Confiança cai e arrasta juro

Nos quatro cantos do mundo, ontem foi o dia do PMI, índice de atividade industrial que serve de termômetro do grau de aquecimento da economia global

Por O Dia

Cada um produziu um impacto diferente sobre os mercados financeiros. Enquanto o PMI chinês, levemente acima do previsto, fortaleceu as moedas dos países emergentes diante do dólar, o PMI brasileiro fez os juros caírem no mercado futuro da BM&F. O dado referente aos EUA, embora tenha provocado alta das “treasuries” longas, serviu apenas para atenuar a apreciação do real e suavizar a queda dos DIs.

O dólar fechou em queda de 0,23%, cotado a R$ 2,2050, com os operadores ansiosos por conhecer os primeiros sinais do Banco Central sobre as suas intenções de rolagem dos swaps cambiais que vencerão no começo de agosto. O juro futuro com liquidação em janeiro de 2017 recuou <de 11,56% para 11,43%.

O PMI industrial do Brasil, calculado pelo HSBC, ao recuar de 48,8 pontos em maio para 48,7 em junho, menor patamar desde julho de 2013, incorporou-se à vasta coleção de indicadores alertando para a debilidade atual da economia. Ontem, após divulgar na sexta-feira e na segunda queda nos níveis de confiança da indústria e do comércio, a FGV divulgou sua pesquisa relativa ao setor de serviços. E ela apontou novo retrocesso. A baixa de junho, de 0,7%, foi a quarta retração em sequência.

Principal motor da inflação, os serviços já haviam caído 3,1% em abril e 5,7% em maio. O recuo menos expressivo de 0,7% até sugere uma certa acomodação resultante do declínio da inflação corrente. “Esse resultado soma-se às demais pesquisas de confiança divulgadas recentemente, apontando que a atividade doméstica mostrou importante moderação disseminada entre os diversos segmentos da economia no segundo trimestre”, diz o Departamento de Economia do Bradesco em relatório.

Apesar de os índices de atividade recuarem num efeito-dominó e da persistência de um viés de baixa dos contratos futuros de juros, a estrutura a termo das taxas de juros ainda resiste em colocar nos preços a expectativa de que o Copom pode ser forçado a iniciar em 2015 um ciclo de baixa da Selic. A curva futura já desistiu de precificar o retorno do ciclo de aperto monetário recém-encerrado, em divergência com os economistas que alimentam de projeções o boletim Focus do BC. Para estes, a taxa básica irá avançar no ano que vem dos atuais 11% para 12%.

No DI futuro, ao contrário, os investidores relutam a assumir a ponta pós-fixada. Se recusam a ficar “comprados” em taxa porque, enquanto a confiança de empresas e consumidores não for retomada, a tendência mais provável ainda é de corte do juro no começo de 2015. Talvez até antes, se o BC tiver convicção de que o IPCA acumulado em 2014 não irá estourar o limite máximo de 6,5% da banda inflacionária.

Em face dessas incertezas, e como os DIs já caíram muito desde o início de junho, os recuos de ontem foram modestos. O contrato para a virada do ano cedeu de 10,79% para 10,77%, enquanto que a operação que reflete a política monetária que será praticada no ano que vem, com vencimento em janeiro de 2016, fechou a 11,11%, de 11,17% na véspera. Não mais ecoa na BM&F o déficit fiscal de maio e a confirmação da expectativa de que dificilmente o governo conseguirá entregar este ano um superávit primário equivalente a 1,9% do PIB, conforme se propôs em fevereiro.

Por isso, foi recebida com frieza a decisão da Fazenda de manter até o fim do ano as alíquotas reduzidas de IPI incidente sobre automóveis e móveis. A medida, já esperada, se significa uma desoneração tributária danosa aos cofres públicos, pelo menos atua para evitar queda maior da arrecadação que adviria se as alíquotas originais fossem restabelecidas.

O mercado de câmbio ficou ontem sob fogo cruzado, recebendo influências contraditórias. Prevaleceu para determinar a queda do dólar a interpretação de que a China já deixou o pior para trás. Todos os sinais são de que as medidas de alargamento da liquidez deverão mesmo permitir a obtenção de um crescimento econômico este ano bem próximo da meta oficial de 7,5%. O PMI medido pelo Escritório Nacional de Estatísticas (NBS), subiu de 50,8 pontos em maio para 51 em junho.

O resultado não foi sombreado pelo outro PMI industrial, calculado pelo HSBC, que, embora tenha aumentado de 49,4 para 50,7 pontos, ficou ligeiramente aquém dos 50,8 esperados. Contribuiu para a desvalorização do dólar a percepção de que o Banco Central Europeu (BCE) terá de persistir em sua ofensiva em favor das facilidades de crédito porque o PMI da zona do Euro recuou de 52,2 pontos em maio para 51,8 no mês passado.

Sem o dado chinês, o dólar até poderia ter-se valorizado ontem porque o PMI americano subiu de 56,4 em maio para 57,3 em junho, o nível mais proeminente desde maio de 2010, desencadeando uma boa elevação dos juros longos dos EUA. O rendimento das T-Notes de 10 anos avançou de 2,54% para 2,57%. Só não voltou à faixa de 2,60% por causa de um dado ruim do setor imobiliário. Os gastos com construção subiram apenas 0,1% em maio, bem aquém do 0,5% previsto pelos analistas.

O câmbio continua operando como se nada de grave estivesse acontecendo com a Argentina. As negociações para evitar um default persistem. Os efeitos da crise sobre países assemelhados são inexistentes. “Não se pode comparar a situação atual de endividamento externo dos emergentes com a situação em períodos como os anos 1980 e 1990. O efeito recente da incerteza causada pela crise afetou muito pouco o risco- Brasil, com efeito limitado sobre o câmbio”, diz o economista-chefe do Banco Fator, José Francisco de Lima Gonçalves.

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