Por bruno.dutra

De lá até cá, o dólar ascendeu 11,3% fazendo uso apenas do ferramental da apregoação no vazio e da narrativa do medo, sem escoras no fluxo cambial (amplamente superavitário) nem nas articulações especulativas dos hedge funds globais, estranhamente apáticos. A volatilidade sem bússola foi a tônica do dia. De manhã, o mercado tentou afrontar o preço de R$ 2,50, vindo de R$ 2,4848 no fechamento de quinta-feira, e a cotação chegou a bater em R$ 2,4980, mas era audácia demais mesmo para o penúltimo pregão antes das eleições.

Se antes já não havia saída de capital, se a especulação com derivativos cambiais era mínima, agora o dólar tentava acintosamente desafiar o viés externo de valorização de outras moedas emergentes. O teste dos R$ 2,50 foi deixado para outro dia. Mesmo assim, encerrou em alta de 0,28%, vendido a R$ 2,4918. Mas o que menos faltou foi emoção.

O frenético vai-e-vem do dólar ao longo do dia — chegou a operar em baixa de 0,62% no início da tarde, cotado a R$ 2,4693 — espelha bem o excitante mundo das operações day trade, o principal estimulante do alpinismo cambial. O mercado joga com as brechas abertas pelo fluxo comercial e financeiro que não pode ser adiado para construir trampolins a patamares mais altos, comprando e vendendo os mesmos lotes de moeda em momentos diferentes do dia. O combustível são os boatos inaveriguáveis.

O dólar precisa subir? Basta espalhar que os alvos das delações premiadas de Paulo Roberto Costa e Alberto Youssef já começaram a mandar dinheiro para fora do país. O dólar precisa cair? É só difundir um fortalecimento de Aécio Neves na próxima pesquisa. Para fazer a máquina do lucro fácil girar azeitada, o volume de negócios precisou subir ontem para US$ 2,4 bilhões, quando são raros os dias em que encosta em US$ 2 bilhões.

O tempero vem dos segmentos de cupom cambial e opções de dólar. A contribuição dos investidores estrangeiros tem sido modesta. As posições “compradas” — apostas de alta da moeda americana — nos pregões de dólar futuro e cupom cambial não vêm sofrendo alterações abruptas denunciadoras de frenesi especulativo. Elas caíram de US$ 29,26 bilhões no dia 12 para US$ 25,36 bilhões no dia 19 e na abertura de outubro estavam em US$ 26,97 bilhões.

Para o dólar chegar até o cume, falta, contudo, um oponente de peso. Em sua escala solitária, os ventos contrários soprados pelo Banco Central têm sido suaves. O BC se recusa a competir. Se ao menos voltasse a oferecer as suas linhas de crédito em dólar com compromisso de recompra haveria contra o que lutar. Se o BC mantém inalterada sua ração diária de swaps (4 mil contratos), se aceita rolar todos os contratos antigos que irão vencer, e não faz mais nada, ele está dizendo que não precisa fazer porque não identifica nem demanda nova por mais swaps de proteção nem escassez de moeda no mercado à vista, a ser suprida pelas linhas.

Por inação, ele desmascara a fragilidade da subida. Em algum momento, se não houver respaldo de uma crise externa, o oxigênio será cortado e o montanhista despencará tão sozinho quanto subiu.

De fora, será difícil ao câmbio encontrar um aliado imediato. As taxas dos títulos de 10 anos do Tesouro americano subiram ontem de 2,39% para 2,41%, denunciando a diminuição da inapetência global por risco. O mundo, cujo crescimento ínfimo vem decepcionando até os sempre austeros economistas do FMI, ainda requer cuidados monetários. Os EUA continuam alternando indicadores bons com outros francamente ruins. As encomendas de bens manufaturados registraram em agosto a maior queda da história, de 10,1%, enquanto que, pelo lado positivo, o número de novos pedidos de seguro-desemprego caiu em oito mil na semana passada, para 287 mil, quando os especialistas previam 297 mil.

Na Europa, um pouco mais da mesma estratégia ineficiente. A reunião de outubro dos 24 membros do conselho do Banco Central Europeu (BCE) frustrou os mercados globais. A expectativa predominante era de anúncio de novas medidas concretas destinadas a impulsionar a economia da zona do euro. A mais aguardada era um afrouxamento quantitativo nos moldes do que está sendo encerrado pelo Federal Reserve (Fed) por já ter cumprido a sua missão: um vasto programa de compra de títulos públicos e privados. Não veio. O BCE não quer entupir o seu balanço com bônus da periferia menos desenvolvida e mais problemática da eurozona que hoje mofam na carteira dos bancos privados.

São entulhos que ocupam o espaço que poderia ser destinado a dívidas corporativas. Os “micos” reduzem a capacidade de emprestar porque inflam os riscos gerais de inadimplência potencial. O BCE, na parte operacional da reunião, fez o esperado: manteve a taxa básica de juros em 0,05% e em -0,2% a remuneração dos bancos que insistem, apesar da rentabilidade negativa, em fazer depósitos na instituição. Isso não resolve. Como não resolvem as operações de empréstimos lastreados em ativos. Nessas linhas, o BCE está disposto a injetar até 1 trilhão de euros. Mas poucos querem.

Terminado o encontro, o presidente Mario Draghi deu a sua tradicional entrevista à imprensa. De novo, garantiu que o BCE não poupará esforços para tirar a área do euro do atoleiro deflacionista. Os mercados perderam a paciência. As suas enérgicas exortações passam agora a impressão de bravatas anódinas. Como não consegue aglutinar um consenso entre os membros para que sejam tomadas providências mais drásticas, os mercados estão desistindo do apelido de “SuperMario”.

O pregão de juros futuros da BM&F não se deixou influenciar pelos dados divulgados ontem pelo IBGE sobre o comportamento da indústria. Os números, melhores do que os previstos, foram incapazes de alterar a rota das taxas, ainda inteiramente dependente da corrida sucessória e da cena global saturada de incertezas. Apesar de a produção industrial ter subido em agosto 0,7%, mais do que o esperado pelos analistas, sustentando o ritmo de expansão, também de 0,7%, evidenciado em julho, o desempenho em períodos mais longos é ainda desastroso. No acumulado do ano, a produção industrial retrocedeu 3,1%, enquanto que nos últimos doze meses a queda foi de 1,7%. Os números melhores de julho e agosto refletem mais a base deprimida de comparação do que o início de uma reviravolta.

Em um movimento defensivo por meio de travas, tesoureiros e gestores desenharam trajetórias distintas para os contratos. Enquanto os mais curtos subiram, os de prazo mais longo caíram. Enquanto a taxa para janeiro de 2016 avançou de 12% para 12,03%, o contrato para janeiro de 2021 refluiu de 12,38% para 12,32%.

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