Mercado 'vende' Marina

As pesquisas de ontem consolidaram um cenário eleitoral muito perigoso para o mercado financeiro:

Por O Dia

O segundo turno entre Dilma Rousseff e Marina Silva está absolutamente aberto. A disputa será travada voto a voto no dia 26 de outubro e quem conseguir armar posições unidirecionais na candidata vitoriosa ganhará muito dinheiro. Mas quem se arrisca?

Os mercados tendem a operar protegidos, sem apostas definitivas. Mesmo as posições mais arrojadas terão de ser de fácil desmonte e reversão, para o caso de haver uma guinada nas preferências dos eleitores. O mercado de câmbio prosseguiu ontem “realizando” a aposta equivocada em um distanciamento da pessebista sobre a petista no segundo turno. No MDA/CNT, a diferença caiu de 5,9 para 2,8 pontos.

Não satisfeito com a forte valorização de 1,16% experimentada na segunda-feira, ontem o dólar avançou mais 0,91%, cotado a R$ 2,2862. Comprar dólar significa “vender” Marina. A disparada tem tudo a ver com o embate eleitoral. Pouca coisa dela reflete a alta da T-Note de 10 anos, de 2,48% para 2,50%. Alguns analistas estão dando excessiva relevância a relatório do Federal Reserve de São Francisco, cujo alerta de que, autoconfiante demais, o mercado não está se preparando para a possibilidade de o juro básico subir antes do esperado, não é nem novo muito menos fiel ao quadro de hoje. Sim, os EUA estão se recuperando, mas há uma trava sobre os empregos e a inflação que se tornaria ainda mais pesada se a taxa subisse antes do recomendável. Juro abaixo de 2,70% é o mais adequado às circunstâncias atuais.

As altas do dólar e dos juros futuros não se relacionaram nem remotamente com a revisão da perspectiva de rating brasileiro. Como o câmbio, o pregão de DI futuro da BM&F também está “vendendo” Marina. As altas foram generalizadas, com destaque para o contrato com vencimento em janeiro de 2017, que pulou de 11,42% para 11,56%. O avanço da taxa para janeiro de 2016 foi menos expressivo, de 11,40% para 11,49%.

A classificadora Moody’s não se constrangeu com a virtual utilização eleitoral da decisão anunciada ontem de revisar de “estável” para “negativo” o “outlook” do risco soberano brasileiro. Apesar do novo viés, a agência americana ainda está atrasada em relação à sua compatriota S&P, que já em março havia rebaixado o rating de BBB para BBB-. A Fitch é das três grandes agências a única a preservar uma visão mais otimista sobre as condições de solvência do país. Não se trata de uma má notícia, amplamente precificada. Seria se houvesse o rebaixamento definitivo de rating. Mantida a nota Baa2 pela Moody’s, o Brasil se sustenta dois degraus dentro da categoria “investment grade”.

Mas foi uma surpresa, já que não se esperava qualquer manifestação das empresas globais de rating mais relevantes justamente agora, quando a corrida eleitoral pega fogo e qualquer bala de festim é usada como se fosse míssil. O que não está precificado pelo câmbio e os contratos futuros de juros é a reação dos eleitores ao rebaixamento de viés. O que deve ser explicado ao eleitor é que, no curto prazo, a sua vida não será afetada pela decisão, pois a manutenção da nota assegura ao país a chancela de grau de investimento e não deverá ser revista este ano. Não avaliza manobras destinadas a elevar a cotação do dólar, com possíveis consequências negativas à inflação. As agências devem ter o bom senso de esperar as providências que serão tomadas em 2015 por Dilma Rousseff ou por Marina Silva para a retomada do crescimento econômico.

As observações feitas pela Moody’s ao comunicar a mudança de perspectiva são todas velhas. A confiança geral piorou, empresários investem pouco e consumidores relutam em gastar. E o governo não vai conseguir economizar para manter estável a dívida líquida em relação ao PIB. Hoje na faixa de 35%, este critério de endividamento não é problemático. Grave é o inchaço da dívida bruta decorrente da política monetária de ultra-arrocho monetário, atualmente na casa de 59% do PIB. O crescimento econômico resolve tudo. Ele aumenta a arrecadação federal e cria um círculo virtuoso pelo lado dos investimentos (estes, num primeiro movimento, aquecem a demanda e, num segundo, ampliam a oferta, reduzindo a inflação).

Marina promete ressuscitá-lo por meio de um choque liberal, clássico, mas antes de o país voltar a crescer será necessária uma recessão purgativa. Dilma acena com mudanças em sua política econômica, caracterizada, no primeiro mandato, por intervenções na microeconomia e por políticas macroeconômicas com prioridade ao pleno emprego e à renda ao trabalhador. Mas não diz qual o sentido e o alcance das mudanças.

O trabalho das agências de rating quando analisam o risco soberano de um país é dos mais ingratos. Frequentemente, suas análises estão atrasadas comparativamente ao consenso dos especialistas empregados por instituições financeiras e consultorias. E os grandes investidores não vão esperar pelas suas considerações generalistas para, só então, comprar ou vender títulos e moedas dos países analisados. Antes do rebaixamento de um emergente à grau especulativo, mesmo as fundações americanas que precisam estatutariamente do selo de qualidade da classificadora já terão abandonado o antigo hospedeiro. Quando uma agência descredencia um mercado é porque já não há mais ninguém nele para se beneficiar com a decisão.

Há menos de uma semana, o Tesouro reabriu o bônus com vencimento em janeiro de 2025. A operação foi um sucesso acima das expectativas. A intenção inicial era captar entre US$ 500 milhões e US$ 750 milhões, mas como a demanda potencial atingiu US$ 5 bilhões o governo fechou com US$ 1 bilhão. O rendimento pago foi baixo, de 3,888% ao ano, e, ao invés do spread esperado de 160 pontos sobre as “treasuries” de mesmo prazo, a diferença não passou de 147 pontos. O Tesouro poderia voltar agora ao mercado para testar o impacto da decisão da Moody’s sobre o ânimo dos investidores. Muito provavelmente constatará a manutenção do apetite por papéis brasileiros.

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