Por bruno.dutra

Conseguiram levar a moeda até R$ 2,2965, mas como o BC não apareceu a cotação foi caindo até fechar em baixa de 0,40%, a R$ 2,2736. O declínio aconteceu apesar de estar em curso no mercado global um deslocamento de recursos para ativos seguros, tanto que o ouro subiu 1,8% em Nova York e a taxa do título de 10 anos do Tesouro americano recuou de 2,49% para 2,47%. A principal razão do desconforto externo são os sinais de que a Rússia, depois de retaliar países que lhe impuseram sanções econômicas, se prepara para invadir a Ucrânia. Mas o câmbio doméstico, com um giro de negócios de US$ 1,2 bilhão, não teve fôlego especulativo para peitar o BC. O BC manteve sua rotina de intervenções como se não fosse com ele.

O pregão de juros futuros da BM&F também se mostra eletrizado. O pior dos mundos para ele é a expectativa de estabilidade da Selic em 11% durante todo o “horizonte da política monetária”, 18 longos meses, conforme indicaram tanto o último Relatório Trimestral de Inflação (RTI) quanto a ata do Copom de julho. Para que haja jogo, é preciso que as taxas estejam ou caindo muito e subindo exageradamente. O “neste momento” da nota pós-Copom do dia 16 foi utilizado como pretexto para a derrubada dos DIs. A fala do presidente do BC, Alexandre Tombini, aos senadores desencadeou ofensiva oposta. Esta, desfechada durante toda a terça-feira, atingiu seu clímax na manhã de ontem e depois murchou.

A taxa do contrato com liquidação em janeiro de 2016 partiu de 11,54% no encerramento de terça, bateu em 11,61% ontem mas fechou a 11,42%. Os deslocamentos do contrato para janeiro de 2017 foram mais loucos ainda. Atingiu de manhã 11,96%, vindo de 11,86%, e desabou depois para 11,71%. São espasmos paroxísticos perigosos, pois o custo primário do dinheiro é calculado a partir da curva de juros desenhada pelos DIs futuros. A empresa que tem o azar de pegar um crédito no pico da alta não tem como se arrepender depois. A mensagem do BC é bem clara: não fará nada no momento, mas acompanha vigilantemente as cenas doméstica e externa e agirá se for preciso. O resto é especulação.

A discussão entre os analistas e tesoureiros sobre a possibilidade de o BC utilizar num futuro não muito distante a política monetária como fator de atração de capitais externos especulativos, com vistas a segurar o dólar e rechaçar pressões inflacionárias, não faz muito sentido à luz dos dados divulgados ontem pela autoridade sobre o comportamento da balança cambial de janeiro até 1° de agosto. Nesse período do ano passado, desestimulados por uma Selic que começou 2013 em 7,25% e terminou julho em 8,5%, os estrangeiros não se animavam muito a aplicar aqui, tanto que a conta financeira amargou um déficit de US$ 8,157 bilhões, completamente neutralizado pelo saldo positivo de US$ 16,977 bilhões registrado pela conta comercial.

Agora em 2014, nesse mesmo período, já obtendo uma remuneração entre os 10,5% do início do ano e os atuais 11%, o fluxo externo financeiro ainda foi negativo, de US$ 1,943 bilhão. De novo, foi o superávit comercial quem livrou a balança do fiasco, ao acumular saldo de US$ 4,361 bilhões.

Ou seja, o mega-arrocho monetário de 3,75 pontos sofrido pela Selic foi suficiente apenas para atenuar o rombo financeiro, não para revertê-lo em superávit. O raciocínio é de que teria sido bem pior — ou seja, o dólar teria subido muito mais — se o BC não tivesse carregado na mão. Pode ser. Mas o fato é que a clássica âncora cambial anti-inflação, de tanto ser utilizada e abusada pelos sucessivos governos do Plano Real até 2011, parece já não surtir os mesmos efeitos positivos. A ala fundamentalista atribui o desgaste do instrumento à deterioração das grandes contas nacionais.

O capital de fora, mesmo o mais especulativo, olha cismado para a política fiscal expansionista, as promessas nunca cumpridas de superávit primário, para o déficit em transações correntes (estabilizado em nível elevado, de 3,6% do PIB, há quase um ano), para as intervenções regulatórias microeconômicas e para a crescente falta de confiança de empresários e consumidores. Sozinha, a Selic já não basta. Ou os problemas internos seriam relevados se o juro real transitasse da atual faixa entre 4% e 5% para outra mais acima, entre 7% e 8%?

Oficialmente, o BC jamais admite que está elevando o juro básico para seduzir capitais de fora capazes de sedar o dólar e a inflação. A Selic sobe apenas para atacar a inflação e evitar que uma sobredesvalorização do real se dissemine pela economia. São os tais efeitos secundários da volatilidade cambial. O discurso pode até colar. Mas, se o dólar dispara, as expectativas de IPCA do mercado se deterioram, os juros futuros sobem e aumentam as pressões sobre o Copom para que golpeie a Selic para impedir que as projeções se transformem em aumentos reais de preços.

Ou seja, a taxa subiu não para atrair dólares, mas para suavizar as consequências da depreciação cambial, mas se conseguir convencer os hedge funds globais a voltarem, ninguém irá reclamar. Na verdade, tudo pode não passar de um joguinho de ganha-ganha: o estrangeiro realiza os lucros do passado, sai do país, provocando a alta do dólar, combatida depois por meio da ampliação da rentabilidade, e ele retorna para reiniciar a ciranda, já recebendo um patamar mais alto de juro.

Os dados sobre a balança cambial provocam estranheza também por um outro ângulo, o da sua influência sobre a cotação à vista do dólar. Julho foi um mês de déficit pesado no fluxo. Encerrou com uma falta de US$ 1,791 bilhão, no entanto ao longo de quase todo o mês, com exceção da última semana, o dólar permaneceu anestesiado na casa de R$ 2,22. Na semana passada, o preço acordou do coma, testando rapidamente os R$ 2,27, embora a balança tenha exibido forte fluxo positivo de US$ 2,951 bilhões.

O mercado de câmbio parece reagir muito mais à constante oscilação do grau de apetite global por ativos de risco — e do possível impacto dessa volatilidade sobre os preços futuros — do que propriamente ao que está acontecendo no presente, ou seja, na efetiva entrada e saída de capitais. A oferta e a demanda do dia têm escasso efeito sobre os preços.

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