Por marta.valim

O mercado de juros ignorou ontem a alta do dólar e seguiu seus instintos naturais. Nenhum Banco Central subiria a taxa básica de juros em meio a indícios cada vez mais numerosos e inquietantes de declínio da atividade econômica. A valorização da moeda americana, se reiterada no tempo, e suas inevitáveis pressões inflacionárias, terão de ser combatidas de outras maneiras, como a intensificação das intervenções cambiais. Nada de juro alto. Divulgados ontem, os dados de maio do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) derrubaram os contratos de DI futuros negociados na BM&F. A taxa para janeiro de 2017 tombou de 11,51% para 11,45%. A criação líquida de novos postos de trabalho caiu 18% em relação ao mesmo mês do ano passado. Foi o pior maio desde 1992.

O Caged pegou o pregão futuro de juros já num movimento declinante. Antes dele, já estava puxando as taxas para baixo a suspeita de que a decisão tomada ontem pelo BC da Turquia pode ter alguma influência sobre o Copom. A autoridade turca reduziu a taxa básica de 9,5% para 8,75%, numa providência destinada a promover o crescimento econômico já que os analistas não estão otimistas quanto ao andamento da inflação. A decisão é claramente política: a eleição presidencial turca acontecerá em agosto e a inflação em 12 meses bate em 9,66%.

Alguém teria que estar voltando de Marte para supor que o Copom iria baixar a Selic em 3 de setembro, data da última reunião antes do pleito. Ao contrário do BC turco, o brasileiro respeita os ciclos econômicos longos. As decisões aqui não costumam oscilar ao sabor dos acontecimentos da hora. Mas o respeito ao ciclo longo significa pelo menos não fazer mais nenhum movimento de elevação da Selic até 2015 ficar um pouco mais claro.

A política monetária brasileira está numa fase de avaliação do que foi feito de abril de 2013, quando a taxa foi elevada de 7,25% para 7,50%, a abril de 2014, quando avançou de 10,75% para 11%. O período é de estabilização até que o Copom conclua ser necessário iniciar um novo ciclo, seja de alta ou de baixa. Não se espera que o Relatório Trimestral de Inflação (RTI), a ser divulgado amanhã, indique quando será iniciado esse ciclo e muito menos a sua direção. Pela boa razão de que o Copom não sabe. Não sabe se em 2015 será feito mesmo o tal do “ajuste” — sinônimo de reintrodução de uma política econômica mais conservadora e amigável ao mercado e aos meios empresariais — e qual a sua extensão e magnitude. Se Dilma Rousseff se reeleger, o slogan do segundo mandato poderá ser “não vai ter ajuste”. Ninguém sabe. Em época de campanha eleitoral, as declarações oficiais são tão sinceras quanto as do técnico da seleção brasileira.

Antes do Caged, o DI futuro já operava em baixa por causa do recuo dos juros longos americanos. O rendimento dos títulos de 10 anos cedeu de 2,63% para 2,58% apesar de ter sido divulgado ao menos um bom indicador sobre a economia americana. De acordo com o Conference Board, a confiança do consumidor americano subiu em junho para 85,2, acima das expectativas do mercado (83,5), ante 82,2 em maio. Mas o mercado de “treasuries” parece ter desistido de seu otimismo enquanto o Federal Reserve (Fed) mantiver a cautela pessimista. Até porque, quase simultaneamente ao índice do Conference Board, a regional de Richmond do Fed divulgava queda de 7 para 3 de sua sondagem industrial de junho, quando os especialistas apostavam numa estabilidade.

A nota mais destoante veio ainda do mercado imobiliário, cujos dados mostram uma tendência mista e inconclusiva. Enquanto as vendas de novas moradias cresceram 18,6% — um avanço bem mais expressivo do que a projeção de alta de 1,4% dos analistas —, o índice de preços residenciais da FHFA ficou estável em maio (o mercado esperava alta de 0,5%) e o índice S&P/Case-Shiller subiu 10,82% na comparação anual (prognósticos de 11,5%). A conclusão do mercado foi de que não será por causa dos indicadores divulgados ontem que o Fed se sentirá encorajado nem a apressar a retirada dos estímulos monetários, nem a precipitar um aperto monetário.

No mercado de câmbio doméstico, a moeda americana limitou-se a tentar acompanhar o leve viés externo de valorização. Fechou em alta de 0,40%, a R$ 2,2267. Quem não fez negócios na segunda-feira por causa do jogo do Brasil, fez ontem, e o giro de negócios saltou de pífios US$ 618 milhões para US$ 2,1 bilhões. Não há internamente razão e fôlego para avanços mais significativos. Em primeiro lugar porque o cerco do BC persistirá implacável. Em segundo porque os investidores globais parecem não compartilhar do cenário deletério traçado pelo mercado local. Os dados do setor externo publicados ontem pelo BC mostram que persiste elevada a confiança externa nos rumos do país. O IED (Investimentos Estrangeiros Diretos) de maio, de US$ 5,9 bilhões, superou as projeções de ingresso de US$ 5,2 bilhões dos analistas. A composição do IED não pode ser criticada, uma vez que apenas 23% do total provieram de empréstimos intercompanhia, uma melhora acentuada frente aos 32% de igual mês do ano passado.

Os investimentos em carteira foram de US$ 5,4 bilhões. As aplicações externas em ações saltaram de US$ 650 milhões para US$ 5,5 bilhões. Com esses ingressos, o déficit em conta corrente, de US$ 6,635 bilhões, pode ser financiado com sobra, tanto é que o balanço de pagamentos como um todo exibiu superávit de US$ 1,734 bilhão. Se o déficit corrente foi recorde negativo em maio, os investimentos estrangeiros marcaram recorde positivo para o mês. Além de que o rombo em transações correntes no acumulado de 12 meses se mantém constante na faixa de 3,6% do PIB há dez meses. Esses números afastam a necessidade de o balanço de pagamentos ter de ser financiado via ajuste da taxa de câmbio. Esta não precisa desvalorizar-se para equilibrar as contas externas.

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