Por bruno.dutra

As compras das ações do “kit eleições” – basicamente as de bancos e empresas estatais –, as vendas de dólares e de contratos futuros de DI feitas ontem não exteriorizam nenhuma convicção íntima. Prevalece o entendimento de que a disputa entre Dilma Rousseff e Aécio Neves será duríssima. Não há favorito. Isso não impediu as comemorações de praxe. É tudo um jogo: os mercados não precificaram ontem apenas a “surpresa” com a votação obtida pelo tucano, na verdade já iniciaram a precificação das pesquisas prometidas pelo Datafolha e pelo Ibope para quinta-feira. Esperam que estas primeiras sondagens já apontem a liderança do senador, ou, na pior hipótese, um empate técnico. E já estão prontos para a “realização” se esse resultado não vier.

Os mercados fingem que não dão importância ao fato de que a “surpresa” com o desempenho do peessedebista decorre da imprecisão das pesquisas anteriores, o que poderia desqualificar o grau de acerto das próximas. Os próprios institutos salientam que as coletas tiram um instantâneo fotográfico de um momento específico, e que este revela-se nessas eleições de 2014 exageradamente volátil. Mas se alguém comparar a realidade (as urnas apuradas) com as últimas pesquisas antes do primeiro turno irá ver um retrato desfocado. O tucano conquistou 33,55% dos votos válidos, enquanto o Datafolha apurou 26% e o Ibope 27%, em ambos os casos muito fora da margem de erro. Pouco importa para o jogo dos mercados, uma vez que fecham negócios com base em expectativas.

Às vezes, para a tarefa de comprar e vender imensa quantidade de papéis em intervalos de poucas horas, quanto mais as expectativas estiverem longe da realidade maiores os lucros. No fim do dia, depois de tantas idas e vindas, não se sabe direito quem ganhou e quem perdeu, mas a entidade “mercado” estará feliz, pois o comportamento eufórico, ao mostrar que, com as políticas conservadores do PSDB, tudo estará bem — um céu azul de bolsa em alta e juros em queda —, já exerceu a sua função de convencimento do eleitor ainda aberto a influências.
Um dia só não basta. Até porque o jogo promete tornar-se mais bruto a cada nova pesquisa, novo debate e nova entrevista.

Os confrontos na TV irão se concentrar nas duas semanas finais: dia 14 na Bandeirantes; 19, na Record; 22, no SBT; e 24 na Globo. As entrevistas no Jornal Nacional serão dia 20 (Dilma) e 21 (Aécio). A pimenta será diária: o horário eleitoral obrigatório, com tempos iguais para os dois candidatos, retorna na mesma quinta-feira das primeiras pesquisas. Para o mercado, quanto mais agressivas, negativas e sujas forem as campanhas melhor para os negócios. Haverá pesquisas antes e depois de debates, e tudo com o tempero forte de novas denúncias de corrupção.

Mesmo para os profissionais, aptos a desmontar uma operação intrincada em questão de segundos, ao menor cheiro de mudança dos ventos, serão, a partir do dia 9, 12 pregões de emoções febricitantes.

O câmbio e os juros futuros não embarcaram ontem completamente no otimismo da Bovespa. Não quiseram comprar inteiramente o cenário pró-Aécio. Há de fato uma onda anti-Dilma: a petista obteve neste primeiro turno cinco milhões de votos a menos que no primeiro turno de 2010; há quatro anos, ganhou o primeiro turno com uma vantagem de 14,3 pontos sobre José Serra, agora a diferença se reduziu a 8,04 pontos; e a histórica aversão do imenso eleitorado paulista ao PT cresceu de forma assustadora e parece ser de difícil reversão em apenas três semanas. Mas o mercado não assume como verdadeira a argumentação de que o voto de protesto que encontrou em Marina Silva o seu preferencial canal de manifestação tende a ser maciçamente endereçado ao tucano.

A rigor, Marina se despediu do pleito com votação (21,32%) bem parecida com a que obteve em 2010, de 19,33%. Ou seja, votaram nela os velhos marinistas de sempre e não os aecistas praticantes do voto útil. E os marinistas de carteirinha têm ojeriza aos rótulos pespegados no PSDB. Marina corre o risco de perder seus fiéis adoradores se subir no palanque do tucano no segundo turno: rasgará sua principal bandeira, a da “nova política” acima da polarização PT-PSDB, a mesma que fará o próximo presidente.

Dólar e DI sabem que não está nada decidido. Foi por isso que o dólar abriu ontem despencando para que as instituições ajustassem o preço a um patamar mais realista. A taxa de sexta-feira, de R$ 2,4618, estava fora do lugar. A de quinta, roçando os R$ 2,50, se situava então em outro planeta (o dos fundamentos macroeconômicos). O novo degrau a partir do qual o dólar irá oscilar ao sabor das expectativas situa-se agora em R$ 2,42. A moeda abriu o day after em queda de 3,4%, cotado a R$ 2,3782.

Recuperou-se depois, fechando a R$ 2,4266, em desvalorização de 1,43%. O dólar não pode desrespeitar impunemente as condicionantes globais. O que significa dizer que o real não pode, todo dia, mostrar a melhor performance entre as três dezenas de divisas de maior negociabilidade. Se fizer isso, atrairá operações de arbitragem e irá equilibrar-se na marra.

Os contratos de juros futuros negociados na BM&F comportaram-se ontem em sintonia com uma política monetária ao gosto do PSDB: uma curva que supõe alta dos juros nos dois primeiros anos de governo e queda depois. As taxas fecharam em nível bem mais baixo que o de sexta-feira. O contrato para janeiro de 2016 cedeu de 11,91% para 11,84% e, para janeiro de 2017, de 12,12% para 11,94%. Mas o pregão não aposta todas as fichas na vitória da oposição. A taxa de um dos contratos de maior liquidez, para janeiro de 2021, caiu de 12,05% para 11,72%, mas ainda está longe do fundo do poço (10,97%) do tempo em que Marina liderava a corrida.

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