Por douglas.nunes

Os mercados financeiros forçaram a mão ontem. Como não está nada fácil calibrar a rota do dólar e dos juros futuros com base naquilo que eles acham que vai acontecer, o jeito
é distorcer a realidade para que ela caiba nos seus anseios. Desde o dia 6, os mercados operavam com dois pressupostos que pareciam evidentes por si mesmos: aceleração dos procedimentos monetários do Federal Reserve (Fed) e, no plano interno, fortalecimento da candidatura Dilma Rousseff. Dólar e juros dispararam desde então. Nenhuma das duas expectativas se confirmou. Embora os profissionais gostem de um certo grau de incertezas, propício ao jogo especulativo de luz e sombra, mesmo para eles o ritmo está pesado demais. Resta falsear a realidade.

O dólar disparou ontem 1,25%, cotado a R$ 2,3576, maior preço desde 13 de março. A justificativa veio de uma mudança nas projeções de juros do Comitê Federal de Mercado Aberto (Fomc) do Federal Reserve. A reunião confirmou ontem o que já se intuía na véspera. Além de fazer o óbvio — cortou o volume de compra de títulos e hipotecas de US$ 25 bilhões para US$ 15 bilhões e manteve o juro básico no patamar entre zero e 0,25% em que está desde dezembro de 2008 —, manteve em seu comunicado a principal frase do “forward guidance” destinado a reafirmar sua ausência de pressa em descongelar a taxa básica. Esta vai ficar estável por um "período de tempo considerável após o fim do programa de compra de ativos, especialmente se a inflação projetada continuar a oscilar abaixo da meta de longo prazo do Comitê, de 2%, e desde que as expectativas para a inflação no longo prazo permaneçam bem ancoradas".

Mesmo assim, o mercado secundário de títulos do Tesouro americano ficou nervoso. A taxa da T-Note de 10 anos caíram depois da reunião de 2,60% para 2,59%, mas logo voltaram a subir, para até 2,62%. Tudo porque cresceu dentro do Fomc de um para dois o número de dissidentes, os que gostariam de retirar a expressão “por tempo considerável”. E porque foram divulgadas novas projeções para os indicadores básicos e para os juros, interpretadas convenientemente como indício de que, quando começar a elevar a taxa, o Fed o fará de forma mais acelerada. A projeção de taxa “média” — basta um falcão chutar o balde para distorcer o conjunto — para o fim de 2015 subiu de 1,125% de junho para 1,375% agora. A interpretação não tem lógica do ponto de vista do arcabouço que rege um banco central independente. Este precisa conduzir as expectativas de forma tranquila com ações antecipatórias, e não retardá-las justamente quando enxerga perigos lá na frente.
</CW>No geral, o Fomc manteve sua postura majoritariamente “dovish”. Exemplo: dos 17 membros votantes, 14 preveem a elevação da taxa básica apenas no ano que vem, dois projetam a decisão apenas para 2016 e apenas um crê na chance de uma alta ainda este ano. Em suas grandes linhas, o “statement” não foi alterado. Sofreu apenas adequações necessárias para o fim do programa de afrouxamento quantitativo, já marcado para o mês que vem.
<CW-7>A agitação do mercado de “treasuries” transmite a sensação de desespero: os ajustes técnicos de posições destinados a minorar os prejuízos foram feitos no calor da hora antes da volta da racionalidade às mesas. A parte arguta do mercado finge que algo grandioso e inesperado acabou de acontecer enquanto entope de papéis os mais aparvalhados. Não dá para continuar apostando em alta das “fed funds rates” diante do CPI divulgado ontem. O Índice de Preços ao Consumidor (CPI) registrou deflação de 0,2% em agosto, a primeira queda desde abril do ano passado, enquanto os analistas previam estabilidade. Em termos anuais, o indicador caiu de 2% para 1,7%.

A arrancada de ontem do dólar foi exagerada e especulativa. O mercado quer que o Banco Central amplie a oferta de swaps cambiais destinados a substituir os antigos. E aproveita marolas externas para testar o BC. Na verdade, o câmbio está pisando em ovos. As constantes reviravoltas no quadro sucessório estão exasperando os operadores. Prevaleceram ontem as análises de que não deu resultado a campanha de vitimização de Marina Silva. O Ibope mostrou a sua estagnação, comprovando a tese petista de que o eleitor não gosta de quem se faz de coitadinho. A queda da presidente Dilma confirmou a suspeita de que tampouco o eleitor aprecia ataques. Entre a suposta vítima e o agressor, aumentou a preferência por Aécio Neves. O tucano subiu de 15% para 19%, enquanto a pessebista recuou de 31% para 30% e a petista de 39% para 36%. Para ir ao segundo turno, o peessedebista terá de roubar votos das duas candidatas. Não vai ser fácil. Em qual bater? O prócer FHC prefere concentrar baterias em Dilma. O candidato prefere a posição de franco-atirador. E o mercado está preocupado: se Aécio conseguir tirar mais votos antes endereçados a Marina do que os compromissados com Dilma, sem emplacar seu nome no segundo turno, Marina chegará enfraquecida à votação do dia 26 de outubro. Pior ainda se vier a emplacar: os analistas consideram muito difícil que o tucano consiga vencer a petista no segundo turno.

O dólar acumulou na semana passada valorização de 4,26%. A maior parte do salto derivou da reversão das posições que consideravam certa a vitória de Marina Silva. Uma parte menor refletia a tensão externa suscitada pela expectativa de aceleração dos passos monetários do Fed. Seja como for, o certo é que o dólar subiu unicamente por causa de “expectativas” e das correções feitas nas carteiras por causa delas. A alta não teve nada a ver com a lei sagrada da oferta e da procura. Se ela tivesse prevalecido, a moeda teria caído. É que, de 8 a 12 deste mês, segundo dados divulgados ontem pelo BC, o fluxo cambial registrou expressivo saldo positivo de US$ 4,152 bilhões. Entrou dólar para valer tanto pela conta comercial quanto pela financeira. A primeira exibiu superávit de US$ 1,823 bilhão. E a segunda, de US$ 2,329 bilhões. A entrada líquida de capital foi tão significativa que engoliu o déficit contabilizado na primeira semana do mês. Agora, no acumulado de setembro até o dia 12, a balança cambial mostra saldo de US$ 2,251 bilhões.

Quem conhece esses números antes de todo mundo é o BC. Talvez isso explique o fato de que, apesar da arrancada do dólar, não elevou a oferta de swaps cambiais leiloados diariamente com a finalidade de rolar os US$ 6,677 bilhões em antigos que vencerão no dia 1° de outubro. Sem se perturbar com a valorização do dólar, persistiu sinalizando a intenção de não rolar o equivalente a um pouco mais de 28% do vencimento.

Mais técnico, o pregão de juros futuros da BM&F permaneceu imune às estripulias cambiais. As variações dos contratos foram mínimas. A taxa para janeiro de 2016 subiu de 11,50% para 11,53%, enquanto a taxa para janeiro de 2017 recuou de 11,60% para 11,59%.

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