Por bruno.dutra

Continuou ontem “realizando” o excesso de otimismo demonstrado de 26 de agosto até 5 de setembro, quando se iniciou a reação de Dilma Rousseff. O dólar conseguiu ontem, por alguns momentos, ir além dos R$ 2,35, mas fechou com valorização menos acentuada, de 0,38%, cotado a R$ 2,3439. Foi a sexta alta consecutiva. O dólar não para de subir desde justamente o dia 5. De lá para cá, já saltou 4,66%. Ajudou na alta a divulgação de indicadores ruins sobre a economia chinesa. Perderam em geral as moedas de países emergentes que exportam commodities para lá.

Há reduzida interferência no movimento de avanço da moeda americana sobre o real de investidores estrangeiros posicionados na “compra” de derivativos cambiais. As posições de hedge funds globais nos pregões de cupom cambial e dólar futuro da BM&F vêm oscilando em sintonia com as marchas e contramarchas das pesquisas eleitorais e com o sobe-e-desce dos juros americanos de longo prazo. Mas não há nenhum tiroteio especulativo mais devastador. Com as posições em cupom cambial, firmadas mais visando a proteção de carteiras de títulos públicos contra a variação do dólar, congeladas em torno de US$ 18,3 bilhões, são os contratos fechados no mercado futuro de dólar os que mais se excitam com as reviravoltas políticas e a mudança de humores do segmento de “treasuries”.

No dia 25, antes do surgimento da onda Marina, as posições “compradas” (aposta na alta do dólar) de estrangeiros em dólar futuro chegavam a US$ 12,6 bilhões. No auge da arrancada da pessebista, no último dia útil de agosto, a posição desceu para US$ 8,83 bilhões. Com a retomada do fôlego da candidatura Dilma Rousseff, os fundos globais foram remontando seu posicionamento comprado, alcançando na sexta-feira US$ 10,96 bilhões, sem retornar, portanto, ao caixa do dia 25.

Os hedge funds também não revelam nenhuma ansiedade em aumentar sua aposta comprada em dólar futuro por causa da expectativa de que amanhã o Federal Reserve irá alterar o “forward guidance” de sua política monetária. Uma parte dos analistas acredita que os membros do comitê monetário do Fed irão formalizar o alerta de que a curva futura desenhada pelos títulos do Tesouro está defasada em relação às projeções da autoridade monetária.

Mais: poderá substituir do seu comunicado a locução adverbial “tempo considerável” – entre o fim do afrouxamento quantitativo, previsto para outubro, e o início da alta da taxa básica de juros – por outra expressão que condicione o avanço da “fed funds rate” a sinais de encaminhamento da atividade econômica em direção sólida do almejado pleno emprego. Tal alteração de “guidance” poderia agitar o mercado de “treasuries”, com efeitos de valorização da moeda americana mundo afora.

O problema é que os indicadores da hora não deixam as T-Notes subirem. A taxa do papel de 10 anos cedeu ontem de 2,62% para 2,59% em consequência da decepção trazida pela queda da produção industrial no mês passado. Enquanto os economistas previam um avanço de 0,2%, a indústria encolheu 0,1%, a primeira queda desde janeiro. A indústria foi puxada para baixo pela retração de 7,6% sofrida pelo setor de automóveis. Se o americano não troca de carro é porque não está confiante na solidez da recuperação econômica. Esse sentimento foi compartilhado ontem pela Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). A entidade revisou de 2,6% para 2,1% a sua projeção de crescimento dos EUA este ano.

Como a atual conjuntura eleitoral anti-Marina angustia o mercado de câmbio, não encontrou ontem forças para se opor ao impacto de indicadores mais fracos da economia da China. No mês passado, a produção industrial apresentou alta interanual de 6,9%, bem mais baixa do que a evolução de 8,8% prevista pelos analistas, em coerência com a expansão de 9% verificada em julho. As vendas varejistas não se mostraram melhores. Ao invés da alta de 12,1% esperada pelas especialistas, elas cresceram 11,9% em agosto. O quadro é de desaceleração da economia neste terceiro trimestre do ano, após a forte recuperação registrada no segundo.

Os efeitos negativos sobre as moedas de exportadores de commodities só não foram maiores porque o mercado acredita que o governo deve baixar medidas mais incisivas para restaurar a retomada encetada no segundo trimestre. Mas podem não chegar a tempo de evitar o retrocesso do crescimento chinês este ano para a faixa entre 7,3% e 7,4%.

As cem instituições pesquisadas pelo Banco Central para a elaboração do Boletim Focus não compartilham das aflições hoje externadas pelo mercado de câmbio. Na edição publicada ontem, a mediana das projeções para a cotação do dólar no fim do ano recuou de R$ 2,35 para R$ 2,30 e, para 2015, de R$ 2,49 para R$ 2,45. Trata-se de uma variação cambial muito bem-comportada, de apenas 6,5%, incapaz de amplificar as pressões inflacionárias. Trabalhando com o cenário atual, pois não há como saber quem ganhará as eleições e, sobretudo, qual será a política econômica a ser praticada efetivamente, as cem casas não veem um descontrole inflacionário.

Tanto para 2014 quanto para 2015, elas estimam IPCA estabilizado em 6,29%. A inflação permaneceria sedada nesse degrau apesar de a atividade mostrar alguma retomada no ano que vem. O prognóstico de evolução do PIB sobe de 0,33% este ano para 1,04% no próximo. E essa leve recuperação aconteceria apesar de, na visão das instituições, o BC ser obrigado a elevar a Selic de 11% para 11,5%.

O pregão de juros futuros da BM&F ignorou a alta do dólar e preferiu acompanhar a baixa dos rendimentos dos títulos americanos. A queda foi generalizada. A taxa para janeiro de 2016 recuou de 11,59% para 11,50%. E o contrato para janeiro de 2017 cedeu de 11,74% para 11,68%.

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