Juro faz o caminho de volta

A três meses das eleições, o governo não se mostra disposto nem a baixar novas medidas destinadas a estimular a atividade econômica nem indica as mudanças que poderão ser feitas em 2015

Por O Dia

As apostas são de que pacotes de incentivo à demanda não surtiriam impactos notáveis sobre o mercado de trabalho a ponto de reavivar a fé do eleitor no jeito de governar do PT. Como se trata de um prazo muito curto, o mesmo raciocínio se aplica a uma alteração de política monetária.  O início, já no começo de setembro, de um ciclo de queda da taxa Selic teria pouco resultado efetivo sobre a atividade presente, que ainda não recebeu todo o peso da carga do ciclo de alta de 3,75 pontos encerrado em abril. O inverso é temido: a possibilidade de um corte do juro básico injetar oxigênio puro numa chama inflacionária hoje bruxuleante.

Depois da pesada queda radical sofrida pelos juros futuros na quinta-feira, sob efeito da suposição de que o Copom tinha sinalizado na véspera a intenção de reduzir em breve a Selic, as taxas gradualmente estão tentando fazer, com alguma hesitação, o caminho de volta. Depois de ter mergulhado de 10,77% para 10,71%, o contrato para a virada do ano avançou a 10,73% na sexta-feira e para 10,74% ontem. A taxa para janeiro de 2016 desceu de 11,05% para 10,95% e, em seguida, para 10,94%, e ontem, na máxima do dia, bateu em 11%, mas arrependeu-se para fechar nos mesmos 10,94%. Sob influência do desabamento dos juros americanos longos, o DI para janeiro de 2017 não se recupera: fechou ontem a 11,13%, ante 11,20% na sexta, 11,29% na quinta e 11,36% na quarta-feira, dia do Copom.

A ordem do Planalto ao Banco Central parece ser de continuar dando prioridade à inflação, deixando num segundo plano a atividade anoréxica. Um surto inflacionário às bordas da eleição, percebido instantaneamente por todos, seria mais perigoso às pretensões de Dilma Rousseff do que o prolongamento por mais um tempo da estagnação econômica. Embora o mercado de trabalho tenha já perdido o dinamismo de outrora, um quadro ainda perto do pleno emprego dissuade empresas a promover demissões em massa, sob pena de não conseguir recontratar em caso de uma reviravolta no ano que vem.

O curto-prazismo domina a economia. Nada muda até 26 de outubro. A estratégia da campanha oficial parece ser a de reconquistar os votos perdidos por meio da propaganda no rádio e na televisão, no ar em 19 de agosto, sem mexer na economia. Isso fica para depois. Se Dilma for reeleita, a política econômica começa a mudar, e já a partir da indicação dos novos chefes da Fazenda e do BC. Se Aécio Neves ganhar, um gabinete de transição será montado. E as alterações tucanas já começarão a ganhar forma.

Tecnicamente, o Copom já deveria ter baixado a taxa de juros na sua reunião da semana passada. A inflação mensal está sedada. Para o IPCA-15 de julho, que será divulgado hoje pelo IBGE, os economistas preveem uma alta próxima de 0,25%, numa forte desaceleração frente ao 0,47% de junho. Para o índice fechado do mês, o boletim Focus editado ontem reduziu a projeção de 0,24% para 0,22%. Para agosto estima avanço de 0,28%. As cem instituições que participam da pesquisa do BC não apostam em pressões inflacionárias vindas nem do câmbio, nem dos preços administrados.

A pesquisa de ontem baixou de R$ 2,39 para R$ 2,35 a taxa de câmbio prevista para o encerramento do ano. E a alta prognosticada para os preços administrados permaneceu nos mesmos 5% da semana anterior. O Copom já se deu conta de que este período de três meses até as eleições – um vácuo temporal em que os objetos se locomoverão por inércia — não é indicado a decisões técnicas. Só as políticas interessadas. E o risco inflacionário é hoje eleitoralmente mais perigoso do que as sequelas nas urnas da atrofia produtiva.

Colocando a questão na terminologia numérica do Focus: o governo pode comemorar o declínio projetado para o IPCA de 2014 — de 6,48% para 6,44% — ao invés de lamentar ou temer a redução da expectativa de crescimento do PIB, de 1,05% para 0,97%. A percepção de que a Selic permanecerá até o veredicto das urnas no atual patamar de 11% por força dos imperativos da disputa eleitoral tira força dos indicadores de atividade econômica que irão sair esta semana como condicionantes da política monetária.

A FGV torna públicas suas sondagens de julho relativas à indústria, amanhã, e ao consumidor, na sexta-feira. Também amanhã, a CNI publica sua pesquisa sobre a indústria da construção em junho. A ata do Copom realizado na semana passada e que será posta no site do BC na quinta-feira será lida desta perspectiva de escassa influência da atividade sobre as decisões monetárias.

Após o frenético sobe-e-desce da semana passada, o mercado de câmbio teve uma abertura de semana mais calma. O dólar restringiu-se a sancionar a tendência externa de queda. A moeda fechou cotada a R$ 2,2239, em desvalorização de 0,20%. O câmbio já precificou a realização de um segundo turno das eleições em pé de igualdade entre Dilma e Aécio. Só voltará a cair com mais ênfase se as próximas pesquisas apontarem a supremacia do candidato tucano no dia 26 de outubro. Externamente, a influência da tensão geopolítica é ambígua.

Embora o recuo dos juros dos títulos de 10 anos do Tesouro americano — de 2,48% para 2,47%, tendo chegado a 2,45% na mínima do dia — ainda espelhe aumento de demanda decorrente de aversão a risco, o investidor dedicado a emergentes antes alocado na Rússia, viciado em rentabilidade alta, ainda prefere reposicionar-se em ativos brasileiros do que aceitar as taxas acanhadas das “treasuries”.

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