Por bruno.dutra
Publicado 22/07/2014 22:31

No caso americano, o Federal Reserve (Fed) pode retardar seu plano de elevação da taxa básica. No caso brasileiro, o Banco Central até poderia desencadear um ciclo primário de baixa. Mas não deve fazer isso por causa do constrangimento eleitoral. O BC encontrou um juro real, perto de 4,5%, que parece adequado à uma travessia tranquila até 2015. E não deve mexer em time que está ganhando, apesar de a vitória impor sensíveis baixas à atividade econômica.

Tanto nos EUA quanto no Brasil, foram divulgados os principais índices de inflação. O núcleo do CPI (índice de preços ao consumidor americano) subiu 0,1% em junho, metade do previsto pelo consenso dos analistas. Em termos anuais, o avanço foi de 1,9%, também aquém das expectativas. A inflação no varejo está sossegada como está a registrada no atacado. Na semana passada, o núcleo do PPI (índice de preços ao produtor) acusou alta de 0,2%. Como primeira reação ao CPI, o rendimento dos títulos de 10 anos do Tesouro dos EUA chegou a cair dos já muito baixos 2,47% para 2,46%.

Os juros se recuperaram em seguida com o surgimento de três indicadores positivos, avançando a 2,48%. O índice de preços residenciais da FHFA subiu 0,4% em junho, ante prognóstico do mercado de alta de 0,2%. As vendas de moradias existentes cresceram 2,6%, igualmente superando as projeções, de avanço de 1,9%. E, por fim, a sondagem do setor manufatureiro feita pelo Fed de Richmond evoluiu de 3 para 7 em julho, quando se esperava avanço para 5. Ou seja, os EUA se recuperam sem gerar inflação, o melhor dos mundos para o Fed.

Para o BC brasileiro, o pior dos mundos. A inflação derrubada reflete uma economia que respira por aparelhos. O IPCA-15 de julho subiu apenas 0,17%, surpreendendo o mercado. Há três semanas as instituições vinham revisando para baixo suas estimativas para o índice preliminar do IPCA. Mas o último consenso, de 0,21%, não foi suficiente para dar conta da realidade dos preços. Os fanáticos defensores do juro alto se preparavam para manifestar toda a sua contrariedade com o fato de o Copom ter parado de subir a Selic em maio, utilizando o argumento de que, no acumulado de 12 meses, a inflação tinha ostensivamente furado o teto da banda inflacionária, mas foram forçados a arquivar seus relatórios. Afinal, o IPCA acumulou apenas 6,51% em 12 meses. Pelo arredondamento, ficou no teto da banda.

Por todos os ângulos, o IPCA-15 exibiu a atual tranquilidade inflacionária. Desacelerou em relação ao 0,47% do IPCA-15 de junho, os preços livres recuaram de 0,52% para 0,21%, os preços de serviços cederam de 0,97% para 0,52%, os administrados caíram de 0,32% para 0,05% e o índice de difusão baixou de 66,6% para 61,9%.

Diante da fraqueza das “treasuries”, da sedação inflacionária doméstica, da menor tensão geopolítica na Ucrânia e da nova desvalorização do dólar, o pregão de juros futuros da BM&F não esperou a ata do Copom que será divulgada amanhã para derrubar os contratos e reduzir a inclinação positiva da curva a termo dos juros. A baixa foi generalizada, mas os contratos longos cederam com mais desenvoltura que os mais curtos. A taxa para a virada do ano recuou de 10,74% para 10,72%. O contrato com vencimento em janeiro de 2016 baixou de 10,94% para 10,90%. E a taxa para janeiro de 2017 fechou em 11,05%, de 11,13% no encerramento anterior.

No mercado de câmbio, o dólar não conseguiu operar em nenhum momento do dia com preço superior aos R$ 2,2239 da véspera. Oscilou entre a máxima de R$ 2,2235 (queda de 0,02%) e mínima de R$ 2,2080 (-0,71%). Fechou cotado a R$ 2,2118, em desvalorização de 0,54%. A queda, a terceira consecutiva, não pode ser atribuída a armações feitas por “vendidos” nos pregões de derivativos cambiais da BM&F.

O principal grupo de investidores posicionados na venda tanto de cupom cambial quanto de dólar futuro, formado pelos bancos nacionais, com um total de US$ 15,71 bilhões, estaria agindo contra o próprio patrimônio se forçasse uma baixa do dólar. Isso porque eles são os maiores detentores de swaps cambiais, cujo estoque passa hoje de US$ 91 bilhões. Se o dólar cai, eles ganham no mercado futuro da BM&F, mas perdem com os swaps. Se atuassem para desvalorizar a moeda, aumentariam os lucros sobre uma posição de US$ 15,71 bilhões, mas elevariam as perdas sobre US$ 91 bilhões.

O segundo grupo de “vendidos”, os fundos de investimentos nacionais, detentores de US$ 14,39 bilhões, operam apenas em sintonia com a tendência primária. Visam proteger suas carteiras cambiais e rentabilizá-las por meio da arbitragem de juros com o exterior. Os “comprados” são os investidores externos, com posições de US$ 27 bilhões. Como não se registra no momento nenhuma corrida especulativa contra o real, sua atuação se restringe à engenharia financeira destinada a auferir uma determinada rentabilidade, das maiores do mundo. Também não há perdas no caso deles.

O viés primário de declínio do dólar vem quase todo de fora. A componente interna é ainda residual: a possibilidade de o candidato Aécio Neves levar a eleição. No cenário externo, apenas a turbulência geopolítica poderia intranquilizar os investidores. Do campo econômico, os sinais enviados pelas duas maiores economias do planeta são de aumento da disposição em se correr riscos em ativos emergentes.

Na China, multiplicam-se os indícios de retomada da economia. Estão programados para esta semana nada menos do que onze IPOs na bolsa, numa clara indicação de que está dando certo o plano do governo de reaquecer o mercado de ações. E o Banco do Povo (o BC de lá) anunciou a concessão de um empréstimo de 1 trilhão de yuans ao China Development Bank (o BNDES deles) para o financiamento da habitação popular.

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