Por douglas.nunes

Estão fracassando as armas usadas pelo mercado financeiro para influenciar os eleitores e trazer de volta uma gestão econômica autenticamente liberal-ortodoxa, personificada à perfeição por Aécio Neves até 13 de agosto, dia da morte de Eduardo Campos, e depois imperfeitamente por Marina Silva. Os alertas de descontrole das contas públicas, recessão econômica, leniência no combate à inflação e perda de credibilidade de um Banco Central submisso a interesses políticos, amplamente ecoadas na mídia, não grudaram no eleitor. Foi com perplexidade que os mercados receberam na sexta-feira a informação do Ibope de que a aprovação do governo Dilma Rousseff, que bateu no fundo do poço de 31% em junho e subiu a 36% no início do mês, está agora em 38%. Para os analistas, esse dado é até mais importante do que a alta de Dilma no primeiro turno, de 37% para 39%, e a queda de Marina, de 33% para 31%.

O desalento provocou fortes altas do dólar e dos contratos de juros futuros negociados na BM&F. A moeda americana disparou 1,65% na sexta-feira, cotada a R$ 2,3351, e 4,26% na semana. No DI futuro, as arrancadas foram impressionantes. A taxa para janeiro de 2016 pulou de 11,43% para 11,59%. E o contrato para janeiro de 2017 saltou de 11,51% para 11,74%. A parte mais longa da curva de juros ainda está negativa, já que o juro para janeiro de 2021, embora tenha avançado de 11,32% para 11,66%, ainda está mais baixo que o de janeiro de 2017. Ou seja, o pregão ainda tem alguma esperança na recuperação de Marina, já que não conta mais com a de Aécio.

Os operadores lembram a todo instante que, segundo os seus consultores políticos, um governo com índice de aprovação de 38% dificilmente será batido nas urnas. O eleitor não parece querer saber que a inflação de 12 meses ronda o teto da meta de inflação, que o governo não cumprirá sua meta de superávit primário de 1,9% do PIB, que o déficit externo bate em 3,7% do PIB. Seus indicadores são bem mais simples: os preços parecem estáveis (o IPCA subiu 0,40% em junho, 0,01% em julho e 0,25% em agosto) e o vizinho não perdeu o emprego. Para o eleitor, a credibilidade do guardião da moeda está elevadíssima.

O mercado já começa a experimentar a indigesta sensação de que terá de conviver com Dilma Rousseff por mais quatro anos. Os sinais de que a presidente, com sua “nova equipe” num “novo governo”, será até 2018 uma “nova Dilma”, receptiva ao diálogo, menos disposta a intervir em setores estratégicos e mais propensa a abrir mão do comando da economia, delegando a função a um ministro da Fazenda e a um presidente do BC conservadores de raiz, são tidos como enganosos. O mercado acredita que Dilma não é Lula, e não mudará. A Dilma do segundo mandato será a mesma que, na sexta-feira, descartou a independência legal do BC e defendeu a atual “autonomia relativa”. Ou seja, o “novo governo” será o mesmo de sempre: meio desenvolvimentista, meio liberal-ortodoxo.

Sob a chefia de Dilma, são remotas as chances de uma guinada em favor das teses neoclássicas: cumprimento estrito da meta central de inflação (nem que seja necessário elevar a Selic à sua média histórica de 15%), obtenção de um superávit primário (sem contabilidade criativa) equivalente a 3% do PIB e uma taxa de câmbio um pouco menos suja. Sobre a total liberdade cambial prometida pelos assessores econômicos de Marina, os economistas têm sérias desconfianças. Na aparência, o sistema de metas inflacionárias veio para suceder o regime de câmbio fixo, naufragado com estrépito no dia 15 de janeiro de 1999. Não é bem assim: o controle da taxa de câmbio (com um viés de apreciação) é essencial ao êxito do sistema de metas. Pela teoria das expectativas racionais, basta ao BC independente desfrutar de credibilidade que a inflação cai num passe de mágica. Na verdade, isso não acontece se o câmbio estiver livre, leve e solto. A inflação cai se a política fiscal esfriar a demanda, se a política monetária provocar desemprego e se o câmbio não pressionar os preços dos importados e o custo das empresas. A velha Dilma não fez nada disso, nem fará a “nova”. Ou “nova” quer dizer outra coisa?

Mas, e se a nova Dilma vier convicta da necessidade de implantar a receita 100% desenvolvimentista, sem nenhuma concessão liberal-ortodoxa, como acontece hoje? O que significa isso? Superávit primário zero, forte redução do déficit nominal público por meio da compressão dos gastos com o serviço da dívida (Selic igual aos 5% da TJLP) e dólar a R$ 3,00. Como um dos diagnósticos preferidos dos desenvolvimentistas é o de que é o déficit externo quem origina a inflação (agravada pela política monetária de elevação de custos e desincentivo ao investimento produtivo), a prioridade é equilibrá-lo, ao mesmo tempo em que se gera receita (cortando juros) para o investimento social e produtivo.

As linhas gerais dessa proposta foram testadas em 2011 com a implantação da “nova matriz econômica”. Não deu certo, segundo o mercado, porque se tratava de pura insanidade. Não deu certo, segundo os desenvolvimentistas, porque foi uma tentativa envergonhada e vacilante, com medo de ir às últimas consequências. É claro que nem o mais fervoroso dos desenvolvimentistas espera que Dilma venha a radicalizar de vez: fim do Copom e do regime de metas inflacionárias e adoção de um BC keynesiano, plenamente discricionário, linha auxiliar da política macroeconômica. Para fazer isso, talvez fosse preciso fechar a conta de capital do balanço de pagamentos e centralizar a taxa de câmbio. Nem no pior dos seus pesadelos o mercado poderia imaginar tal ousadia.

Nesta semana, apenas a reunião de quarta-feira do Comitê Federal de Mercado Aberto (Fomc) do Federal Reserve conseguirá rivalizar em importância com as novas pesquisas de intenção de voto. O mercado americano fechou sexta-feira convencido de que o Fed irá fazer uma sinalização mais firme de quando começará o movimento de alta da taxa básica americana. Esta reunião de setembro é tecnicamente propícia a isso. Ela é uma das quatro do ano em que, após comunicadas as decisões por meio de nota, o Fed revela suas novas projeções para indicadores essenciais e a presidente Janet Yellen concede entrevista à imprensa. O momento é agora, ou para confirmar que a “fed funds rate” só iniciará sua alta no começo do segundo semestre de 2015, ou para sugerir a hipótese de antecipação desse movimento.

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