Ata inequívoca ajusta juro

Copom do Banco Central já informou ontem a decisão que irá tomar no dia 3 de setembro, data da sua próxima reunião formal

Por O Dia

Não só a Selic será mantida em 11% como vai retirar a expressão “neste momento” do seu comunicado, por ser responsável pelo entendimento do mercado de que preparava um corte. Nem se tivesse se esforçado mais, teria sido tão explícito sobre o passo monetário vindouro. Em bom “coponês”, disse antecipar “cenário que contempla inflação resistente nos próximos trimestres, mas, que, mantidas as condições monetárias – isto é, levando em conta estratégia que não contempla redução do instrumento de política monetária — tende a entrar em trajetória de convergência para a meta nos trimestres finais do horizonte de projeção”.

O tal do “instrumento” de tortura da atividade é a Selic. E os tais “trimestres finais” sinalizam estabilidade da taxa até o fim de 2015. Ao pé da letra, como o “horizonte da política monetária” é de 18 meses, os “trimestres finais” são os do ano que vem. O binóculo monetário do BC deve ser de boa marca. É claro que esse é o cenário de hoje, ou seja, “neste momento”, ou “neste contexto”, a nova expressão introduzida pela ata de ontem. Se houver uma tragédia para um lado ou para o outro, o Copom vai ter de sair da rede e agir. O “contexto” de sua inação é o seguinte: não precisa mais subir a Selic para debelar a resistência inflacionária que antecipa para os próximos trimestres. A taxa de 11%, cujo impacto ainda não se fez sentir integralmente sobre a atividade, dará conta.

A resistência vem dos preços administrados, da taxa de câmbio e dos salários. Exercendo seu mandato único — de trazer a inflação para o centro de 4,5% da meta de inflação – o Copom analisa a anorexia econômica não como um mal a ser combatido, mas como um evento que o ajuda a cumprir sua função exclusiva de guardião da moeda. Quando ele constata a desaceleração da economia, os rumos desinflacionários do hiato do produto e a moderação do crédito é para louvá-los como importantes coadjuvantes na consecução da meta monetária. Insensibilidade? Nenhuma. Pelo contrário, a ata transuda sensibilidade política. A prioridade palaciana absoluta é a sedação da inflação nesses três meses de selvagem embate eleitoral. A recessão já presente nos modelos econométricos das instituições ainda não ganhou as ruas.

Apesar da greve de funcionários em unidades regionais, a pesquisa de emprego divulgada ontem pelo IBGE mostrou que o mercado de trabalho persiste “apertado”, como gostam de dizer os economistas. Se Dilma Rousseff não conseguir se reeleger não será por culpa dele, nem da inflação. Se o país não vive mais o apagão de mão de obra de tempos passados, não falta emprego. A tendência de elevação da taxa de desemprego é suave. O Departamento de Economia do Bradesco estima uma taxa média de desemprego este ano de 5,2%, devendo avançar a 5,7% no ano que vem. Este é o duplo objetivo político perseguido: emprego garantido e poder de compra dos salários preservado.

Nem o mais “vendido em taxa” dos tesoureiros poderia dar uma interpretação diferente ao parágrafo 31 da ata, aquele que fala da manutenção do “instrumento de política monetária”. E os juros subiram em bloco no mercado futuro da BM&F, retornando aos patamares vigentes antes da reunião do Copom do dia 16, cuja ata foi divulgada ontem, quando prevalecia a orientação anterior do último Relatório Trimestral de Inflação (RTI) de que as “condições da política monetária” seriam mantidas. Para que não houvesse dúvida, a ata explicou o que são essas “condições”, colocando um didático “isto é”. A taxa para virada do ano subiu ontem de 10,74% para 10,78%. O contrato para janeiro de 2016 foi ajustado de 10,95% para 11,09%. E o vencimento marcado para janeiro de 2017 fechou a 11,29%, de 11,14% na véspera.

As taxas curtas, até janeiro de 2016, dentro portanto do horizonte de 18 meses da política monetária, subiram por causa da ata. Os contratos de mais longo prazo – que deveriam cair se o mercado acreditasse que a inflação de fato estará nos 4,5% neste prazo — avançaram em reflexo condicionado à alta dos juros dos títulos de 10 anos do Tesouro americano. Os rendimentos das T-Note de 10 anos subiram de 2,47% para 2,50%. Foi uma reação a um conjunto de indicadores mistos sobre o grau de recuperação da economia dos EUA. Entre dados bons e outros algo decepcionantes, o mercado optou por ver o copo meio cheio.

Pelo lado positivo: a sondagem de atividade manufatureira do Fed de Kansas City indicou alta de 6 em junho para 9 em julho, melhor do que a expectativa de estabilidade dos analistas; os novos pedidos de seguro-desemprego caíram de 303 mil para 284 mil, na mão oposta da alta para 307 mil prevista pelos economistas. Pelo lado negativo: as vendas de unidades habitacionais novas caíram 8,1% em junho, um tombo bem mais acentuado que o 5,8% esperado pelas instituições; a preliminar do PMI (índice de gerentes de compras) da Markit recuou de 57,3 em junho para 56,3 pontos em julho quando se prognosticava um avanço para 57,5.

Como resultado do otimismo do mercado de “treasuries”, o dólar subiu no mundo inteiro. Contra o real, a alta foi menos proeminente. A moeda fechou cotada a R$ 2,2213, com valorização de 0,04%. Não subiu tudo o que poderia por causa da ata. Se o BC confia na vitória da Selic de 11% contra a inflação pertinaz e se vai preservar a taxa enquanto o IPCA estiver se vergando, sinaliza a ampliação do juro real. Mais: como o BC denuncia a presença de um ectoplasma que ninguém vê — a volatilidade cambial — a sua firme política de administração da taxa de câmbio por meio de swaps cambiais prosseguirá. Conclusão: os investidores estrangeiros ganham dos dois lados. O convite para que continuem auferindo o maior juro real do mundo sem ameaça de repentina desvalorização cambial foi renovado.

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