Por bruno.dutra

Um ambiente de negócios menos tenso globalmente, a ausência de rumores sobre as pesquisas eleitorais que iam ser divulgadas após o encerramento dos pregões e informações de que Dilma Rousseff prepara um pacote de medidas destinado a tranquilizar os mercados caso vença já no domingo instalaram ontem uma trégua nos mercados de câmbio e juros futuros. O dólar fechou cotado a R$ 2,4480, em baixa de 0,31%, mas acumulou no mês valorização de 9,33%, a maior desde a alta de 18,15% contabilizada há três anos, em setembro de 2011, auge da crise que ameaçava fragmentar a zona do euro. Os DIs declinaram suavemente na BM&F, mas o suficiente para a curva voltar a exibir uma inclinação negativa. Em 12,35% anteontem tanto para janeiro de 2017 quanto para janeiro de 2021, as taxas caíram para 12,24% e 12,22%, respectivamente.

No exterior, a expectativa de que em sua reunião de amanhã o Banco Central Europeu (BCE) vai radicalizar em suas medidas de estímulo ao crescimento, autorizando a emissão de euros para a recompra de títulos públicos sem liquidez, ampliou a disposição dos investidores em correr riscos. A impressão geral é de que o BCE não pode insistir em providências perfunctórias. A inflação anual dos 18 países da eurolândia caiu de 0,4% em agosto para 0,3% em setembro. A redução da cautela tornou possível uma alta dos juros americanos de longo prazo. A taxa da T-Note de 10 anos subiu de 2,48% para 2,51%.

Câmbio e juros abriram muito nervosos ontem, dispostos a repetir o pânico da véspera. Mas foram se acalmando. Lá fora, as moedas emergentes foram subindo e, aqui, começaram a circular nas mesas informações de que Dilma não quer o confronto. A bandeira branca seria hasteada com firmeza. Mais do que meros compromissos de austeridade fiscal, desgastados ao limite do grotesco desde o advento da contabilidade criativa, a linha de frente da estratégia de sedação consistiria no anúncio de um futuro ministro da Fazenda insuspeito aos olhos das instituições. Teria de ser alguém que desfrutasse de plena credibilidade junto às várias e conflituosas instâncias que formam o chamado “mercado”. Não será fácil, sem abrir mão das convicções pessoais da presidente. O nome do ex-secretário-executivo da Fazenda, Nelson Barbosa, talvez não fosse suficiente para isso.

Se a oposição vencer as eleições, a explicação para os ajustes recessivos que serão feitos em 2015 já está pronta. Pode invocar a “herança maldita” das contas públicas. E a necessidade de equilibrá-las para evitar o rebaixamento do rating brasileiro. Depois que fracassou a tentativa do Ministério da Fazenda de evitar em março a diminuição da nota de crédito atribuída pela S&P, por meio da montagem 15 dias antes de um teatro ornado de pompa e austeridade no qual se comprometia a entregar este ano um superávit primário equivalente a 1,9% do PIB, o governo parece ter relaxado de vez. A ordem é colocar a máquina pública a serviço exclusivo da reeleição da presidente. Agosto sempre foi um bom mês para o setor público. Por isso, foi com assombro que os analistas receberam ontem os relatórios do Tesouro e do Banco Central.

O primeiro tratou das contas do governo central. Veio um déficit primário de R$ 10,423 bilhões, quando a mediana das expectativas do mercado aproximava-se de zero, uma previsão já ruim. Não é mais uma questão de pisar menos no freio da contenção. O pé está pesadamente em cima do acelerador. O resultado primário do governo central no acumulado do ano até agosto corresponde a apenas 0,14% do PIB do período. A promessa para o ano é de um superávit central de 1,55%. Só será cumprida se houver muita mágica contábil. E, para as agências de rating, pior do que o arrependimento sincero é a utilização de expedientes criativos.

O segundo, referente ao setor público consolidado, mostrou déficit de US$ 14,46 bilhões, o quarto consecutivo, uma sequência nunca antes vista na série histórica. O déficit de agosto é o pior resultado desde dezembro de 2008. O superávit primário caiu, no acumulado de 12 meses, de 1,22% em julho para 0,94% em agosto.

Pode-se discutir — e há economistas social-desenvolvimentistas que o fazem com muita seriedade e competência — se é necessário para a saúde da produção e o bem-estar da população o governo fazer superávit primário maior do que 1%. Ou até se é necessário fazer qualquer superávit primário. Se este representa a economia que o governo faz para pagar os juros de sua dívida pública interna, o problema pode estar na dívida, não no superávit. Se a Selic, como defendem, cair ao nível da inflação, zerando-se o juro real, a economia necessária será bem menor. O outro lado do gasto público — um aquecimento de demanda que resulta em inflação — é tratado por eles com certo desdém.

A inflação brasileira é de custo e não de demanda, e resulta sempre de choques, sobretudo os agrícolas. Mas o problema é que o governo Dilma — pelo menos esse do primeiro mandato — não assume essa feição declaradamente desenvolvimentista. Para todos os efeitos, persegue, mal ou bem, os três pilares liberal-conservadores (meta de inflação, superávit primário e câmbio flutuante). Se é assim, precisa prestar contas ao mercado e as agências de rating.

Os dados dos últimos quatro meses do setor público serão uma “auto-herança maldita” para um segundo mandato de Dilma se o jogo de prometer e não cumprir perdurar em 2015. Se a “nova gestão”, com “nova equipe”, anunciada por ela for mais do tipo de um governo “a seu gosto” — como anunciou em entrevista a blogueiros — o sucesso precisa vir rapidamente, antes das retaliações do mercado. Se o PIB voltar a crescer na faixa de 4% com consistência duradoura, discussões sobre o tamanho do superávit primário não farão muito sentido.

Com graduações variáveis, há duas correntes principais no mercado a respeito do que pode ser um segundo mandato de Dilma. Uma parte acredita que o fiasco da “nova matriz econômica” tentada de 2009 a 2011 foi uma lição aprendida. A nova Dilma virá mais disposta ao diálogo e a desentupir canais de comunicação com os empresários e os mercados. Essa ala acredita que a retórica esquerdista esgrimida por ela na campanha destinou-se apenas a marcar suas diferenças em relação a Marina Silva.

A outra corrente vê o oposto: Dilma se sentirá respaldada pelas urnas, sobretudo se já vencer no domingo, para de fato levar às consequências definitivas um projeto desenvolvimentista. Se ela se reelegeu com o discurso de que não fará nada, nem que a vaca tussa, que implique em sacrifício ao povo, medidas impopulares de ajuste estão fora de questão. Os analistas ainda não têm respostas satisfatórias a essas inquietações, mas confiam no poder de persuasão dos ativos financeiros. Nada como uma crise cambial para recolocar os governos no bom caminho.

Você pode gostar