadamente positivo do setor industrial chinês. O índice PMI-Markit da indústria de transformação, ao subir de 49,4 em maio para 50,8 em junho, ante previsão de modesta elevação para 49,7, foi tão auspicioso que as instituições já descartam um crescimento da China abaixo de 7% este ano.

Foi um indício de que a economia já reage aos estímulos recentemente aplicados pelo governo. E como os dirigentes ainda sustentam a meta de expansão do PIB em 7,5%, novas medidas devem vir por aí. A influência do mercado de “treasuries” foi quase neutra. As taxas da T-Note de 10 anos permaneceram próximas do fechamento de 2,61% de sexta-feira apesar da divulgação de bons indicadores, sobretudo um referente ao mercado imobiliário. As vendas de moradias existentes cresceram 4,9% em junho, um avanço bem mais expressivo do que o 1,9% previsto pelos analistas.

Se o pregão de juros futuros da BM&F já dispunha antes de fatores contundentes — declínio do dólar, marasmo do mercado de juros longos americanos e queda da atividade econômica doméstica — nos quais nortear sua tendência de queda, a eles se juntou ontem a nova visão do Focus sobre o andamento da inflação. E uma nova rodada de baixa tornou-se inevitável na sessão mais curta e de menor liquidez de ontem. A taxa para a virada do ano recuou de 10,78% para 10,77%. E o contrato para janeiro de 2017 refluiu de 11,54% para 11,51%.


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