Pesquisas atraem as atenções

Mas ao longo dos pregões de hoje e de amanhã, o possível viés das novas consultas já será objeto de rumores

Por O Dia

A 20 dias úteis do primeiro turno das eleições, não há evento ou indicador econômico capaz de ter influência maior sobre o comportamento do mercado financeiro do que as pesquisas de intenção de voto para presidente. Todas as atenções estarão voltadas para a divulgação amanhã à noite de sondagens do Datafolha e da MDA/CNT. Mas ao longo dos pregões de hoje e de amanhã, o possível viés das novas consultas já será objeto de rumores. O mercado não costuma errar nos seus boatos antecipatórios. O exemplo do grau de acerto é bem recente: na quarta-feira, o mercado futuro de juros interrompeu uma onda de oito quedas seguidas horas antes da veiculação oficial das pesquisas do Ibope e do Datafolha mostrando a recuperação de Dilma Rousseff.

O impacto dos acontecimentos internacionais chega atenuado aos ativos locais. Refém das pesquisas, eles absorvem apenas parcialmente as tendências esboçadas lá fora. Quando a candidata Marina Silva começou a disparar nas pesquisas, a partir de 26 de agosto, o dólar afrontou a indicação externa de alta e despencou aqui mais de 2%. O desempenho a partir da reação de Dilma na quarta-feira foi inverso: a moeda teimou numa trilha ascendente apesar do declínio sugerido de fora.

Nem a ata da reunião do Copom realizada na semana passada e que será publicada no site do BC na quinta-feira, muito menos as vendas varejistas de julho, que o IBGE divulga também na quinta, ou o “proxy” do PIB – o IBC-Br, que o BC solta na sexta – serão mais relevantes para ditar o ritmo dos pregões do que as novas pesquisas. Estas se mostram cruciais por terem o potencial de responder a várias inquietações dos investidores. As consultas mais recentes mostraram uma perda de ímpeto no crescimento até então avassalador da pessebista e, ao mesmo tempo, o acionamento de um “booster” desconhecido na campanha da petista. Essas direções se mantêm? Marina teria atingido prematuramente um ápice a partir do qual suas chances se reduziriam? Como o eleitor está reagindo às contradições e às constantes mudança de opinião da ex-senadora? Como recebeu o anúncio de Dilma de troca da equipe econômica e de alterações na política econômica?

Se as pesquisas assinalarem uma nova arremetida de Marina, o dólar desistirá de flertar com o reconstruído teto informal de flutuação, a R$ 2,25, e voltará a escorregar para o piso de R$ 2,20. Na sexta-feira, em alta durante a maior parte do dia, o câmbio trafegou na mão oposta à sinalizada tanto pela baixa dos rendimentos dos títulos do Tesouro americano quanto pela distensão geopolítica derivada do acordo de cessar-fogo firmado entre o governo ucraniano e os separatistas pró-Moscou. Resolveu cair apenas na meia-hora final. Fechou com desvalorização de 0,17%, cotado a R$ 2,2396. Adeptos de Marina, depois que se tornou evidente a falta de apelo popular da candidatura de Aécio Neves, dita como a mais autenticamente mercadista, os investidores receiam as fragilidades da campanha marinista e a facilidade com que propostas são feitas para logo serem desmentidas. Será que são para valer a restauração do tripé econômico e a formalização da autonomia legal do BC?

Poucos se mostraram interessados em vender dólar nos dois últimos pregões da semana passada também porque, em caso de revigoramento irresistível de Dilma, o movimento ascendente não partiria de uma base muito aviltada. Se a presidente conseguir pular na frente nas pesquisas para o segundo turno, a expectativa é de forte disparada do dólar. Rapidamente deixaria para trás o patamar de R$ 2,30, independentemente do que estivesse acontecendo nos mercados internacionais.

Num voto antecipado às urnas de 26 de outubro, o mercado de câmbio mostraria toda a sua contrariedade com a hipótese de um segundo mandato para a petista. Mesmo que persistisse lá fora o quadro de sexta-feira. Na quinta-feira, o mercado secundário de títulos do Tesouro americano operou como se as más notícias dadas tanto pela pesquisa de emprego privado da ADP quanto pelos pedidos de auxílio-desemprego fossem inconsistências passageiras facilmente desmentíveis pelo “payroll” (relatório do governo sobre o mercado de trabalho) do dia seguinte. Mas o “payroll” veio pior que os seus indicadores antecedentes. Em agosto, foram criadas apenas 142 mil vagas, bem abaixo da projeção de 230 mil dos especialistas. Agosto interrompeu uma forte sequência de seis meses com geração de emprego acima de 200 mil. E a taxa de desemprego só caiu de 6,2% para 6,1% porque muita gente desistiu de procurar trabalho.

Perplexos, os analisas passaram a se perguntar que recuperação é essa que não gera empregos nem inflação. Se o Federal Reserve se fizer a mesma pergunta, o passo já lento do processo de normalização monetária será desacelerado ainda mais. Esta semana não haverá muitos estímulos à recuperação dos juros longos porque a agenda americana é fraca. Saem dados sobre o crédito ao consumidor em julho, estoque e vendas no atacado também relativos a julho, vendas no varejo em agosto e prévia da confiança do consumidor em setembro — nenhum deles de ponta.

Os contratos de juros futuros negociados na BM&F preferiram na sexta-feira meramente acompanhar a evolução das taxas longas americanas. O comportamento foi misto: enquanto a taxa para janeiro de 2016 subiu de 11,34% para 11,35%, a do contrato para janeiro de 2017 recuou de 11,27% para 11,26%. A contradição, resultante de ajustes técnicos, revelou a falta de consenso em torno de uma tendência mais clara. O pregão não se sensibilizou quase nada com as notícias do dia. O IPCA subiu em agosto exatamente o 0,25% projetado pelas instituições.

A inflação não parece ser um problema a ser combatido nessa reta final de governo. A não renovação do contrato de Guido Mantega num eventual segundo mandato de Dilma já era um fato consumado nas cabeças dos executivos. O ministro se mostrou mais duradouro e resistente do que eles gostariam. E os cotados para substituí-lo são os mesmos de sempre. Desde que o mercado começou a clamar pela troca do ministro, ainda no terceiro trimestre do ano passado, os nomes se alternavam entre Alexandre Tombini, Nelson Barbosa e Otaviano Canuto, nenhum dos quais têm o selo de qualidade do mercado estampado na testa. Dilma provavelmente não conseguiria angariar a simpatia dos pregões nem se já indicasse o confiável ex-presidente do BC, Henrique Meirelles, para a Fazenda. O problema não é Meirelles, é Dilma.

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