Por douglas.nunes

O mercado operou ontem de baixo astral, ainda sob efeito da ressaca monumental produzida na véspera pelas pesquisas do Ibope e do Datafolha. Do dia 25, quando as sondagens começaram a sinalizar um atropelo irresistível da candidatura economicamente conservadora de Marina Silva, capaz até de conduzi-la à presidência da República sem a necessidade de um segundo turno, até o início da tarde de quarta-feira, a farra foi total: o dólar despencou no período de R$ 2,29 para R$ 2,23 e a taxa do juro futuro para janeiro de 2017 tombou de 11,41% para 11,10%. Os investidores caíram na real ontem: não está nada decidido. O cenário de hoje é o de que a briga será encarniçada até a contagem do último voto do dia 26 de outubro.

O desapontamento com as desconcertantes nuanças da corrida eleitoral foi tanto que os mercados de câmbio e juros não juntaram forças suficientes para neutralizar as ondas de pessimismo vindas de fora. O evento da semana, a reunião de política monetária do Banco Central Europeu (BCE), frustrou as expectativas. O presidente da instituição, Mário Draghi, parece não conseguir apoio cabal para o afrouxamento quantitativo que gostaria de fazer. Suas ideias e intenções são apoiadas pela maioria dos 24 votantes do comitê monetário, mas a oposição movida pelo Bundesbank paralisa iniciativas mais arrojadas. O ultraortodoxo banco central alemão já jogou a toalha: tudo o que poderia ser feito com instrumentos monetários para estimular a economia da zona do euro já foi feito, o jeito agora é esperar.

Diante da resistência alemã, a alternativa do BCE foi aumentar a dose do remédio que até agora se mostra inútil: reduzir as taxas de juros. A taxa básica baixou de 0,15% para 0,05%, novo piso histórico. E foi ampliada a punição para o banco que preferir deixar seu dinheiro depositado no BCE ao invés de emprestá-lo às empresas. A taxa que pagava para fazer um depósito dobrou de 0,10% para 0,20%. Draghi anunciou a intenção de autorizar, na reunião do mês que vem, um aumento dos recursos direcionados ao refinanciamento de longo prazo ao setor privado não financeiro. Mesmo que o mecanismo envolva a recompra de títulos privados, ainda não é o afrouxamento quantitativo esperado pelos investidores. Um QE digno do nome implicaria na compra de títulos públicos, e esse passo o BCE não tem força política para dar.

Embora o novo corte de juros tenha surpreendido os analistas, prevaleceu a interpretação de que, sozinho, o BCE não conseguirá tirar a economia do atoleiro. Contra a cruenta austeridade fiscal que grassa na região, as decisões monetárias são paliativas. O desafio é tremendo: a inflação anual ronda hoje 0,3%, bem distante da meta de 2%, e a expansão do PIB não deve passar de 0,6% em 2014.

Dos EUA, as indicações do enigmático mercado de trabalho são de que tão cedo o Federal Reserve não poderá pôr em prática um efetivo estreitamento de liquidez. A última injeção de dinheiro do terceiro estágio do seu programa de afrouxamento quantitativo será feita no mês que vem. Depois, o mercado terá de se virar com a liquidez que já estiver nas praças. Não é um estoque pequeno mas em algum momento o Fed começará a enxugá-lo. Esse momento ficou mais longínquo ontem depois da divulgação de dois dados sobre o mercado de trabalho. Segundo a empresa de processamento de folhas de pagamento, a ADP, o setor privado criou 204 mil novos empregos em agosto, um dado frustrante já que os analistas previam a geração de 220 mil vagas, com expansão frente às 212 mil geradas em julho. Igualmente decepcionante foi o informe da área de auxílio-desemprego. Os novos pedidos cresceram de 298 mil para 302 mil na semana passada. Os analistas já esperavam um aumento, mas para 300 mil. Não há muita esperança de que o relatório oficial sobre o comportamento do mercado de trabalho no mês passado, o “payroll”, a ser divulgado hoje, venha positivo a ponto de anular essas decepções.

A taxa da T-Note de 10 anos só subiu ontem de 2,40% para 2,45% como reflexo da diminuição da procura por títulos do Tesouro americano decorrente do alívio das tensões geopolíticas no Leste europeu. O dólar valorizou-se mundo afora por causa da debilidade econômica da zona do euro e da incapacidade do BCE em incentivar a atividade. Puxando a fila, o euro desvalorizou-se 1,5% frente ao dólar. No mercado doméstico, a moeda americana fechou em alta de 0,32%, cotada a R$ 2,2434. Ao contrário dos dias anteriores, ontem a onda externa de valorização não encontrou a parede de baixa erguida pelo encantamento com Marina Silva.

Os juros futuros subiram em bloco na BM&F. As taxas longas espelharam a alta do dólar e das “treasuries” e, embora a curva desenhada pelos DIs tenha se mantido negativa, também a possibilidade do sonho de um BC mais pró-mercado a partir de 2015 vir a não se concretizar. A taxa para janeiro de 2017 avançou de 11,14% para 11,27%, enquanto o contrato para janeiro de 2021 subiu de 10,92% para 11%. A taxa curta, para a virada do ano, também subiu (de 10,78% para 10,82%), mas por uma outra razão. Uma parte das instituições ainda sustentava posições baseadas na expectativa de que o Copom, confrontado com um declínio da atividade econômica mais forte do que se prognosticava, iria racionalmente indicar a intenção de reduzir a Selic em sua reunião de outubro. Qual nada: ao suprimir do seu comunicado a expressão “neste momento”, o Comitê reiterou a sua sinalização já consignada na ata do encontro anterior de que não pretende este ano reduzir o “instrumento de política monetária”.

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