Por douglas.nunes

Os mercados financeiros normalmente gostam de “realizar no fato”. Pode ser diferente hoje. Na sexta-feira, operaram em estado de graça face ao afastamento da tese, considerada fato consumado ao longo da semana, segundo a qual, seja quem fosse o oponente de Dilma Rousseff no dia 26, estaria condenado à derrota. O mercado foi ontem maciçamente votar em Aécio Neves animado com uma hipótese tida agora como factível, não uma quimera sonhática: tirar o PT do poder. O que lhe dá tanta esperança? Três variáveis: 1) Estima-se que o tucano possa herdar cerca de 60% dos votos destinados a Marina Silva; 2) Supõe-se que o senador terá, nos debates televisivos, desempenho melhor que o da presidente; e 3) Informações segundo as quais a delação premiada do doleiro Alberto Yousseff poderá, nas próximas três semanas, desencadear escândalo de proporções trágicas em várias esferas do poder e sacudir o quadro eleitoral.

O mercado pode deixar a “realização” para mais tarde. Não será surpresa se repetir hoje a farra de sexta-feira. O câmbio foi o império das operações day trade. O dólar foi jogado na máxima do dia a R$ 2,5078 (alta de 0,64%) e depois atirado a R$ 2,4568 (baixa de 1,4%) na mínima. Entre um preço e outro, uma variação de 2,08%, um ganho extraordinário para um único dia. A excitação fez com que o volume de negócios saltasse a US$ 3,3 bilhões, um pouco mais que o dobro do giro médio de setembro. O dólar acabou fechando a R$ 2,4618, em queda de 1,2%, mas na semana acumulou valorização de 1,9%. A histeria deve persistir até o dia 24, insuflada por pesquisas oficiais e trackings. As tendências serão as mesmas: se Dilma se consolidar na dianteira, o dólar dispara; se Aécio ameaçar encostar e virar o jogo, a moeda desaba. Idem para os juros futuros.

Vai prevalecer nas mesas de operações a velha tese de que o segundo turno se trata de uma “nova eleição”: tudo pode acontecer porque o jogo se reinicia do zero, com tempos de televisão iguais aos dois disputantes. Trata-se, na verdade, de um truísmo às avessas: é evidente por si mesmo, mas nunca aconteceu. Desde a primeira eleição direta após a redemocratização, em 1989, quem liderou no primeiro turno venceu no segundo. Agora pode ser diferente? O mercado financeiro torce para que seja. Nunca acontece de o candidato que ficou no terceiro lugar transferir integralmente, na disputa final, seus votos para o segundo colocado. A distribuição é mais ou menos homogênea entre o primeiro, o segundo e a legião dos brancos e nulos, independentemente de o derrotado declarar-se neutro ou apoiador oficial de um dos lados.

Apesar de toda a loucura espalhafatosa dos pregões, das posturas definitivas de uns, das blindagens por meio de travas de outros e das artimanhas especulativas de vários, o mercado não pode escapar de alguma racionalidade, mesmo que precária e provisória. Ele já vai ter de operar com os olhos postos naquilo que se imagina possa ser o segundo mandato de Dilma Rousseff. Não há certeza sobre nada. Nenhuma corrente prevalece. Nem quem aposta no caos sai estouvadamente comprando dólar à vista e no futuro e “comprando taxa” no mercado futuro de futuros da BM&F. Para essa ala, tudo pode mudar no universo, menos a forma de pensar economicamente da presidente nem seus métodos impositivos de comando. Se Dilma sempre será Dilma, os ajustes drásticos recomendados pelos analistas na política econômica jamais serão feitos com a intensidade necessária para se evitar uma crise em 2015.

No meio do caminho do ano que vem há uma enorme pedra. A Europa anoréxica e a China de andar moroso não estão atrasando os EUA em sua marcha de recuperação. Muito antes do que o esperado, o Federal Reserve (Fed) já tem no seu colo as justificativas técnicas para o início do movimento de alta da taxa básica de juros. Eles foram dados na semana passada: o núcleo do principal índice de inflação, o PCE, já está nos 2% da meta de inflação e a taxa de desemprego caiu abaixo de 6%. Na sexta-feira, foi divulgado um impressionante relatório do mercado de trabalho. Em setembro, segundo o Bureau of Labor Statistics, foram criadas 236 mil novas vagas, número bem superior à expectativa mediana dos analistas, de 210 mil. Melhor que isso: os dados relativos a julho e agosto foram revisados para cima. Os postos gerados em agosto foram corrigidos de 142 mil para 180 mil. E, em julho, de 212 mil para 243 mil vagas. A taxa de desemprego cedeu de 6,1% para 5,9%, quando os especialistas previam estabilidade em 6,1%. Os membros mais “hawkish” do Fed já estão afiando as suas garras e trinando seu pio conservador.

A alta da “fed funds rate” irá, com certeza, acontecer no primeiro semestre de 2015, resta saber se no primeiro ou no segundo trimestre. Se for no segundo, já entre janeiro e março os mercados globais irão iniciar a “precificação” das carteiras, isto é, fuga de mercados emergentes. Se for no primeiro, a realocação de portfólios começará imediatamente. Os primeiros meses do ano que vem não serão indicados a grandes movimentos por causa do inverno nos EUA. Nesta época, a economia sempre parece meio parada, sem requerer aperto monetário. O mais provável é que a “normalização das condições monetárias” seja desencadeada do meio para o fim do segundo trimestre. Isso quer dizer que, caso reeleita, Dilma irá dispor de um tempo muito exíguo para arrumar a casa, ou pelo menos indicar a presença de faxineiros de ilibada reputação. A ala do caos acredita que Dilma só se mexerá depois do fato consumado, sem evitar um rebaixamento do rating brasileiro.

A porção menos catastrofista aposta na reedição do “cavalo de pau” da primeira gestão de Lula. A presidente colocará de lado as suas convicções pessoais em matéria de gerência da economia — microintervencionismo setorial, desonerações tributárias, subsídio creditício através de bancos públicos, frouxidão fiscal e inflação apenas levemente abaixo do teto da meta — e seguirá o figuro político ortodoxo: austeridade fiscal e monetária nos dois primeiros anos e lenha na fogueira nos dois últimos, para preparar a volta de Lula em 2018. Isso implica na nomeação de um ministro da Fazenda sem vinculação com os quadros atuais do PT. Essa opção afasta os postulantes Luciano Coutinho, Nelson Barbosa e Aloysio Mercadante. Dilma parece se inclinar para o nome de empresário ilustre do setor produtivo, sem vinculação com o mercado financeiro, o que exclui Henrique Meirelles. Pode dar certo, se algum empresário que preencha as qualificações aceitar.

Se o candidato do PSDB persistir em sua escalada, com chances reais de tirar o PT do poder, não há nenhuma controvérsia sobre a política econômica que o seu ministro da Fazenda, Armínio Fraga, irá praticar. A ortodoxia liberal recomenda choques na área fiscal e monetária, mas alguma contenção no câmbio. A intensidade do choque dependerá das reações dos mercados às decisões do Fed.

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