Por bruno.dutra

 moeda fechou cotada a R$ 2,2060, em baixa de 0,93%. Os juros caíram menos do que seria recomendável no mercado futuro da BM&F. Afora a retirada das influências cambiais altistas sobre a inflação e o pesado tombo dos juros longos americanos, a divulgação de mais uma rodada (confiança em queda da indústria e crédito morno) de medidores alarmantes da anorexia econômica brasileira deveria ter precipitado declínio mais acentuado dos DIs futuros. O que segura as taxas é o fator eleitoral: a expectativa de vitória do candidato Aécio Neves e a nomeação de um ministro da Fazenda linha-dura, que imponha doses adicionais de aperto monetário. A taxa para janeiro de 2017 cedeu apenas de 11,45% para 11,40%.

De nada adiantou o Federal Reserve (Fed) ter sinalizado em sua reunião de política monetária da semana passada a disposição de retardar o início do descongelamento da taxa básica americana. De lá para cá, as taxas dos títulos do Tesouro de 10 anos não conseguem se manter acima de 2,60%. Ontem, a T-Note de 10 anos caiu de 2,58% para 2,55%. Junte-se a isso o afrouxamento monetário europeu e a recuperação da economia chinesa e está consolidado um quadro favorável à continuidade das aplicações financeiras em países emergentes. As próprias forças naturais do mercado afastam a possibilidade de haver uma corrida especulativa contra o real ou um remanejo global de portfólios capaz de sobredesvalorizar o real.

Mesmo assim, o BC não quis saber de brincadeiras. O mercado de câmbio tinha esperança de que a autoridade fosse suavizar um pouco as condições do seu programa em sua terceira etapa, a que se inicia na próxima terça-feira. Contavam com alguma diminuição na oferta diária de swaps cambiais e a fixação de um prazo de vigência que fosse somente até as eleições. Nada disso: o BC não mexeu em nada em relação ao segundo estágio, o que começou em dezembro e termina na segunda-feira. Ou seja, a oferta “mínima” (se for preciso e o mercado quiser, ele venderá mais) foi preservada em US$ 200 milhões de swaps por dia útil. E o prazo vai até 31 de dezembro.

A obstinação do BC em não permitir que o dólar vá além de R$ 2,30 (e tem gente muito boa no mercado acreditando que não deixará nem que exceda os R$ 2,25) pode ser medida pelo volume de dinheiro envolvido na questão. As contas são simples:

1) De hoje até o fim do ano serão 134 dias úteis, e US$ 200 milhões por dia fornecem um total de US$ 26,8 bilhões em swaps novos;

2) Como o estoque de hoje desses contratos alcança US$ 89,7 bilhões, se o BC rolar tudo o que irá vencer de agosto até dezembro (total de US$ 44,88 bilhões), fechará o ano com uma exposição em swaps de US$ 116,5 bilhões. Essa é a demanda potencial por dólar hoje presente na economia, o valor que teria de ser sacado das reservas internacionais se investidores e empresas não quisessem mais títulos indexados ao dólar, mas o dólar em si.

Fica claro que, mantida a oferta primária de swaps novos, a política de administração da taxa de câmbio será exercida pela regulagem fina da oferta de papéis destinados a substituir os que forem vencendo. E, para a rolagem, não há regras fixas. O BC pode agir a seu bel-prazer: tanto renovar tudo o que for vencendo, em leilões diários homeopáticos ou em poucos megaleilões, ou revalidar muito pouco. Pode iniciar um mês com determinada estratégia e, se as condições mudarem, alterá-la sem aviso prévio.

E há muito espaço para o BC exercitar seu livre-arbítrio cambial, pois os volumes mensais de vencimento de swaps são muito expressivos: US$ 9,46 bilhões no dia 1° de agosto; US$ 10,07 bilhões em 1° de setembro; US$ 6,68 bilhões em 1° de outubro; US$ 8,84 bilhões em 3 de novembro; e US$ 9,83 bilhões em 1° de dezembro. Ou seja, o dólar vai comer na mão do BC se tudo permanecer calmo lá fora (ou seja, lá nos EUA). Mas se a treasury de 10 anos, por alguma razão, disparar para a faixa de 3,5% não vai adiantar fazer nada. Será melhor deixar que o dólar encontre seu preço (entre R$ 3,00 e R$ 4,00) do que gastar a totalidade dos US$ 379,54 bilhões depositados nas reservas.

Mas quase nada indica no momento uma recuperação estupenda da economia americana capaz de acelerar os planos monetários ultracomedidos do Fed. Os dados divulgados ontem sobre a terceira estimativa do PIB dos EUA no primeiro trimestre foram um golpe na auto-estima dos analistas americanos. Depois que a segunda prévia apontou retração de 1%, eles vinham semana após semana revisando para pior os seus prognósticos. A mais recente revisão, concluída na terça-feira, indicava uma taxa negativa de 2%. Nova decepção: o dado oficial foi uma contração de 2,9%.

Os analistas coçaram a cabeça e se lembraram do primeiro semestre de 2009, quando a economia tombou 5,9%. O culpado agora é o inverno e não o subprime. O frio congelante derreteu a maior economia do mundo nos três primeiros meses do ano. Mas será que é só o frio mesmo? “Apesar da ressalva quanto às condições climáticas adversas no início do ano, o resultado permanece surpreendendo negativamente”, diz o economista-chefe do Banco Fator, José Francisco de Lima Gonçalves.

Está tudo ruim no PIB americano. Os piores itens são os de investimentos e exportações. O que vinha impedindo uma queda maior, o consumo das famílias, perdeu força. Sem consumo e sem investimento (que aumenta a demanda) não há inflação a ser combatida pela política monetária. O núcleo do PCE (índice dos gastos de consumo dos americanos, o principal termômetro inflacionário do Fed) caiu em termos anuais de 1,3% no quatro trimestre de 2013 para 1,2% no primeiro deste ano.

Mas os analistas argumentam que os dados de ontem se referem a um período já imerso no passado estatístico, pois no presente a economia está bem mais robusta. Ironicamente, o mesmo departamento do governo americano que divulgou o PIB, o do Comércio, revelou ontem mesmo que no mês passado as encomendas de bens duráveis caíram 1%, quando os especialistas esperavam estabilidade sobre abril.

Você pode gostar